(c) 2023 am|dev

(A) :: Sem Bolsonaro não há Direita: o dilema do Partido Missão

Sem Bolsonaro não há Direita: o dilema do Partido Missão

O Partido Missão vive um momento complicado, procurando manter-se à direita sem ser bolsonarista, mas como se afirma uma direita quando outra já parece ocupar todo o espaço político?

Gabriel Freitas
text

Com uma 2.ª volta presidencial extremamente conturbada, Lula da Silva tornou-se novamente Presidente da República, com 51,79% dos votos. Dos quatro principais candidatos de fora da esquerda que ficaram pelo caminho na 1.ª volta, três apoiaram Flávio, que ficou com 48,21% nesta 2.ª volta: Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

Renan Santos, líder do Partido Missão, manteve-se neutro e no domingo apelou ao seu eleitorado que evitasse tensões nas ruas, devido à confusão institucional gerada pelo STF num momento que seria “o mais grave desde o 8 de janeiro”, e defendeu que novas eleições se deveriam realizar em duas semanas. Em outras postagens no X, pediu que os eleitores não saíssem às ruas, “em nome de político que tá ficando multimilionário”.

A verdade é que, durante toda a campanha, Flávio foi severamente criticado por Renan, que acusou Bolsonaro de ter fabricado narrativas de voto útil com o objetivo de acabar com a eleição logo na 1.ª volta. E questionou se os próprios eleitores de Flávio sabiam explicar o seu voto além do desejo de afastar Lula.

Sobre o esvaziamento do debate público, Santos atribuiu a culpa ao facto de os candidatos evitarem o confronto direto entre si, por estarem envolvidos em escândalos de corrupção, e lamentou que nenhum candidato tenha discutido propostas para o país: “Não houve debate, não houve discussão, ninguém sabe as propostas dos candidatos que lideram as pesquisas.”

Considerando que esta é a eleição “mais bizarra de todas, a mais estranha desde a redemocratização”, Renan tinha esperanças na 1.ª volta, mas, de facto, o “futuro glorioso” do Missão não chegou: obteve apenas 2,24% (2.675.887) dos votos válidos, atrás de Augusto Cury (2,89%) e por pouco mais de 70 mil votos à frente de Ronaldo Caiado.

É um resultado muito abaixo das previsões de sondagens online, onde Renan tinha mais força. Mesmo em pesquisas presenciais, Renan rondava os 3% de votos, mas nem isso alcançou. O partido elegeu apenas um deputado federal e estadual, por São Paulo. A título de comparação, só em São Paulo, o PL elegeu 19 deputados federais, das 70 vagas possíveis. Isto mostra a esmagadora hegemonia que o campo bolsonarista possui contra o Missão.

No seu pronunciamento oficial, através de uma live no Youtube, Renan admitiu que o resultado obtido na 1.ª volta foi “muito pior do que o esperado”, classificando o desempenho geral do seu partido como “devastador” e “acachapante”, e salientou a narrativa de voto útil aplicada por Flávio Bolsonaro: esta estratégia teve um efeito visível em algumas candidaturas, mas prejudicou especialmente a de Renan Santos, uma vez que se trata de um candidato pequeno, com um eleitorado específico e, para o eleitor médio, seria melhor votar no candidato com maior capacidade de derrotar Lula do que dispersar votos.

Contudo, o desastroso resultado de Renan Santos também se explica pela surpreendente ascensão de Augusto Cury como 3.ª via. A exposição no debate da Band, em agosto, tornou o contraste de Renan com Cury evidente: enquanto Renan apostou num tom violento e exaltado, que para muitos eleitores soava tão ou mais agressivo do que o próprio bolsonarismo, Cury utilizou uma oratória calma e cordial, capturando precisamente a fatia do eleitorado órfão de moderação e reforçando um discurso focado na pacificação nacional e na saúde mental do país. Ficou talvez demonstrado que o brasileiro que rejeita Lula e Flávio não procura uma “3.ª via” ainda mais exaltada, mas sim uma saída pacífica.

Seguindo uma narrativa de David contra Golias durante toda a campanha, Renan relembrou a sua base que, com o tempo, o seu partido terá um crescimento do número de representantes e usou como exemplos o partido de Javier Milei, La Libertad Avanza, e o Chega, de André Ventura: “nós vamos reverter isso [sobre a hegemonia do PL no Congresso]. Nós vamos governar o Brasil? Nós vamos.”

Mas nesse pronunciamento após a 1.ª volta, o ex-candidato reconheceu que, no atual cenário político, “não existe direita sem Bolsonaro”, pelo que o futuro do partido parece uma incógnita. Com uma consolidação robusta do PL no Congresso Nacional e nos principais governos estaduais, o ecossistema político brasileiro está definitivamente à direita, mas deixa pouca margem de crescimento de partidos independentes sem influência bolsonarista.

O que se deve seguir agora é uma maior consolidação, expansão dos diretórios regionais do partido e institucionalização do discurso de “3.ª via pragmática” capaz de se tornar diferente do “bolsopetismo” e afirmar-se como oposição ao Governo petista. Mais ainda, será preciso realizar congressos e formações de quadros capazes de disputar prefeituras e câmaras municipais, especialmente em São Paulo, uma das mais importantes do país, para 2028.

Mas o Missão vive um momento complicado. Procura manter-se na direita, mas sem ser bolsonarista. Porém, talvez não consiga ser nada sem ele. O PL tem uma boa influência no Congresso e nos governos estaduais e fará forte oposição a Lula no legislativo. O que falta responder é como se afirma uma direita quando outra já ocupa quase todo o espaço político?

Gabriel Freitas nasceu no Brasil e estuda Ciência Política na Escola de Economia, Gestão e Ciência Política da Universidade do Minho. Tem 22 anos.