O Rei Carlos III começou esta terça-feira um périplo caribenho que deverá estender-se por nove dias e incluir (pelo menos) três discursos significativos. Nesta tour de outono, o monarca arrancou a viagem oficial, uma das mais politicamente carregadas, nas Bahamas, e, sem grandes surpresas, não foi possível escapar a um dos tópicos mais quentes na agenda. “Parte do que é bom na cultura bahamiana de hoje – a mais alegre, a mais esperançosa, a mais brilhante – nasceu da escuridão”, admitiu o monarca na sua primeira intervenção, em Clifford Park, que visitara pela última vez em 1973. Nesta cerimónia em Nassau, duas horas depois da chegada, o Rei mencionou ainda o “grande sofrimento” causado pelo tráfico de escravos nas Caraíbas, sublinha o The Telegraph, citando uma fonte do palácio que expressou o desejo do monarca: Carlos III, que após esta escala rumará à Guiana, e ainda a Antigua e Barbuda (onde se juntará à rainha Camilla), pretende “engajar, compreender e educar sobre os aspetos mais vergonhosos do nosso passado”. “É justo que reconheçamos o grande sofrimento do passado, nestas ilhas e além, assim como nos alegramos com os sucessos do presente e construímos novas oportunidades para o futuro”, referiu Carlos.
No âmbito deste encontro de jovens que discutiu o futuro do país, o Rei garantiu ainda que o tema das reparações históricas será debatido na próxima semana, no contexto da Reunião dos Chefes de Governo da Comunidade Commonwealth (CHOGM). “Acho que é a maior encruzilhada para a Comunidade desde a sua criação”, alertou Patrick Vernon, um historiador cultural e representante do Reino Unido do Conselho da Diáspora da Jamaica Global, citado pelo The Guardian, que admite que este périplo de Carlos III pode precipitar a sua remoção da chefia da Commonwealth. Acredita-se que seja um dos momentos de maior teste. Na semana passada, o secretário-geral da Commonwealth disse que um pedido de desculpas pela escravidão “não faria mal” e que “chegou o tempo” para uma discussão sobre reparações.

Para já, sabe-se que o governo britânico descartou este cenário, e a expectativa é que o monarca siga alinhado com este rumo, aconselhado a evitar um pedido formal de desculpas pelo papel da Grã-Bretanha no tráfico transatlântico de escravos, uma pressão que deverá fazer-se escutar também nas ruas — espera-se que a visita seja recebida com protestos sobre o legado colonial da monarquia, agora que passam quatro anos sobre a não menos polémica visita dos príncipes de Gales em 2022, quando imagens de William e Kate a saudarem crianças jamaicanas através de uma cerca de arames provocaram críticas em toda a região.
Reconhecimento sem responsabilidade. Tem sido esta a posição formal do palácio. Segundo o The Guardian, a decisão fundamenta-se em aconselhamento jurídico que avisa que um pedido formal de desculpas poderia estabelecer um precedente expondo a Grã-Bretanha a exigências semelhantes de dezenas de outras ex-colónias.
Um porta-voz de Buckingham sublinhou “a obra que Sua Majestade tem feito ao longo de muitos anos, tanto para reconhecer os erros do passado como para encontrar maneiras criativas de corrigir as desigualdades que persistem”, mas as intenções ficam por aqui. Ao longo destes dias, são esperadas nuances nas intervenções mais vocais. À ITV News, o Presidente da Guiana, Mohamed Irfaan Ali, referiu que as expressões passadas do Rei de arrependimento sobre “os dias mais sombrios do nosso passado” são bem-vindas em princípio, mas na prática já não são adequadas, defendendo que há novos passos concretos que devem ser seguidos: um pedido de desculpas formal e um acerto de contas preparatório numa forma ainda por definir.

Em bom rigor, a repreensão mais sonante vem de países que ficaram de fora deste périplo real, a começar pela Jamaica e pelo seu desejo de se tornar uma república independente da coroa britânica. Mas a pressão vai além de cada antiga colónia, de forma isolada. A CARICOM — Comunidade das Caraíbas e os seus membros e Estados associados — tem insistido para que as reparações sejam inscritas na ordem do dia do CHOGM 2026. Responsáveis como a secretária-geral, Carla Barnett, argumentam mesmo que o desenvolvimento sustentável destes destinos exige mais do que um gesto simbólico, antes uma reparação estrutural.
Hilary Beckles, Vice-Chanceler da Universidade das Índias Ocidentais e um dos principais historiadores caribenhos do tráfico de escravos, que preside à Comissão de Reparações CARICOM, apresentou mesmo um plano de ação de 10 pontos que apela a um pedido formal de desculpas britânicas, ao cancelamento da dívida caribenha e ao investimento público sustentado em sistemas de saúde e educação em toda a região. Em cima da mesa estão também compensações financeiras ou o acionamento de mecanismos como o repatriamento de artefactos culturais.
Na última década, Carlos fez várias viagens às Caraíbas, incluindo uma visita em novembro de 2021 a Barbados, para as cerimónias que marcam a sua transição para uma república. Em 2019, com Camilla, cumpriu um itinerário que abrangeu Santa Lúcia, Barbados, São Vicente e Granadinas, São Cristóvão e Nevis, Granada, Cuba e Ilhas Cayman.
Nesta ocasião, o programa da sua tour de dia 28 de outubro inclui uma celebração na Praça do Parlamento e Praça Rawson, uma receção nos jardins da Casa do Governo, organizada pela governadora-geral Cynthia Pratt, reunindo representantes de instituições nacionais e convidados de todo o país; uma passagem pelo Bonefish Pond National Park, focada em conservação marinha, e ainda mais um encontro com jovens na Academia de Boxe das Bahamas. O monarca ficará no país até dia 29, quando partirá para a Guiana.