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(A) :: Dormia pouco, bebia muito café, não fazia exercício, viu detetado "o" problema: o que se sabe sobre o colapso de Kompany

Dormia pouco, bebia muito café, não fazia exercício, viu detetado "o" problema: o que se sabe sobre o colapso de Kompany

Uma semana depois, Kompany voltou a casa mas continua em repouso. Diretor desportivo do Bayern fala em "problema de saúde" e não excesso de trabalho. Adjunto diz que está proibido de falar de futebol.

Bruno Roseiro
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Estava aparentemente tranquilo a ver o treino da formação secundária do Bayern no centro de estágios do clube, em Munique, teve um colapso, caiu para o lado, foi socorrido por médicos que chegaram de pronto de helicóptero ao local para prestar os primeiros cuidados, acabou por ser retirado depois de ambulância para o hospital. Antigo jogador e internacional belga com mais de uma década a representar o Manchester City na Premier League, Vincent Kompany apanhou o susto de uma vida com apenas 40 anos quando faz apenas a sexta temporada como treinador. Falou-se de múltiplas explicações, afinal havia uma razão “médica”. No entanto, a situação do técnico, estando nesta altura controlada, não deixou de ficar como um alerta.

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No final da semana, Max Eberl, diretor desportivo do Bayern, tentou quase relativizar tudo o que foi sendo escrito nos últimos dias, explicando aquilo que os vários exames conseguiram perceber. “Trata-se de uma irritação nas meninges que provocou precisamente o incidente de sexta-feira. Estou certo de que ele estará a 100% na linha lateral muito em breve. Excesso de trabalho? Trata-se de um problema de saúde, é preciso separar as coisas com toda a clareza. Não tem nada a ver com a pressão que existe na Bundesliga”, fez questão de assegurar o dirigente dos bávaros no momento em que Vincent Kompany regressou a casa – sem fazer qualquer alusão à luxação no ombro que o treinador terá sofrido no momento em que sofreu o colapso.

Em menos de 24 horas, e no lançamento do clássico na Bundesliga frente ao B. Dortmund onde estará em discussão a liderança da prova, os “factos” acabaram por recentrar o problema. “Se falo com o Vince sobre a equipa? Não, não falo. Estamos a levar a situação muito a sério. Tenho instruções claras do Max [Eberl] e do Christoph [Freund] para não me envolver nesse tipo de conversas, em primeiro lugar, e para mantê-lo ocupado unicamente com a sua saúde e a passar tempo com a família. Queremos que ele descanse e recupere devidamente para que, quando regressar, esteja totalmente em forma e nos possa ajudar da melhor forma possível. Estamos a ser muito rigorosos neste ponto e a manter o futebol completamente de fora”, assumiu o técnico interino do conjunto de Munique, Aaron Danks, que tem orientado a equipa em vez de Kompany.

Recuperando tudo o que se foi escrevendo depois do susto, sabe-se agora que o belga teve uma infeção viral uns dias antes do colapso que o deixou mais frágil e que nesse mesmo dia sentira fortes dores de cabeça que terá desvalorizado por achar que era algo circunstancial. “Será dado todo o tempo de que precisar. Não vamos estabelecer prazos. Não falaremos em dias mas sim em semanas. Isso tem de ficar claro para todos. Isto demonstra que o futebol não é o mais importante na vida. No Bayern estamos todos unidos. O mais importante é descobrir a causa da doença do Vincent, que recupere e que só depois possa regressar. Esse será o maior desafio: protegê-lo, até certo ponto, de si”, destacou Max Eberl no primeiro update feito.

Alguns jornais alemães foram falando de mais pontos que podem ter contribuído para o que aconteceu ao treinador dos bávaros: dormir pouco, beber demasiado café, não ter tempo para praticar exercício físico, não ligar aos cuidados com a alimentação, “esconder” problemas como as dores nas costas que o assolavam há algum tempo. Kompany foi quase descrito como um workaholic, que pretende estar em todas as decisões estruturais do clube que tenham ligação direta ao futebol. Exemplo: além de ficar a analisar até altas horas da madrugada os encontros dos adversários, o técnico esteve ligado a todo o processo de expansão do atual centro de treinos, incluindo pormenores como a vedação que tapou o campo da equipa principal.

Como treinador, queres sempre fazer tudo. Apanhei um vírus forte na semana passada e, claro, não ouvi o meu corpo. A certa altura o meu corpo simplesmente disse: ‘Já chega'”, comentara o próprio Vincent Kompany após a igualdade do Bayern frente ao Arsenal na Liga dos Campeões.

No ano passado, o pai do técnico, Pierre Kompany, também tinha deixado um alerta em relação ao ritmo que o filho tinha como treinador. “Trabalha 18 horas por dia e mal vê os filhos. Enquanto jogador já era disciplinado mas agora, como treinador, é mais exigente. Tem uma rotina diária que praticamente não lhe permite fazer pausas. De manhã cedo, já está no centro de treinos e, à noite, é o último a sair. Trabalha, na maioria dos dias, 18 horas por dia e, em dias normais, mal vê os filhos. Ensinámos os nossos filhos a não reagirem com raiva mas sim através do seu desempenho. A mãe deles, entretanto falecida, foi muito importante. Desde que começaram a falar, dizia-lhes muito claramente: ‘Têm de trabalhar muito mais do que os outros para serem bem-sucedidos'”, apontou numa entrevista que concedera em 2025.

Têm sido muitas as mensagens de apoio a Kompany, da restante equipa técnica aos adeptos, passando pelos jogadores que não esquecem o seu número 1 como Harry Kane, avançado inglês que ganhou a Bola de Ouro e deixou também uma dedicatória ao belga. “Acho que o Vinny [Kompany] ainda está no hospital, só lhe posso desejar as melhoras. Espero que isto te possa dar um pouco mais de energia. A forma como trabalhamos, a forma como nos exiges… Devo-te o meu desenvolvimento como jogador, como pessoa e como líder. Que homem que é, ainda esta manhã me ligou. Obviamente que se encontra melhor”, referiu.

Quem não gostou do que se passou foi Matthias Sammer, outro antigo Bola de Ouro em 1996, quando venceu o Campeonato da Europa de seleções, que foi diretor desportivo do Bayern. “O treinador deixou de ser uma figura de respeito. Em Inglaterra é chamado boss [chefe], no Brasil é professor, em Itália é mister [senhor]. E sempre disse que aqui, na Alemanha, o treinador é apenas um completo idiota. A preocupação gerada em torno do Kompany enojou-me. Pessoas como o Kompany, o Kovac e o Klopp são vulneráveis e podem adoecer. Mas estamos a agir como se isso não pudesse acontecer. Depois, de repente, estamos todos preocupados. Estamos demasiado focados nas críticas aos treinadores e depois, de um momento para o outro, fingimos estar chocados quando um deles colapsa. Só espero que recupere e possa estar de volta para a sua carreira como treinador”, comentou o ex-defesa/médio sobre toda a pressão em torno dos treinadores, neste caso um técnico com apenas seis anos de carreira entre Anderlecht, Burnley e Bayern.

https://observador.pt/2026/04/19/kompany-o-graduado-em-politica-que-se-tornou-mestre-a-pensar-futebol-bayern-sagra-se-bicampeao-e-pode-ganhar-tudo-em-2025-26/

Filho de pai congolês radicado na Bélgica e de mãe belga, Vincent Kompany sempre teve na política uma das paixões paralelas ao futebol. As influências, essas, vinham de vários lados: do pai, Pierre, que em 2018 se tornou o primeiro presidente de Câmara negro no país em Ganshoren; da mãe, Jocelyne, que descrevia como alguém “socialista, quase comunista”; do próprio, que teve problemas quando era mais novo pelas revoltas contra Mobutu Sese Seko. Nascido na periferia de Bruxelas, tinha tudo para se desviar pelos piores caminhos, chegou a ser expulso de uma escola por faltar muito (também por influência das chamadas às seleções jovens belgas), foi afastado da equipa pelos “choques” com o técnico e teve aos 20 um ano de pesadelo, quando a mãe e a irmã foram submetidas a tratamentos contra o cancro – e a mãe não resistiu, sendo que entretanto os pais já se tinham separado e Vincent foi obrigado a deixar a casa onde vivia.

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Seria nesse ano que chegaria a primeira proposta aceite para jogar fora de portas, neste caso pelos alemães do Hamburgo, depois de abordagens que começaram ainda em 2003, neste caso de Alex Ferguson que via no central um nome a médio/longo prazo para o Manchester United (algo que só não avançou porque a mãe do jogador quis que terminasse os estudos). Dois anos depois, aquele que ficaria como segundo clube de uma vida surgiu, com mais de uma década ao serviço do Manchester City no arranque da atual era de vitórias até sair em 2019 para a última temporada pelo Anderlecht, onde começaria a carreira de treinador. Após ter sido bicampeão belga, o central conquistou quatro Campeonatos, duas Taças de Inglaterra, quatro Taças da Liga e duas Supertaças pelos citizens, em muitas delas já como capitão de uma equipa que começava a ser uma constelação de estrelas – algo que lhe valeria depois uma estátua à porta do Etihad Stadium.

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Em paralelo com uma vida dedicada ao futebol, Kompany teve sempre grande interesse na política e chegou mesmo a concluir um MBA na Manchester Business School em 2018, na antecâmara de deixar o City, ao mesmo tempo que foi alargando o número de línguas que falava. No entanto, nem tudo correu sempre da melhor forma ao agora treinador fora dos relvados, com o negócio de dois sports bars, o Good Kompany, a durar pouco mais de um ano em Bruxelas e em Antuérpia porque, apesar das receitas interessantes que eram faturadas, não cobriam as despesas. “Lição 1 nos negócios: os investimentos são sempre um risco. Às vezes tu ganhas, às vezes tu perdes”, contou na altura. Daí para cá, a vida ficou somente no futebol e nos estudos.