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Uma avaria informática seguida de dupla falha humana: as causas do choque entre comboios em Toledo

Quando o controlo de circulação passou para o modo manual não foi dada a ordem para um dos comboios de alta velocidade parar ou abrandar. Viagem demorou 17 minutos até ao momento da colisão.

Ana Suspiro
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Martim Andrade
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Os primeiros dados que vão chegando da investigação ao acidente em Urda, perto de Toledo, em Espanha, apontam para uma combinação de falha informática e erro humano ao nível dos responsáveis pela operação da empresa que gere a infraestrutura ferroviária, a ADIF.

O ministro dos Transportes espanhol confirmou que o sistema de sinalização que controla de forma automática a circulação ferroviária, LZB, falhou, o que levou à paragem de todos os comboios que circulavam no troço afetado na linha da Andaluzia. Um dos comboios que parou perto da estação de Urda, em Toledo, a cerca de 60 quilómetros da capital espanhola, era do operador italiano Iryo. Tinha partido minutos antes com destino a Sevilha com 147 passageiros. Foi abalroado por um comboio da Renfe, um AVE com 397 passageiros, que tinha recebido ordem para avançar à velocidade normal pelo centro de controlo em Madrid.

A cronologia dos eventos já conhecida indica que o AVE demorou 17 minutos a percorrer os 25 quilómetros de distância até chocar com a carruagem traseira do Iryo. O que a investigação vai apurar é porque ninguém no centro de controlo de tráfego da ADIF o mandou parar ou travar durante esse período.

Quando o sistema automático de sinalização falha, o protocolo de segurança estabelece que o controlo da circulação ferroviária passe para o modo manual e foi a este nível que terá ocorrido uma dupla falha humana, de acordo com testemunhos recolhidos pelo jornal El País, que cita fontes governamentais e confirmadas por Óscar Puente em conferência de imprensa no início da tarde.

Foi por volta das 8h30 (hora em Lisboa) que se registou a falha informática que apagou o sistema. A essa hora, existiam seis comboios num raio de 63 km da estação que, por razões de segurança, foram instruídos a interromper a marcha. O controlo passou para as mãos de um operador da ADIF (gestora da infraestrutura) no centro de controlo em Atocha. Seis minutos após ter sido identificado o erro no sistema, às 8h36, Óscar Puente explica que o maquinista do AVE que seguia para Sevilha foi instruído a continuar a marcha normalmente, “ao contrário do que é suposto nestas situações”, admite. “Não poderia fazê-lo, havia um sinal vermelho”, acrescenta.

Pelas 8h53, e ao contrário de outras composições que circulavam no mesmo troço, o comboio do operador italiano Iryo não retomou a viagem depois de o sistema ter passado para o modo manual, por razões que ainda não estão claras. Ou esperava instruções ou não conseguiu retomar a marcha, mas terá avisado o centro de controlo que estava parado 10 minutos antes da colisão. “Não sei porque não avançou”, admite o ministro.

O problema é que o operador que estava no centro de controlo de tráfego não reagiu como seria de esperar. Deu ordem ao comboio da Renfe para avançar na mesma direção, sem ao menos adotar o protocolo recomendado nestas situações que é a seguir em modo de marcha à vista. A uma velocidade máxima de 40 quilómetros por hora, o maquinista do comboio que colidiu teria mais margem para reagir atempadamente caso surgisse um obstáculo à circulação, e neste caso frenar (travar) antes de chocar com violência com a última carruagem da composição que estava parada.

Ainda não está apurada a velocidade a que seguia o comboio de alta velocidade da Renfe, mas o ministro explica que o AVE poderia estar a circular a cerca de 200 quilómetros por hora no momento da colisão, dadas as configurações do troço de pista onde ocorreu o acidente. Mesmo assim, Óscar Puente recusa apontar responsabilidades a um indivíduo em concreto, reforçando que está apenas a relatar os factos apurados nestas primeiras horas de investigação. “Tudo o resto será revelado pela investigação”, afirmou.

O governante qualifica de “inexplicável” esta falha humana, porque o responsável pelo sistema de controlo central estaria a ver num ecrã o comboio que estava parado a cerca de 25 quilómetros à frente do AVE, ao qual terá dado instruções para avançar. O controlador em causa já está a receber apoio jurídico e psicológico, dada a gravidade da situação. Não é claro se as instruções que deu ao comboio da Renfe estavam a ser acompanhadas por um supervisor, mas tudo terá ficado registado para a investigação.

Mas segundo Óscar Puente, houve um outro erro humano naquele instante.

Para além da ordem dada para o maquinista do AVE retomar a marcha com normalidade, apesar de a via estar impedida, houve também um outro comboio, naquele raio afetado pela falha do sistema de sinalização, que recebeu instruções para continuar viagem. O ministro dos Transportes explica que, por conseguir verificar que o caminho não estava seguro à sua frente, confrontou o centro de controlo que deu a ordem, que rapidamente assumiu o erro. “Foi o maquinista que corrigiu o operador”, descreve o governante.

Nestas primeiras explicações não foi avançado o motivo para a falha informática que paralisou o sistema de sinalização naquele troço, bem como os mecanismos de redundância deste, nem se sabe se estas falhas são frequentes.

Esta colisão terá provocado pelo menos 68 mortos, ultrapassando em gravidade o acidente que ocorreu em janeiro deste ano também entre os dois comboios de alta velocidade, em Adamuz (Córdova) e que provocou 46 mortos. Esta investigação ainda não está concluída, mas a causa provável é uma rotura de um carril, ou seja, uma falha de manutenção ao nível das infraestruturas. Neste acidente de Toledo, tudo indica que a falha foi ao nível da operação. O pior acidente com um comboio de alta velocidade em Espanha ocorreu na Galiza em 2013, provocando 80 mortos. A causa identificada foi o excesso de velocidade.

Espanha é um dos países com maior rede de alta velocidade na Europa e os serviços de longa distância estão liberalizados. Neste momento há três operadores a usarem a mesma infraestrutura — a Renfe, a Iryo ligada à Trenitalia e uma subsidiária da francesa SNCF — e o país tem sido apontado como um exemplo na União Europeia da aposta no transporte ferroviário.

A linha em que ocorreu este acidente foi a primeira da rede de alta velocidade em Espanha, inaugurada em 1992 por ocasião da Exposição Internacional de Sevilha.