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(A) :: Afinal, Netanyahu sobrevive, diz que é proibido pôr partidos árabes no governo e agarra-se a Trump para atacar já o Irão

Afinal, Netanyahu sobrevive, diz que é proibido pôr partidos árabes no governo e agarra-se a Trump para atacar já o Irão

Uma reviravolta levou Netanyahu a esperar até às 3 da manhã. Afinal a sua coligação pode ter empatado ou vencido o bloco de Eisenkot. Vai tentar sobreviver atacando já o Irão com a ajuda de Trump.

Pedro Jorge Castro
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João Porfírio
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Quantas vezes já foi decretada a morte política de Benjamin Netanyahu, desde que foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez há 30 anos? Pelo menos umas quatro: quando perdeu em 1999 para Ehud Barak; quando foi formalmente acusado de corrupção, num processo que ainda continua; quando venceu as eleições em 2021, mas viu a coligação de Naftali Bennett e Yair Lapid formar governo; e na madrugada desta quarta-feira, quando vários líderes de partidos da oposição anunciaram a sua derrota.

Pode ter sido afinal uma precipitação: falaram todos com base nas projeções que davam o Likud de Netanyahu como partido mais votado, mas superado pelo bloco da oposição no total dos votos que juntam os vários partidos e as suas alianças naturais.

Depois da uma da manhã, houve projeções que foram corrigidas com base nos resultados oficiais e a tendência inverteu-se. Duas projeções dão os dois blocos empatados, com 51 deputados. E a projeção atualizada do canal 12 atribui 52 deputados à coligação de Netanyahu e 49 ao bloco da oposição liderado por Eisenkot.

Primeira consequência: muito do que tinha sido até aí pelos líderes dos partidos da oposição e por comentadores ficou rapidamente desatualizado.

Segunda consequência: Benjamin Netanyahu fez esperar as dezenas de apoiantes que se concentraram no Centro de Conferências de Jerusalém até depois das 3 da manhã, possivelmente para recolher mais informação e afinar o discurso.

Terceira consequência: como líder do partido mais votado e com hipóteses reais de a sua coligação empatar ou superar os votos do bloco de Eisenkot, pôde simplesmente ignorar o desafio que lhe tinha sido lançado 3 horas antes pelo principal adversário, para se demitir do cargo e abrir espaço a uma eventual aliança do Likud com Eisenkot, que não o obrigue a ficar refém do apoio dos partidos árabes.

Quarta consequência: estes resultados eleitorais conduzem a uma barafunda política, que não permite vislumbrar nenhuma forma simples de algum bloco conseguir a maioria de 61 deputados, que permita viabilizar um novo governo.

Quinta consequência: de repente, a consequência número 4 pode nem ser assim tão importante, porque Benjamin Netanyahu passou o início do seu discurso de vitória a justificar a nova guerra com o Irão, que deve estar para começar depois das midterms da próxima terça-feira nos Estados Unidos.

O anúncio da guerra final contra o Irão, “com o maravilhoso amigo Trump”

Tudo a pensar em coligações e negociações de bastidores para chegar a uma maioria de 61 deputados, mas Netanyahu não começou por nada disso, quase como se a governação fosse uma questão menor. “Estamos a realizar prodígios que mudaram o rosto do Médio Oriente”, afirmou o primeiro-ministro israelita, enumerando a seguir os alvos abatidos no Hamas e no Hezbollah.

“Subjugámos o regime iraniano, levámo-lo à beira do abismo. O Irão está mais fraco do que nunca, Israel está mais forte do que nunca!”, proclamou Netanyahu, antes de anunciar o que parece iminente: “Meus amigos, isto ainda não terminou. (…) Com as nossas forças, juntamente com o nosso maravilhoso amigo, o Presidente Trump, iremos remover esta ameaça de uma vez por todas!”

A Casa Branca terá impedido o ataque ao Irão antes das eleições em Israel, contrariando o que teria sido o desejo de Netanyahu. Se esta nova guerra tivesse começado em plena campanha, poderia ter dramatizado ainda mais o ato eleitoral, ou mesmo posto em causa a sua realização — o que levou até a um alegado desentendimento entre o primeiro-ministro e o seu Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, que se terá mostrado contra o lançamento da operação.

Mas já circulam relatos na imprensa de que os Estados Unidos avisaram aliados do Golfo de que poderão começar o ataque ao Irão depois das midterms.

Partidos árabes no governo? Netanyahu avisou três vezes que é proibido

As consequências de uma nova guerra tornam ainda mais imprevisível o processo de formação de um novo governo. Netanyahu alerta contra qualquer cenário que torne o futuro político do país dependente dos dois partidos árabes, que viram crescer a sua representação de 10 para 18 deputados, e são um dos vencedores aritméticos destas eleições.

A ideia é já condicionar politicamente a hipótese de Eisenkot fazer um acordo com os dois partidos, cujos líderes deram sinais esta noite nos seus discursos de que o mais importante é afastar Netanyahu.

“Devemos formar um governo de direita, nacionalista, forte! É isso que precisa de ser feito. É proibido, simplesmente proibido arriscar Israel e formar um governo apoiado em partidos árabes anti-sionistas!"
Benjamin Netanyahu, no discurso de vitória

Netanyahu respondeu no seu discurso que o mais importante é afastá-los a eles de qualquer solução governativa: “É proibido, simplesmente proibido arriscar Israel e formar um governo apoiado em partidos árabes antissionistas! Partidos que se opõem à nossa própria existência, que veem o Hamas como uma organização de caridade, que chamam aos nossos soldados ‘criminosos de guerra’!”

Os seus apoiantes entusiasmaram-se, a gritar em coro que seria uma “Vergonha!”. E Netanyahu aproveitou a deixa: “É de facto uma vergonha! E eu pergunto: a que ponto chegámos? Como é que falam de uma ‘aliança dos que servem’ [o exército], quando se aliam àqueles que atacam os nossos combatentes?”

Para não haver dúvidas, reforçou: “É uma vergonha e uma desgraça, exatamente assim! É imperativo não permitir que tal coisa ganhe forma.”

Eis a alternativa proposta por Netanyahu: “Devemos formar um governo de direita, nacionalista, forte! É isso que precisa de ser feito. É proibido, simplesmente proibido arriscar Israel e formar um governo apoiado em partidos árabes anti-sionistas!”

Disse três vezes que era proibido fazer acordos de governo com os árabes, mas não transmitiu uma ideia clara de como se consegue uma maioria no parlamento com esta correlação de forças.

Os cenários difíceis para Eisenkot e Netanyahu

O calendário político dos próximos dias depois da divulgação dos resultados oficiais prevê audições do Presidente da República a todos os líderes dos partidos representados no Knesset. Nessas reuniões, cada partido deve fazer uma recomendação para primeiro-ministro.

O Presidente, Isaac Herzog, (filho de um ex-Presidente que foi chefe das secretas), não tem de indicar o líder do partido mais votado para formar governo. Pode ir logo para aquele que, segundo as indicações dos vários partidos, estiver mais próximo de conseguir a maioria de 61 deputados.

Há vários cenários em cima da mesa para serem tentados por Eisenkot, cujo resultado acaba por ficar aquém das expetativas: não só perde o primeiro lugar que trazia das sondagens da campanha, como fica a seis deputados do partido do primeiro-ministro.

O primeiro cenário, que seria uma espécie de governo de salvação nacional com o Likud, foi condicionado à demissão de Netanyahu, mas tornou-se improvável, ainda mais se a coligação do governo empatar ou superar os votos do bloco da oposição.

Segue-se a questão sensível do apoio dos árabes. Um deles, o Ra’am, liderado por Mansour Abbas, tem uma postura pragmática, de negociar melhores condições e mais verbas do orçamento para os seus eleitores, que já o levou a integrar o governo em 2021 (sem Netanyahu). Outro, o Hadash-Ta’al, é mais focado na defesa da causa palestiniana, o que tornará muito difícil o estabelecimento de acordos.

A eventual associação ou dependência dos partidos árabes é altamente melindrosa para vários partidos do bloco da oposição, que podem não aceitar os termos de um eventual acordo: e a saída de qualquer um desses partidos é um risco que Eisenkot não se pode dar ao luxo de correr, porque põe novamente em causa a maioria. Talvez haja uma margem estreita para acordos apenas de incidência parlamentar, que não impliquem a participação de representantes árabes no governo.

Os partidos ultraortodoxos, habitualmente contabilizados na coligação de Netanyahu, passaram recados esta noite de que admitiriam trabalhar com Eisenkot, se conseguissem uma lei razoável para resolver a questão do serviço militar obrigatório (que alegam que os impede de se concentrarem no estudo da Torá). Mas esta é uma questão tão sensível, e uma tão grande bandeira da campanha de Eisenkot e de outros partidos deste bloco, que parece também um cenário improvável.

Primeiros-ministros rotativos ou caça aos deputados?

Já os apoiantes de Netanyahu esperam que através de mais um golpe de magia o “Rei de Israel”, como lhe chamam nos comícios, consiga alargar a sua base, impondo um governo com o bloco da oposição mas liderado por ele, para gerir a nova guerra contra o Irão e aproveitar a boa relação com Trump.

Um cenário de que se falou muito esta noite na sua sede de candidatura foi a repetição de uma solução já usada para resolver impasses eleitorais noutros anos: o primeiro-ministro rotativo — Netanyahu manter-se-ia no cargo nos primeiros dois anos de mandato, com o compromisso de depois dar o lugar a Eisenkot.

Se o bloco da oposição se mantiver coeso e recusar Netanyahu, resta-lhe tentar aliciar deputado a deputado, a ver se consegue passar para o seu lado um número suficiente que lhe permita chegar ao número mágico dos 61 — para continuar no cargo de primeiro-ministro, depois de lhe terem anunciado, talvez prematuramente, mais um fim político que afinal ainda não o é.