O número de utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que está à espera de uma cirurgia atingiu, no final de julho, o valor mais alto de sempre. São mais de 284 mil as pessoas em lista de espera, mostram os dados mais recentes publicados no Portal da Transparência do SNS. Por outro lado, a atividade cirúrgica do SNS continua a diminuir em 2026 e não se vislumbra qualquer sinal de inversão dessa tendência.
Ao Observador, o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Carlos Cortes, critica o desinvestimento no SNS e o que diz ser “a falta de vontade política para retificar o caminho seguido”, alertando que o aumento da lista de espera, e sobretudo, das pessoas que aguardam cirurgia fora dos Tempos Máximos de Resposta Garantida (TMRG) traz consequências para os doentes, que “veem a sua saúde degradar-se”. Já a vice-presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), Joana Bordalo e Sá, vinca que o Ministério da Saúde não tem atuado para resolver o problema e acusa a ministra, Ana Paula Martins, de estar “desaparecida do mapa”.
Em julho, aguardavam por uma cirurgia 284.210 pessoas, um aumento de 2% em relação ao mês anterior. É, de resto, a primeira vez, desde que há registos, que a lista de espera cirúrgica ultrapassa o limiar dos 280 mil inscritos. Se a comparação for feita com o mês de julho do ano passado — ou seja, no período homólogo —, há agora mais 16 mil pessoas a aguardar uma operação (mais 5,8%).
O aumento da lista de espera para cirurgia no SNS entre julho de 2025 e julho de 2026 registou-se em três das cinco regiões de saúde do país: Norte, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo (LVT). No Alentejo e em LVT, o aumento dos inscritos na Lista de Espera para Cirurgia foi de 8,3% e 8,1% respetivamente, enquanto no Norte foi de 7,6%. Na região Centro, o número de utentes em lista de espera diminuiu 2% num ano, e no Algarve a variação foi mínima (menos 0,4%).
Doentes a aguardar cirurgia para lá do tempo de espera recomendado aumentam 15% num ano
Para além do número absoluto de utentes em lista de espera, outro indicador importante é o dos utentes que aguardam para lá do período que é considerado clinicamente adequado para que a intervenção cirúrgica seja realizada. Assim, cerca de 30,5% dos inscritos que aguardavam cirurgia no mês de julho de 2026 estavam fora dos TMRG, os tempos clinicamente adequados. Eram, por isso, 86.755 pessoas nesta situação, mais cerca de 15% do que no mês de julho de 2025. Não é possível, no entanto, determinar quantos destes utentes aguardam uma cirurgia oncológica, uma vez que o Portal da Transparência não faz a desagregação dos dados por especialidades cirúrgicas.
Para o aumento da lista de espera contribui a diminuição da atividade cirúrgica do SNS. Entre janeiro e julho de 2026, foram realizadas menos cerca de 24 mil cirurgias do que no mesmo período do ano passado. Enquanto nos primeiros sete meses de 2025 foram feitas 485.645 cirurgias programadas (convencionais e de ambulatório), no mesmo período de 2026 foram realizadas 461.648, ou seja, uma quebra de 4,9%.
O número de cirurgias diminuiu nos primeiros sete meses do ano, em relação a igual período do ano passado, nas regiões de LVT, Norte e Alentejo, as mesmas em que as listas de espera aumentaram — o que permite fazer uma correlação direta entre a falta de capacidade do SNS para operar e o aumento das listas. Só nos hospitais da região de LVT foram feitas menos 15 mil cirurgias de janeiro a julho (menos 9,9%). No Norte, a quebra ultrapassou as oito mil cirurgias (menos 4,5%) e no Alentejo a diminuição foi de cerca de 1.300 cirurgias (menos 5,9%). Só o Centro (mais 1,5%) e o Algarve (mais 9,7%) contrariaram a tendência.

Na verdade, a tendência de diminuição do número de cirurgias realizadas nos hospitais do SNS vem já desde o último semestre de 2025, mas agravou-se em 2026. Entre julho e dezembro do ano passado, os hospitais do SNS fizeram menos 0,7% de cirurgias, em comparação com o período homólogo. Mas o novo ano começou mal e o avançar dos meses tem vindo a confirmar a tendência de diminuição na produção.
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Uma tendência que o bastonário da Ordem dos Médicos associa ao desinvestimento no SNS, que não foi acompanhado, diz, como prometido pela ministra da Saúde, por uma maior eficiência de gestão. “Esta situação não é nada que a Ordem não tenha alertado. Na altura da discussão do Orçamento do Estado para este ano, expressei uma grande preocupação com rubricas que tinham a ver com a despesa corrente, nomeadamente a que previa um corte nos bens e serviços”, diz Carlos Cortes, referindo-se ao corte de 10% (cerca de 890 milhões de euros) previsto no Orçamento do Estado para 2026 na rubrica da contratação de bens e serviços, que inclui, por exemplo, medicamentos, dispositivos médicos e material de consumo clínico ou prestação de serviços.
Para o próximo ano, o Orçamento do Estado proposto pelo Governo e que tem aprovação garantida (graças à abstenção do PS) prevê um novo corte nesta rubrica, desta vez de 4,2% (366 milhões de euros).
“As pessoas esperam mais tempo, a sua saúde deteriora-se. Vão ter mais complicações”, alerta bastonário dos médicos
Carlos Cortes sublinha que a Direção Executiva do SNS nada fez para impulsionar a produção cirúrgica. “Não houve, ao longo do ano, incentivos para que houvesse mais cirurgias. A Ordem não sentiu essa vontade por parte da Direção Executiva”, frisa o bastonário, alertando que, com as listas de espera a aumentar, são os utentes que sofrem as consequências.
“As pessoas esperam mais tempo, a sua saúde deteriora-se. Vão ter mais complicações, vão ter de ter mais consultas. E não estamos a falar de números, são vidas reais”, sublinha o responsável. “Temos um maior número de pessoas na lista de espera, e o impacto é negativo”, concorda Joana Bordalo e Sá.
O bastonário da Ordem dos Médicos lamenta que as mudanças no SNS — que passavam, nomeadamente por uma maior eficiência de gestão — prometidas pela ministra da Saúde, há um ano, não estejam a ser colocadas em prática. “Há um ano disseram-nos que íamos aumentar a eficiência e que íamos ter mais cirurgias. Isso não está a acontecer”, critica Carlos Cortes. No final de outubro de 2025, quando foi à Assembleia da República abordar o Orçamento da sua área setorial, Ana Paula Martins fez a defesa de estratégia de aposta na eficiência na gestão do SNS e no fim daquilo a que a ministra classificou como o “ciclo de expansão” do Orçamento da Saúde.
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Quanto à quebra da atividade adicional, Ana Paula Martins já deu várias explicações. No final de abril, a ministra da Saúde justificou a diminuição na atividade cirúrgica do SNS nos dois primeiros meses deste ano com o pico da gripe, a suspensão da atividade programada e com o facto de o calendário ter tido menos um dia útil em janeiro e fevereiro de 2026. No entanto, logo em junho, e depois de ultrapassada a época mais crítica das infeções respiratórias no inverno, Ana Paula Martins apontava noutra direção: a diminuição na produção adicional. A ministra defendeu que o Governo prefere a existência de um sistema “transparente e auditável” nos hospitais (onde foram detetadas várias irregularidades com cirurgias extra) — mesmo que isso possa comprometer os tempos de espera.
“Preferimos um sistema transparente e auditável, ao invés de manter práticas que possam comprometer a confiança dos portugueses no SNS, ainda que tenha impacto temporário nas listas de espera”, defendeu Ana Paula Martins.
O sistema de que a ministra da Saúde falava — o SINACC, que deveria ter entrado em funcionamento a 1 de agosto para substituir o atual SIGIC — ainda não foi implementado nos hospitais e não há previsão para que isso aconteça. Para além disso, a polémica portaria publicada no final de junho que definiu as novas regras de pagamento da produção adicional gerou muita contestação entre os médicos, o que levou ao cancelamento de cirurgias em vários hospitais. Aliás, os dados de julho, que constam do Portal da Transparência do SNS e que já mostram os efeitos da contestação à portaria, revelam uma aceleração da diminuição das cirurgias em relação ao mesmo mês de 2025 (menos 6,4%). A vice-presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá, acusa Ana Paula Martins de ainda ter piorado a situação.
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“Por um lado, esta situação é fruto da inação do Ministério da Saúde, e por outro, tem muito a ver com as portarias e despachos que saíram relativamente à atividade cirúrgica e que fazem com que os médicos não sintam confiança no seu trabalho em produção adicional“, realça a sindicalista. Uma crítica secundada também pelo bastonário dos médicos, que considera que a tutela “criou instabilidade” com a publicação da portaria em causa.
Neste ponto, e com mais de metade do ano já ultrapassado, Carlos Cortes admite que será difícil o SNS terminar o ano com mais cirurgias realizadas que em 2025. “Vai ser muito difícil essa recuperação. Foi iniciada uma trajetória e não sentimos que haja vontade política para a retificar”, defendendo que a solução passa por “melhorar a eficiência de gestão” e “alocar verbas onde são necessárias, nomeadamente nesta questão cirúrgica”.
Para a FNAM, a solução para acelerar a atividade cirúrgica no SNS passa por melhorar as condições salariais dos médicos e reforçar os quadros. “Continuamos na mesma com médicos com salários base que não são justos, com grande perda de poder de compra, e que depois saem do SNS”, diz Joana Bordalo e Sá, lamentando a “falta de vontade política do Governo para seguir esse caminho”. A dirigente da FNAM diz ainda estranhar a ausência de Ana Paula Martins, perante o acumular de problemas em várias áreas. “A ministra anda escondida, está desaparecida do mapa”.
O Observador questionou a Direção Executiva do SNS, no sentido de perceber como olha aquela entidade para o aumento da lista de espera cirúrgica, quantas pessoas aguardavam cirurgia oncológica para lá do tempo clinicamente recomendado e o que tem sido feito para acelerar a produção cirúrgica. Mas não foi enviada qualquer resposta.