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(A) :: Chega de acampar na autoridade do Estado

Chega de acampar na autoridade do Estado

A resposta à rua é trabalhar a lei no Parlamento, onde se vota, onde se responde perante eleitores. Não é ceder à tenda, é fazer política a sério.

Vasco Osório de Queiroz
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O Rossio já não é uma manifestação. É uma ocupação com palco, assembleia e calendário de greves.

Quem lá está tem causa? Alguns, sim. Mas quem organiza tem programa, e o programa nunca foi a renda. Gritou-se “Palestina vencerá”, pede-se uma greve ibérica a 11 de novembro, fala-se de derrubar o capital. A habitação é a farda emprestada de um movimento que já tinha tudo decidido antes de a crise existir. A esquerda radical não descobriu a dor dos jovens, descobriu uma oportunidade.

E a oportunidade vê-se nos símbolos que escolhe. No Rossio ergueu-se o nome de Maricarmen, a mulher de 87 anos despejada em Espanha que acendeu o protesto em Madrid. O caso dela é real e merece respeito, mas é de outro país, de outra lei e de outro tribunal. Trazê-lo para uma praça portuguesa como se fosse bandeira nacional não é solidariedade, é instrumentalização. Uma imagem comovente poupa o trabalho de explicar o que a lei do arrendamento português diz.

E convém dizer o que a esquerda confortável prefere calar: uma democracia não negoceia sob tendas montadas em praça pública. O ministro da Administração Interna foi claro, a lei é para cumprir e as acampadas terminaram. Agora é preciso que seja verdade. Foram 55 detidos na desocupação, libertados, e a seguir prometem voltar, como quem testa até onde vai a paciência do Estado. Cada vez que o Estado cede o espaço público a quem decide ficar, ensina a próxima acampada a ficar.

Com a mesma facilidade, tenta-se fazer da polícia o vilão da história. A PSP não legisla, não decide a política de habitação nem escolhe contra quem se manifesta. Cumpre a lei, de noite, numa praça cheia, perante quem decidiu ficar depois de avisado. No Porto, o confronto deixou feridos entre os manifestantes e também entre os agentes. Em Lisboa, o presidente da Câmara, que chamou “muito justa” à causa, considerou a atuação proporcional. Defender a polícia não é defender o abuso, e quem confunde as duas coisas está a fazer política com a farda.

A autoridade que se respeita é a que cumpre as regras e presta contas. O inquérito ao que se passou no Porto faz-se, e depressa, e a Provedora de Justiça fez bem em pedir esclarecimentos, porque força sem escrutínio é o melhor argumento da esquerda. Mas esperar pelo inquérito antes de condenar quem trabalhou numa madrugada difícil é o mínimo de justiça, e não é desculpa para recuar. Quem ocupa uma praça de todos para pressionar o Parlamento não está a exercer um direito, está a exercer pressão, e a pressão tem um nome: coação política.

O Governo tem, aliás, um trunfo que não usa: a lei do arrendamento pode ser revista, e o próprio ministro da Habitação admite fazê-lo com o PS. A resposta à rua é essa, trabalhar a lei no Parlamento, onde se vota, onde se responde perante eleitores. Não é ceder à tenda, é fazer política a sério. E a oferta de casas, a única coisa que baixa rendas, continua à espera de licenças rápidas, de segurança jurídica e de menos burocracia.

A direita não precisa de ter vergonha de defender o óbvio: que a casa se constrói e não se ocupa, que o espaço público é de todos, inclusive dos que não acampam, e que quem faz cumprir a lei merece respeito.