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(A) :: Acampada regressa ao Rossio para "respirar" e planear. "Mais tarde ou mais cedo, vamos voltar a acampar nesta praça"

Acampada regressa ao Rossio para "respirar" e planear. "Mais tarde ou mais cedo, vamos voltar a acampar nesta praça"

Assembleia Popular reuniu 400 pessoas no Rossio e decidiu nova grande ação para sábado. Carolina Deslandes atuou e comoveu. Estudantes da AAC chegaram de Coimbra em solidariedade com a causa.

Marina Ferreira
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Na noite em que os manifestantes regressaram à Praça D. Pedro IV, depois de uma grande manifestação às portas da Assembleia da República na terça-feira, foi tempo de planear os próximos passos da Acampada de Lisboa. A Assembleia Popular desta quarta-feira, com uma afluência mais modesta de cerca de 400 pessoas, decidiu que a próxima grande ação do movimento vai acontecer no próximo sábado, uma semana depois da carga policial sobre os manifestantes que montaram tendas e tentaram pernoitar no Rossio.

Não é certa uma nova tentativa de voltar a tentar acampar nessa ocasião, ou nos próximos dias. Essa intenção terá de ser votada na Assembleia Popular de sábado, mas já é certo que nesse dia vai acontecer uma manifestação com marcha e não apenas uma concentração no Rossio, como aquelas que acontecem diariamente. Uma das manifestantes subiu ao palco para defender que não se organize uma nova manifestação como aquela que percorreu o caminho entre o Marquês de Pombal e o Rossio no fim de semana passado. O receio partilhado é de que só apareçam “meia dúzia de gatos pingados”, gerando uma perceção de perda de força das ações de protesto.

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Outros manifestantes defenderam que a opção por uma manifestação com marcha é familiar para muitos lisboetas, que saem de casa para percorrer as ruas em outros protestos. Consideram que será também uma hipótese de reunir famílias e grupos de amigos, até os que chegam de fora da capital, e expandir a participação da Acampada de Lisboa a mais pessoas que não aquelas que todos os dias chegam ao Rossio para as atividades organizadas pelos membros do movimento de protesto.

Esta quarta-feira, durante a tarde, foram organizadas oficinas de cerâmica para crianças e uma biblioteca infantil. Pelas 19h00 havia pelo Rossio várias crianças com os pais. Mais tarde, pelas 21h00, começaram os concertos que já tinham sido anunciados — e aí a atuação de Carolina Deslandes foi o ponto de maior destaque. No final da noite, pelas 1h00 da madrugada, a praça no Rossio estava quase vazia, apenas com um pequeno grupo de manifestantes a cantar em círculo num coro.

A presença policial foi muito discreta ao longo de toda a noite. Em cada lateral da Praça D. Pedro IV estiveram estacionados dois carros da PSP, cada um com dois agentes. Perto da meia-noite, chegou uma carrinha do corpo de intervenção, sem que qualquer agente tenha saído para o exterior — e acabando por desmobilizar pelas 1h30.

As promessas de voltar a acampar no Rossio e as ‘bocas’ aos socialistas que fizeram o OE passar

O momento em que Priscilla Valadão, porta-voz da Acampada de Lisboa, subiu ao palco para falar sobre a votação na generalidade do Orçamento do Estado para 2027 gerou o maior número de vaias e assobios da noite. Fez questão de notar que o “PS se absteve” na votação do documento orçamental, mesmo não havendo medidas para a habitação ali previstas. E fez questão de garantir: “O PS não nos representa.”

Na terça-feira, uma comitiva de deputados socialistas deslocou-se à manifestação que decorria em frente ao Parlamento. Ao Observador, a deputada Sofia Pereira garantiu que os deputados do PS têm estado entre os manifestantes e garantiu que estão ao lado do protesto, com a deputada Eva Cruzeiro a admitir a legitimidade dos manifestantes em acampar para se manifestar.

No Rossio, uma nova noite de acampada, mesmo após a intervenção policial de sábado passado, foi encarada como uma inevitabilidade. “Mais tarde ou mais cedo, vamos voltar a acampar nesta praça e temos de decidir como é que vamos reagir perante a polícia de choque”, afirmou um manifestante a intervir na Assembleia Popular da Acampada de Lisboa.

A maior parte da assembleia foi ocupada por testemunhos partilhados por muitos manifestantes. “A minha neta mais velha, de 25 anos, vive no Porto e tem de partilhar a casa com três pessoas para conseguir pagar a renda”, lamentou um manifestante de 73 anos.

Tamara tem medo de ver o seu T0 a 350 euros a fugir. Estudantes de Coimbra vieram a Lisboa para apoiar Acampada

Durante a Assembleia Popular, a oficina de leitura para crianças ainda decorria. Tamara tem o filho de amigos às cavalitas e diz ao Observador que o que está a acontecer no Rossio nas últimas semanas não é “só uma ação de protesto”. “É também o momento de demonstrarmos como é que a cidade podia ser”, diz, apontando para as crianças a brincar e a modelar cerâmica em cima de uma manta.

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É espanhola e vive em Portugal há 12 anos. Em 2010, arrendou um T0 a 350 euros no centro da cidade e desde então que a renda se tem mantido inalterada. Tamara, que é produtora de cinema, tem noção da raridade da sua situação: “Este contrato pode acabar a qualquer momento e a questão é que não poderia viver nesta cidade com o ordenado português que tenho.”

Ao fundo da praça, vindos de Coimbra, alguns membros da Associação Académica de Coimbra (AAC), a envergar o traje académico, juntaram-se ao protesto da Acampada de Lisboa. Ao Observador, José Machado, presidente da AAC, diz que os estudantes se deslocaram à capital “em espírito de solidariedade pela causa”.

“Enquanto estudantes do ensino superior lidamos duplamente com este problema, seja ao longo da frequência do ensino, seja quando saímos e queremos sair da casa dos nossos pais”, acrescenta. Cita dados que indicam que “dezenas de estudantes têm de abandonar o ensino porque não conseguem suportar os custos associados à habitação”.

“Associamo-nos a este movimento e a esta causa, que não é de esquerda nem de direita, é a defesa de um direito constitucional”, diz ainda.

Deslandes subiu ao palco da Acampada e deixou manifestantes “respirar”. “Não sei se teria a vossa coragem”

Já depois das 21h00, Carolina Deslandes subiu ao palco improvisado da Acampada. Foi a sua primeira atuação no Rossio, mas a artista garante que já esteve no protesto, que dura há quase duas semanas, quatro vezes. “Em todas elas emocionei-me”, confessou.

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“Quero agradecer por aquilo que estão aqui a fazer, não sei o que é estar aqui e ver a polícia a avançar e não andar para trás”, disse a cantora aos manifestantes. “Não sei se teria a vossa coragem e por isso agradeço-vos do fundo do coração”, afirmou também.

Cantou quatro temas, entre eles “A saia da Carolina”, da sua autoria, mas também a música de Jorge Palma “A gente vai continuar”. Ainda a dirigir-se aos manifestantes, partilhou: “Vocês fazem parte do lado da história que eu quero contar aos meus filhos”. Entre quem assistia, havia várias pessoas emocionadas com a atuação.

Ao público, Deslandes pediu que o momento da atuação fosse de amor e reunião. “Precisamos de estar juntos, respirar e cantar um bocadinho”.

As atuações que se lhe seguiriam foram pontuadas por apelos à liberdade para protestar. “A luta continua”, gritou-se do palco. “A vossa luta é a luta de um país inteiro”, ouviu-se da voz da banda Red Chikas. Depois das atuações, os manifestantes dispersaram rapidamente. Por volta da 1h00 da madrugada já não havia manifestantes no Rossio, apenas cartazes em redor da estátua de D. Pedro IV.