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Venezuela: o problema de María Corina não é Delcy, é a falta de audácia

O comboio da história passa poucas vezes. Mas não basta apanhar o comboio da história: é preciso saber para onde o levar. E essa oportunidade talvez não volte a surgir.

Luís Aponte Rodriguez
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O regresso de María Corina Machado à Venezuela levanta uma pergunta incómoda: basta ter apoio popular para conquistar o poder? A história sugere que não. Na política, o apoio social é um recurso fundamental, mas transformá-lo em poder efetivo exige organização, estratégia e, acima de tudo, audácia.

Charles de Gaulle oferece um primeiro exemplo. Após a derrota da França em 1940, a ocupação alemã e a colaboração do regime de Vichy com o ocupante, De Gaulle recusou-se a aceitar que o seu país ficasse relegado ao papel de uma nação derrotada. Embora o esforço militar decisivo para derrotar a Alemanha tenha cabido sobretudo à União Soviética, aos Estados Unidos e ao Reino Unido, conseguiu reivindicar a continuidade do Estado francês e contribuir para que a França se sentasse à mesa dos vencedores e participasse na reorganização do pós-guerra. Não foi obra exclusiva de um homem, mas foi também o resultado da ação de um dirigente que se recusou a aceitar como definitiva a posição de fragilidade do seu país.

Lenine representa outra forma de audácia. Os bolcheviques não protagonizaram a Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou o czar. No entanto, Lenine compreendeu que a queda da monarquia não tinha resolvido a questão de quem exerceria o poder.

Através da organização, da estratégia política e do aproveitamento da crise do Governo Provisório, os bolcheviques conseguiram transformar uma revolução que não tinham iniciado numa oportunidade para conquistar o poder. Os seus projetos políticos eram radicalmente diferentes, mas ambos os casos ilustram a mesma lição: os dirigentes audazes não se limitam a reivindicar as suas aspirações, nem ficam à espera que as circunstâncias lhes sejam favoráveis. Procuram transformá-las.

É aqui que surge o problema de María Corina Machado. O seu apoio popular constitui um capital político considerável, mas não se traduz automaticamente em controlo institucional nem em capacidade negocial. Delcy Rodríguez conserva o aparelho de Estado e, paradoxalmente, mantém uma relação funcional com Washington que Machado não parece
ter conseguido transformar num apoio equivalente ao seu projeto político.

O regresso de Machado poderia ter sido uma oportunidade para alterar esta situação. No entanto, se Delcy Rodríguez e os Estados Unidos conseguirem apresentá-lo como resultado das negociações que conduzem, e não como uma iniciativa capaz de impor novas condições, Machado corre o risco de ficar subordinada a uma dinâmica política controlada por outros.

Não precisava de imitar De Gaulle nem Lenine. Precisava de demonstrar que era capaz de tomar a iniciativa: avançar com uma proposta audaciosa, mobilizar apoiantes em torno de objetivos claros ou, talvez, promover um referendo que obrigasse os restantes atores a tomar posição. Nenhuma destas opções garantiria o sucesso, mas permitiria tentar
transformar o apoio popular numa capacidade efetiva de pressão.

A audácia não é temeridade, nem garante a vitória. Consiste em reconhecer uma oportunidade e agir para alterar a correlação de forças antes que outros a eliminem. A fortuna favorece os audazes. De Gaulle compreendeu-o quando a França parecia condenada a ser uma potência derrotada; Lenine, quando percebeu que a revolução poderia passar-lhe ao lado se os bolcheviques não agissem. Nenhum deles tinha o sucesso garantido, mas ambos compreenderam que as oportunidades históricas não esperam indefinidamente.

O comboio da história passa poucas vezes. María Corina regressou à Venezuela, mas regressa com algo de novo para oferecer aos venezuelanos? A audácia não consiste apenas em disputar o poder, mas também em ousar propor soluções para os problemas que outros preferem evitar. Porque não basta apanhar o comboio da história: é preciso saber para onde o levar. E essa oportunidade talvez não volte a surgir.