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(A) :: Caro jovem manifestante

Caro jovem manifestante

A vossa luta é muito importante, mas não é uma luta intergeracional.

Elisa Manero
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Nunca vivi sozinha. Nunca tive a privacidade de uma casa só para mim. Vivi em casa dos meus pais e, quando estive deslocada por motivos profissionais, vivi num quarto arrendado.

Vou recuar a 2012. Tinha um empréstimo para pagar, combustível para ir trabalhar, a creche dos meus filhos e todas as restantes despesas da família. Na altura, ganhava cerca de 900 euros por mês e o meu marido pouco mais do que eu. A prestação da casa era de 450 euros, a creche do meu filho custava 300 euros e a da minha filha 200 euros.

No final do mês, sobrava muito pouco. Não almoçava fora, levava comida de casa. As férias eram simples e os momentos de lazer também. Ao final do dia, levava os meus filhos ao parque infantil. Não tínhamos muito dinheiro, mas tínhamos tempo uns para os outros.

Ao longo desses anos fui também empreendedora. Não fiquei rica, mas aprendi a trocar, reutilizar e rentabilizar tudo aquilo que passava pelas minhas mãos. As trocas que fazia representavam perto de  5.000  por ano em roupa, brinquedos e artigos para crianças de várias idades. Vendia, trocava, reutilizava e doava. Nada se desperdiçava.

Tive igualmente o cuidado de educar os meus filhos para compreenderem o valor das coisas. Frequentaram a escola pública, onde conviveram com colegas que tinham mais do que eles e com outros que tinham menos. Aprenderam a respeitar diferentes realidades e a perceber que a vida não oferece as mesmas oportunidades a todos.

Ensinei-os a aproveitar cada oportunidade para aprender, conhecer novas pessoas, descobrir o mundo e adquirir conhecimento. Incentivei-os a valorizar a educação, a curiosidade, a cultura e o esforço muito mais do que os bens materiais.

Acredita: eu era feliz. Com esforço, organização e muitas renúncias, consegui educar os meus filhos, dar-lhes aquilo de que verdadeiramente precisavam e proporcionar-lhes oportunidades para crescerem e construírem o seu futuro.

Hoje, eles têm a vossa idade.

Conhecem as dificuldades da sua geração. Sabem que a habitação está mais cara, que a incerteza existe e que muitos jovens sentem que trabalham muito sem conseguir alcançar a estabilidade que desejam. Mas também sabem que muitas das oportunidades que tiveram nasceram de anos de sacrifício, poupança, trabalho e escolhas conscientes feitas pela nossa família.

Por isso, quando ouço dizer que os mais velhos viveram numa época de abundância e facilidade, não reconheço essa realidade. A maioria das famílias da minha geração fez enormes sacrifícios, adiou sonhos, prescindiu de conforto e trabalhou arduamente para criar condições para os seus filhos.

A dificuldade de acesso à habitação é um problema real e merece soluções sérias. Mas não é uma guerra entre gerações. Não são os vossos pais nem os vossos avós os responsáveis pelo problema. A maioria deles sabe muito bem o que significa contar os cêntimos até ao final do mês, abdicar de desejos e construir uma vida passo a passo, sem garantias e sem privilégios.

A vossa luta merece ser ouvida. Mas não transformem quem também lutou toda a vida no vosso adversário. Porque, no fundo, queremos a mesma coisa: que os nossos filhos e os nossos jovens tenham uma vida melhor do que a que nós tivemos. E esse é um objetivo que une gerações, não que as divide.