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(A) :: Não é habitação, é revolução

Não é habitação, é revolução

Ninguém foi eleito para Belém, para a Assembleia da República e para o poder local para ser complacente com a revolução contra a democracia parlamentar.

João Marques de Almeida
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A escassez de habitação e o aumento dos preços (de aquisição e de arrendamento) em Portugal são problemas sérios. Mas quem os causou foram os governos de António Costa, permitindo uma subida enorme da procura (mais de um milhão de estrangeiros em Portugal em seis anos) e reduzindo a oferta, construindo menos casas do que prometeu. Este governo está a fazer o que deve: a aumentar a oferta, a limitar a procura (reduzindo a imigração substancialmente), e a apoiar os mais desfavorecidos, especialmente os jovens.

As esquerdas radicais estão, simplesmente, a usar o problema da habitação para fazer avançar a agenda revolucionária. Não foram apenas as esquerdas que leram as teorias revolucionárias de Lenin e de Trotsky, e as suas ideias de que a luta contra o “estado burguês” se faz nas ruas, e não nos parlamentos. O combate parlamentar fica para os “mencheviques” como o PS. Os “bolcheviques” são a verdadeira esquerda, a que combate nas ruas e recorre à violência.

Pensadores neo-Marxistas contemporâneos, como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, adoptaram as teses revolucionárias dos velhos Marxistas às sociedades europeias do século XXI. O motor da revolução já não é a classe trabalhadora, mas uma “frente popular” constituída por movimentos feministas radicais, LGBT e ecológicos, por grupos étnicos, e por imigrantes. Muitos espantam-se por verem bandeiras da Palestina e do Hamas, símbolos LGBT e slogans climáticos nos protestos. Não há qualquer surpresa. Representam a nova coligação revolucionária neo-Marxista. Também se viram todas essas bandeiras nos protestos em França, Espanha, Itália e Bélgica. Esta coligação popular e revolucionária deve combater a democracia parlamentar e o capitalismo.

Os jornalistas da SIC, da CNN e da Now (e estou propositadamente a referir as televisões privadas) que se emocionam com estes protestos, podem estar certos se esta frente revolucionária chegasse ao poder, seriam os primeiros a ficar sem emprego (e sem dinheiro para comparar ou alugar casa) porque os seus “patrões” seriam os primeiros a serem “nacionalizados.” O PS e José Luís Carneiro também devem pensar se a sua vocação é ser um partido menchevique, liderado por um novo Kerensky.

Michael Hardt e Antonio Negri são outros inspiradores dos movimentos revolucionários neo-Marxistas. Foram os grandes inspiradores intelectuais dos movimentos anti-globalização das esquerdas radicais, que se manifestaram (e com muita violência) em 1999 em Seattle contra o capitalismo global (lembro-me como os meus colegas Marxistas de doutoramento em Londres se entusiasmaram com o trabalho de Hardt e Negri). Publicaram depois o Império (tradução portuguesa) onde desenvolveram a tese de uma luta revolucionária global, com ligações internacionais, e com temas globais (como a defesa da causa palestiniana, da luta contra o aquecimento global e a defesa da imigração). Defendem também a legitimidade do uso da violência e a luta contra as identidades nacionais. Querem ainda transformar os países europeus em territórios habitados por populações sem identidades nacionais ou mesmo comuns, a não ser a revolucionária.

Os “acampados” que realizam “assembleias populares” são a versão portuguesa destes movimentos revolucionários neo-Marxistas. Não são violentos como em França e em Itália, mas um dia poderão ser porque no essencial são iguais. Em Espanha, os protestos também eram pacíficos (em Madrid) até deixarem de ser (em Barcelona).

Os políticos dos partidos do centro para a direita, o PSD, o CDS, a IL e o Chega devem levar estes protestos muito a sério. Tendo em vista a atenção das televisões aos protestos, também precisam de coragem. A política de hoje não é para políticos frouxos, é para quem tem coragem e convicções. Tal como as gerações democráticas de 1975 e 1976, compete às gerações políticas de hoje defender a democracia parlamentar e a economia de mercado. E quem tem responsabilidade política não pode nunca esquecer a seguinte lição: não se defende o estado de Direito atacando a polícia. Pelo contrário, é fundamental defender a polícia contra as provocações e as violações da lei dos movimentos revolucionários. Ninguém foi eleito para Belém, para a Assembleia da República e para o poder local para ser complacente com a revolução contra a democracia parlamentar. Infelizmente, já vi muita complacência nalguns que estão no poder, nacional e autárquico.