O movimento Acampada não tem meias palavras para descrever a multidão que dia após dia continua a marcar presença na Praça D. João I, a partir das 19h, para a Assembleia Popular diária. “Inacreditável. Continua a ser uma assembleia bastante participada, não só no início, mas até às 21h”, destaca Leonor Figueiredo. A concentração, com centenas de pessoas, voltou a repetir-se nos mesmos moldes, mas com uma ausência que não passa despercebida: as tendas, símbolo maior do protesto pela habitação.
Ainda assim, o segundo ponto levado a votos nesta assembleia foi mesmo a “permanência na praça”. Para já, não há perspetiva de que as tendas voltem a ser montadas, mas há essa expectativa e essa intenção até poderá voltar a ser discutida na tarde de quarta-feira. Quase certo, para Leonor e para os restantes membros da organização do movimento, é a continuidade, mesmo sem pernoita, na praça. “Continuaremos a estar aqui todos os dias”, disse aos jornalistas, enquanto se sucediam discursos de manifestantes ao microfone. “Continuará a ser assim até o povo decidir que já não é assim”.
No entanto, esta terça-feira a Praça D. João I não foi o único ponto de encontro para aqueles que, na cidade do Porto, quiseram sair à rua e protestar por melhores condições no acesso à habitação. A cerca de 600 metros, a sempre movimentada estação de Metro da Trindade teve à porta uma concentração que chegou a reunir cerca de 200 pessoas numa mobilização organizada pela plataforma Casa para Viver.
Se a escolha do local — “onde passa muita gente” — não foi inocente, tampouco o dia. “Esta data não foi escolhida ao acaso, iniciou-se hoje [terça-feira] a discussão do Orçamento do Estado (OE) na Assembleia da República”, explicou Raquel Ferreira, da organização da plataforma, aos jornalistas. “As pessoas que têm participado nos protestos na Praça D. João I já estão mobilizadas e sensibilizadas para o problema da habitação”, acrescentou, destacando o objetivo de “contactar com mais gente”.
Por esse motivo o protesto não se concentrou apenas no Porto, mas também em Lisboa, Coimbra ou Faro, focados em “marcar uma posição”, ao mostrar o “descontentamento” através de “testemunhos de pessoas que sofrem na pele o problema da habitação”. “Nós exigimos, desde já, que o OE responda aos problemas da habitação no nosso país, que é algo que este OE que está em cima da mesa não vai fazer, até porque as verbas destinadas à habitação vão baixar. Exigimos também o fim da lei das rendas, esta discussão do novo regime do arrendamento urbano vem agravar a situação em que milhares de pessoas se encontram no nosso país. Queremos não só que essa lei não vá para a frente, como também que haja alterações na [lei] que já existe e que proteja quem precisa de casa para viver”.
O movimento das pessoas em frente à estação seguiu a azáfama habitual, com a maioria dos passageiros a entrar e a sair do metro e a parar pouco tempo para ouvir o coro popular, acompanhar os testemunhos ou ver as imagens projetadas pela plataforma que reúne várias outras associações — como o Projeto Ruído, o Vida Justa e o Vizinhos em Vias de Extinção.

“Para quem fala tanto em regras…”
Antes das 18h30, hora marcada para o início da manifestação, Patrícia Figueiredo, um dos rostos do movimento Vizinhos em Vias de Extinção, já aguardava no local, entre dezenas de estudantes universitários trajados a rigor que entraram para a estação antes do arranque da concentração. Ao Observador, a psicóloga não poupou as palavras no momento de condenar a “aberração” de atuação policial “desproporcional” que viu no acampamento na Praça D. João I.
Apontou, sobretudo, uma contradição. É que se por um lado viu estas ações musculadas com muitos polícias, por outro, o grupo que acompanha tem notado uma falta de resposta da PSP e da Polícia Municipal às queixas por excesso de barulho junto às zonas dos bares. Se o movimento em si só tem intensificado a luta nos últimos quatro anos, Patrícia disse que há vizinhos que reclamam “há décadas” com este problema.
É este o principal foco do Vizinhos em Vias de Extinção, que procura dar voz aos habitantes da baixa e do centro histórico do Porto, apoiando moradores com “impossibilidade de ter qualidade de vida” sobretudo por “questões do ruído” associado à movida. “Para quem fala tanto em regras, em ordem, em cumprimento… o que nós assistimos no dia a dia é exatamente o oposto”, argumentou, destacando um contacto muito intenso em anos “complexos” com as forças policiais e também com a autarquia.
“Não entendemos este rigor com as regras, quando estamos há uma década a pedir para a polícia e os serviços cumprirem as suas funções: garantir a ordem pública”. E exemplificou: “No dia da carga [na praça] tivemos vizinhos que fizeram direta com vandalismo e alcoolismo na via pública que os impediu de dormir a noite inteira”.
“Há uma escolha” errada sobre onde colocar as forças de segurança, “contra os seus juramentos, contra o seu código de ética, contra as boas práticas de gestão pública”. Muitas vezes, prosseguiu, “a polícia não avança” e não é dado seguimento às “ações de fiscalização das atividades económicas”. Lamentou ainda o caso de uma moradora que, quando chamou a Polícia Municipal, ouviu o agente a aconselhá-la a “vender a casa porque a câmara não estava interessada em defender os interesses dos moradores”.
https://observador.pt/2026/10/21/pedro-duarte-quer-ouvir-manifestantes-mas-nao-vai-negociar-oposicao-critica-tom-do-autarca-e-cedencia-ao-politicamente-correto/
“Pedro Duarte não tem que ter medo das pessoas que estão a protestar pacificamente”
A concentração convocada pela plataforma Casa para Viver em frente à estação de Metro da Trindade durou pouco mais de meia hora. Depois da atuação de um coro popular, com músicas portuguesas, houve algum tempo para pequenas intervenções ao microfone, com os participantes a denunciarem problemas na habitação. Numa das últimas intervenções surgiu um apelo para que o Partido Socialista não deixasse passar este Orçamento do Estado. O discurso rematou com um convite para que todos os presentes se dirigissem à Praça D. João I, onde dentro em breve teria início mais uma Assembleia Popular do movimento Acampada.
As cerca de 200 pessoas desmobilizaram rapidamente em direção à praça, ao som de “Um T0 no Barreiro” de Luís Varatojo. “Diga lá Sr. ministro porque é que isto está errado, um T0 no Barreiro custa mais do que um ordenado”, ouviu-se enquanto o espaço em frente à estação da Trindade voltou a ficar vazio.
Seguiram quase todos em direção à Praça D. João I, onde o cenário se tem repetido nos últimos dias. Perto do centro da praça, de costas para as tarjas afixadas, sentou-se um grupo ligado à organização do movimento Acampada — a autodenominada “mesa da assembleia”. Em frente aos jovens que, de microfone na mão, organizaram as intervenções, estiveram centenas de pessoas, algumas sentadas e outras, mais atrás, a formar um semicírculo de pé.
Nesta assembleia, que ainda ouviu os discursos livres de diferentes manifestantes, foram votados apenas dois pontos, ambos aprovados. O primeiro dizia respeito à partilha de um plano de segurança com quem decide dormir nas tendas na Praça D. João I. Esse plano, explicaram alguns manifestantes ao Observador, já existe e contempla “trajetos de fuga” e “outras formas de proteção”, mas a intenção agora aprovada é que passe a ser explicado a todos os que dormem no acampamento. ”Hoje não tivemos votações muito especiais”, resumiu Leonor Figueiredo, que esteve sentada na mesa da assembleia. “Algumas questões de segurança”, mas “nada paramilitar”.
Numa das últimas intervenções na assembleia, foi lembrado o convite de Pedro Duarte, que já se mostrou disponível a receber os manifestantes na Câmara Municipal do Porto. Sem revelar muitos pormenores sobre essa discussão, Leonor Figueiredo lembrou apenas que o convite para que o autarca do Porto “venha aqui [Praça D. João I] debater com as pessoas” continua em cima da mesa. “Achamos que não há nenhuma ameaça nisso. Pedro Duarte não tem que ter medo das pessoas que vivem no Porto e que estão a protestar pacificamente”, resumiu. A preferência do movimento em protesto pela habitação continua a ser um encontro na praça, em vez da reunião na câmara. “Iremos discutir outras hipóteses em assembleias futuras”, assumiu Leonor.

Apesar de também terem votado a “permanência” sem tendas na praça, a multidão foi desmobilizando após o fim da Assembleia Popular com centenas de pessoas na Praça D. João I. Mantiveram-se alguns resistentes na praça até a própria polícia retirar os dois carros e uma carrinha que estavam estacionados, antes da 1h.
Os últimos grupos de pessoas à conversa foram interrompidos a certa altura por Diana, que carregava um grande saco de plástico e perguntava às pessoas se tinham lixo para descartar. Enquanto a jovem, presença assídua nestas manifestações, recolhia o lixo, outros manifestantes foram desmontando a estrutura que serviu de abrigo para a cantina popular, que durante toda a noite foi recebendo vários clientes e distribuindo refeições gratuitas, como tem sido habitual.
Pouco depois, os manifestantes foram recolher alguns dos cravos de papel que estiveram pendurados ao lado das tarjas com mensagens habituais centradas na habitação — como um apelo da plataforma Casa para Viver para uma manifestação a 14 de novembro — mas também outras duas que destoaram das demais reivindicações, com frases dedicadas ao projeto mineiro de extração de lítio em Covas do Barroso: “Resíduos da mina de Covas do Barroso podem poluir o rio Douro” e “O Porto resiste com o Barroso”. Este tema, que já chegou a ser alvo de cânticos de protesto nas manifestações na Praça D. João I, teve novo episódio na terça-feira, quando dezenas de pessoas voltaram a impedir os trabalhos da empresa Savannah nos terrenos assinalados.
https://observador.pt/2026/10/27/opositores-a-mina-de-litio-repetem-bloqueio-aos-trabalhos-da-savannah-em-boticas/