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(A) :: Face à hostilidade do Governo, comunidade árabe votou em peso. Partidos árabes quase duplicaram e podem decidir futuro de Israel

Face à hostilidade do Governo, comunidade árabe votou em peso. Partidos árabes quase duplicaram e podem decidir futuro de Israel

Afluência nas comunidades árabes foi a mais alta desde 1965 e pode dar 18 lugares aos partidos árabes no Knesset. Sem maioria, a oposição a Netanyahu pode depender destas forças para governar.

Madalena Moreira
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A cidade de Rahat, no sul de Israel, é casa da maior comunidade árabe no país. Ainda antes das 13h desta terça-feira, metade dos 80 mil habitantes da cidade já tinha votado, escrevia o Times of Israel. Não foi apenas nesta cidade que os árabes com cidadania israelita — muitos dos quais se identificam como palestinianos — se dirigiram às urnas em peso. No fecho de urnas, a participação deste grupo demográfico chegara aos 80%, o valor mais alto desde 1965.

Por comparação, ao longo do século XXI, a participação eleitoral nas cidades de Israel com maioria árabe foi sempre mais baixa do que a participação à escala nacional, por vezes 20 pontos percentuais abaixo do valor no país todo. A justificação está no boicote que muitos árabes fazem às eleições, devido ao desprezo e por vezes mesmo hostilidade que acusam os deputados judeus israelitas de terem face à comunidade — que representa mais de um quinto da população de Israel.

A elevada participação da comunidade traduziu-se num crescimento a pique dos partidos árabes no Knesset. Até aqui, este grupo, composto pela Lista Conjunta e o Ra’am, ocupava dez lugares dos 120 do Parlamento israelita. Esta terça-feira, as projeções dos canais israelitas colocam os partidos árabes com 17 ou 18 deputados. A Lista Conjunta, que, segundo as projeções, deverá conquistar entre 10 e 11 deputados (o dobro dos cinco que tinha até aqui) pode tornar-se, assim, no quarto maior partido no Knesset. “Esta é a nossa vitória”, celebrou Baker Awawdy, candidato do partido ao Knesset.

Contudo, mais do que a campanha que foi feita pela Lista Conjunta ou pelo Ra’am, o crescimento destes partidos pode ser explicado pela negativa — pela “hostilidade” de que a comunidade diz ser alvo por parte dos políticos judeus israelitas. Exemplo disso foram as declarações do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, no final de agosto, em que prometia “judaizar” as regiões de Negev e da Galileia, o que incluiria o cancelamento “dos planos imprudentes aprovados nas localidades árabes”. No lugar das comunidades árabes, o ministro da extrema-direita defendeu a construção de novos colonatos judeus.

Independentemente dos motivos que expliquem o crescimento dos partidos árabes, a alta participação destas comunidades foi vista pelo primeiro-ministro como uma ameaça à sua sobrevivência política. “A Lista Conjunta e o Ra’am já estão a celebrar. Temos de os deter. Saiam para votar”, escreveu Benjamin Netanyahu nas redes sociais. “Se não acordarmos agora, vamos ver-nos num Governo de Mansour Abbas e Ahmed Tibi”, escreveu noutra publicação, referindo-se aos líderes dos dois maiores partidos árabes em Israel.

https://x.com/netanyahu/status/2115119056659337459

As projeções indicam que os medos de Netanyahu podem estar perto de se concretizar, com três das quatro projeções a dar a vitória ao bloco de Gadi Eisenkot. Mais: nenhuma das projeções dá a qualquer um dos blocos uma vitória com maioria. Neste caso, os partidos árabes tornam-se a chave para desbloquear um impasse político.

Em 2021, o Ra’am já tinha integrado de forma breve o Executivo de Naftali Bennett, numa coligação anti-Netanyahu — a primeira vez na História do Estado de Israel que a minoria árabe colaborou diretamente com um partido judeu. Passados cinco anos, Mansour Abbas já se mostrou disponível para colaborar novamente com a oposição a Bibi, desta vez com o bloco de Eisenkot. A mesma abertura foi demonstrada pela Lista Conjunta.

O foco está agora naquele que as sondagens e as projeções apontam como o vencedor da noite eleitoral: Gadi Eisenkot. O líder do Yashar! e os seus parceiros de coligação rejeitaram incluir os partidos árabes num possível Governo, mas há precedente em Israel para um Governo de minoria com apoio parlamentar das forças árabes — foi o que aconteceu em 1993 com o último Governo de Yitzhak Rabin, recorda James Sunderland, académico especializado na história da relação entre Israel e a Palestina na Universidade de Cambridge.

“O bloco da oposição poderá ver-se obrigado a escolher entre duas opções que considera profundamente desagradáveis: colaborar com os partidos árabes para destituir Netanyahu e o seu Governo ou enfrentar o risco de um impasse e de novas eleições”, remata o especialista, num artigo de análise às eleições.