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#ObrigadoPassosCoelho

A pressão para escrever sobre Passos Coelho surgiu-me nas últimas semanas, e não foi pelas suas últimas aparições. A necessidade veio-me de uma outra história, um acontecimento verídico.

José Torres da Costa
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Pois é! Há muito que este tema me palpitava no peito. Estive precisamente há um ano para o escrever. Se o tivesse feito, ter-lhe-ia chamado – Não havendo Passos Coelho!

Seria um texto sobre as eleições presidenciais, um texto onde sem nunca o indicar como “o meu candidato”, era fácil prever numa palete onde uns não gostavam de verde, outros de amarelo e muitos de vermelho, ganharia seguramente o cinzento, ou o cinzento Seguro – aqui a ordem dos fatores é perfeitamente irrelevante. Pois é, não o elaborei e agora fazê-lo ficaria demasiado “retrô”.

A pressão para escrever sobre Passos Coelho surgiu-me nas últimas semanas e, como verão, não foi pelas suas últimas aparições em público. A necessidade veio-me de uma outra história, um acontecimento insólito, mas verídico.

Fosse o texto só o título e poderia agradecer a Passos Coelho por ter congregado junto de si as vontades, e votos, que deram fim ao consulado de José Sócrates. Poder-lhe-ia agradecer por ter protagonizado as condições que revelaram, para posterior espanto nacional, quem foi, e é, essa personagem – José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa. Nesse desvelo, e pelas ligações que ao próprio tinham, ficamos ainda a conhecer outros protagonistas desse período de “fartar vilanagem”: Maria Adelaide de Carvalho Monteiro; António José Carvalho Pinto de Sousa; José Paulo Bernardo Pinto de Sousa; Carlos Santos Silva; Ricardo Salgado; Manuel Pinho; Armando Vara; Joaquim Barroca Rodrigues; Hélder Bataglia; Zeinal Bava; Henrique Granadeiro; Rui Horta e Costa; José Diogo Gaspar Ferreira; Noronha do Nascimento; Fernando Pinto Monteiro e, como numa boa trama de “Pirandelli”, o inevitável motorista – João Perna. Meu Deus, e nada suspeitamos durante treze anos. Só por ter posto esta lista a nu Passos Coelho mereceria, ser toponímia de uma praceta ou, pelo menos, ter uma lápide honorífica. Porém, não é spor essa razão que lhe prestaria tributo.

Podia igualmente ser por ter precipitado o ocaso do consulado de Sócrates e nesse ato ter remetido para os recessos da história figuras como: Pedro Silva Pereira; Jorge Lacão; Eduardo Cabrita; José Magalhães; Ascenso Simões; Diogo Freitas do Amaral; João Gomes Cravinho; Fernando Teixeira dos Santos; Alberto Costa; Mário Lino; Paulo Campos; Marcos Perestrello; Carlos Zorrinho, e ainda o incontornável; Augusto Santos Silva. Tudo figuras que, ou saíram pela porta pequena da história, ou nunca tiveram a lisura de se retratar. Não faltam motivos para agradecimentos.

Podia igualmente ocorrer por ter sido empossado em junho de 2011 como Primeiro-Ministro do XIX governo constitucional e, nessas funções, ter executado o plano de resgate das finanças públicas portuguesas. Plano que, e nunca é demais lembrar, foi negociado e celebrado com a “Troïka” por José Sócrates e o seu governo. Foi um programa exigente que Passos Coelho e os seus ministros interpretaram com o êxito e, pelo qual, a 17 de maio de 2014 readquirimos a nossa soberania financeira. Muito deste sucesso e do que então se conseguiu se deve a Passos Coelho, mas também a António José Seguro que soube ser a oposição que o país de então necessitava. Passos Coelho e o seu governo tinham à altura uma visão para o país. Porém era um plano que o espartilho da tutela externa limitava, mas que nunca lhe limitou o sonho ou a ambição. É assim que deve ser lida a expressão – ir para além da Troïka – fórmula que, como um carrapato, se lhe colou e sempre lhe limitou qualquer intervenção posterior.

Podia agradecer-lhe por isto, mas também pela forma austera, honesta e sóbria como nos conduziu. Poder-lhe-ia agradecer por tudo isto, mas este não é o local para o fazer.

Aliás, se o fizesse ser-me-ia apontada alguma soberba. A sua intervenção refletiu-se nos resultados sufragados na vitória eleitoral que se lhe seguiu. Um juízo público favorável em que obteve 38,5% dos votos, mais cinco pontos percentuais e mais 21 deputados que o partido que deveria liderar a oposição.

Quiseram, porém, as circunstâncias, num exercício de singular desfaçatez política, que alguns dos corresponsáveis pelas circunstâncias que conduziram à intervenção da Troïka tivessem encontrado, numa leitura capciosa dos resultados de 2015, a justificação para o seu regresso ao poder. Envergonhado pela forma como os responsáveis políticos de então não souberam respeitar a vontade popular, poderia aqui apresentar-lhe o meu lamento solidário. E em particular poderia fazê-lo quando a ingratidão nacional o destratou, como nos deveríamos recordar, nas eleições autárquicas de 2017.

Um ato eleitoral onde alcançou menos de metade das câmaras obtidas pelos socialistas. Uma derrota pesada e ingrata para quem com sucesso e abnegação se tinha dedicado à coisa pública. Um desfecho que não merecia, e ainda o não merecia porque foi dos poucos decisores políticos que logo soube antecipar o caos social a que o governo da geringonça nos conduziria. A expressão foi – vem aí o diabo – e hoje convivemos com ele.

Não é porém este o momento para o justo reconhecimento de alguém que soube sair e remeter-se quase uma década de silêncio e recato. Silêncio, como o de um autor que de longe assiste à uma peça da qual perdeu os direitos autorais. Um período em que a instabilidade de uma geringonça trouxe a palco uma extrema-esquerda wokista, uma abertura a um extremo da sociedade, uma abertura a que se deve assacar a responsabilidade do crescimento posterior de uma direita recheada de populistas, irresponsáveis e tantos outros maltrapilhos.

A saída de Passos Coelho da cena política está assim relacionada com as derivas das causas fraturantes e ausência de gestão política corrente – prefiro este termo a reformas – que caracterizaram o período da geringonça. Foi porque Passos Coelho foi afastado que a educação tomou o rumo que conhecemos, a saúde adoeceu, a imigração se descontrolou, a emigração tomou raias de normalidade e os “sem-abrigo” se tornaram um mal menor de face aos “sem teto”. Todas as crises de 2026 estão relacionadas com a forma como permitimos que Passos Coelho fosse tratado nesse fatídico ato eleitoral. Temos culpa e nunca lho dissemos com arrependimento.

Poder-lhe-ia ainda agradecer pelos anos de silêncio e clausura com que geriu a sua vida, ou ainda pela forma como ainda mostrou ser possível sair, sem ser pelas portas-giratórias por onde toda a classe política escapa para uma nova vida, habitualmente bem mais faustosa.

Podia ainda agradecer-lhe no último ano pela crítica incisiva que tem feito ao seu partido e ao governo de Montenegro. Um governo de uma inépcia que só não é mais evidente, porque das muitas individualidades pantanosas que o compõem não se espera que brotem orquídeas nem rasgos de génio.

Por tudo isto podia agradecer a Passos Coelho e, ainda que ache que estamos no tempo apropriado, este não é o momento nem a ocasião.

Benjamim nunca se interessara por política para além de um ritual do voto, de tempos a tempos, ou da revolta vocal espasmódica perante os relatos na espuma dos dias. Benjamim estava-se nas tintas! Borrifava-se para as coisas da política, mas, nos anos fatídicos de 2011 e 2012, as coisas começavam a apertar.

Comercial numa empresa de distribuição, casado com uma professora do ensino secundário, com dois filhos, casa e carro cujo dízimo sugava boa parte dos vencimentos, até 2011 não tinha sentido verdadeiramente nenhuma das dificuldades que, desde então, pareciam crescer sem porta de saída.

Não era rico, nunca o tinha sido, mas pertencia àquela classe média que, sem grandes luxos, se habituara a viver com a tranquilidade de quem acredita que o amanhã deve ser, pelo menos, semelhante ao hoje. Tinha comprado casa, trocado de carro, com a família fazia férias no Algarve, jantava fora muitos sábados e, de vez em quando, permitia aos filhos a extravagância de um fim de semana diferente. Não tinha uma vida de excessos, tinha uma que cabia no seu salário.

Em 2011 começaram os primeiros sinais. Primeiro discretos, quase impercetíveis. A gasolina subia, a eletricidade encarecia, os transportes aumentavam. Em outubro, o IVA do gás e da eletricidade passou de 6 para 23 por cento. Benjamim não sabia bem o que era uma taxa normal ou reduzida, mas percebeu rapidamente que aquecer a casa se tinha transformado num luxo. A mulher, mais atenta às notícias, falava-lhe da Troika, do memorando, das metas do défice, de uma tal consolidação orçamental. Benjamim ouvia, encolhia os ombros e respondia que os políticos eram todos iguais. O problema era, fossem iguais ou diferentes, começavam a custar-lhe sacrifícios.

No Natal desse ano, uma sobretaxa extraordinária de IRS levou parte do subsídio que habitualmente usavam para pagar o seguro do carro, algumas prendas e a extravagância de uma consoada mais farta. Nada de dramático, pensou, teria de fazer sacrifícios. Era o que diziam todos, dos ministros aos comentadores, dos economistas aos especialistas de ocasião que, com invejável desenvoltura, explicavam como se podia viver melhor gastando menos. Benjamim desconfiava que nenhum deles alguma vez tinha feito compras com lista e calculadora.

Mas foi em 2012 que a austeridade deixou de ser uma palavra de telejornal e passou a ter lugar cativo à mesa. A mulher, funcionária pública, já sofrera cortes salariais, viu na altura desaparecer os subsídios de férias e de Natal. Dois salários extraordinários que, afinal, tinham deixado de ser extraordinários. Havia muito que permitiam pagar despesas absolutamente ordinárias. O seguro da casa, o IMI, a manutenção do automóvel, os livros escolares, as férias. Tudo aquilo que o rendimento mensal não conseguia acomodar e agora ficava sem padrinho.

A escola também mudara. A mulher chegava a casa mais cansada, com mais alunos, mais exigências administrativas e menos disposição para ouvir Benjamim dissertar sobre a inutilidade dos políticos. Ele, por seu lado, começava a sentir a crise no emprego. Os clientes compravam menos, adiavam encomendas e, ora discutiam descontos de “tostões”, ora prolongavam pagamentos. As comissões encolhiam e com elas o resultado líquido do mês. O patrão falava em contenção, palavra que habitualmente significava contenção nas expectativas e insegurança no emprego.

Em janeiro, o IVA da restauração passou de 13 para 23 por cento. Os jantares de sábado foram os primeiros a desaparecer. Seguiram-se as idas ao cinema, a televisão por cabo com os canais suplementares, os fins de semana fora. As férias no Algarve transformaram-se numa semana em casa dos sogros. No supermercado, os produtos de marca deram lugar às marcas brancas, o talho passou a merecer visitas mais ponderadas e os filhos começaram a ouvir com frequência uma expressão que até então lhes era quase desconhecida – agora não dá!

Até ficar doente tinha ficado mais caro. A consulta no centro de saúde, que custava 2,25 €, passou para cinco, uma urgência hospitalar podia custar vinte euros. Para Benjamim, se vivia acima das possibilidades, como frequentemente lhe repetiam, tinha agora medo de adoecer acima do que era permitido.

E havia o medo. Esse não vinha discriminado nas faturas, mas era talvez o encargo mais pesado. Um colega fora despedido, outro tinha o filho engenheiro a trabalhar num restaurante em Londres, uma vizinha entregara a casa ao banco. O desemprego, que em 2011 atingira cerca de 12,7 por cento da população ativa, ultrapassava os quinze por cento em 2012. Números que Benjamim não sabia interpretar, mas cujos rostos reconhecia. Já não eram estatísticas, eram pessoas conhecidas, olhares desviados, pequenos constrangimentos de quem deixara de perguntar aos outros como lhes corria a vida.

Foi então que Benjamim começou a prestar atenção à política. Não por crendice cívica, não por uma súbita descoberta dos ideais democráticos, muito menos por ter encontrado numa qualquer doutrina a explicação para os males do mundo. Começou a prestar atenção porque, pela primeira vez, a política parecia interessar-se verdadeiramente por ele. Interessava-se pelo salário da sua mulher, pelo subsídio de Natal, pela gasolina que punha no carro, pela eletricidade que consumia, pelo que comia, pelo que deixava de comer e até pelas doenças que podia permitir ter.

Benjamim continuava a borrifar-se para a política. O problema era que a política, essa, deixara de se borrifar para ele.

Dececionado com as dificuldades, sentia-se como um náufrago que, por entre destroços, encontra não a salvação, mas apenas o suficiente para continuar a respirar. Sem futuro para além do hoje, era à hora do almoço que conversava com os colegas sobre o que poderiam ainda fazer para sobreviver até ao final do mês.

Não se recordava de quem partira a ideia, mas alguém sugerira renegociar os seguros pagos pela empresa. Talvez se conseguissem reduzir os encargos com o seguro de vida e outros, talvez deixassem de se preocupar com o futuro, talvez assim conseguissem salvar o presente.

E os três colegas lá questionaram os recursos humanos sobre uma possível alteração das condições das apólices. Duas ou três semanas depois lá veio a resposta. Sim, era possível, mas teriam de reformular as condições numa nova apólice, que, sendo nova, os obrigava a exames médicos.

Mais consultas, mais exames, mais despesa, será que valeria a pena? A consulta talvez a pudesse fazer no médico da empresa, e quanto aos exames, ainda há cerca de um ano os tinha feito. Talvez não fosse preciso fazer novos.

O médico da empresa ajudou no relatório de saúde e os exames do ano anterior também deveriam ser aceites. Talvez do outro lado houvesse uma saída, uma pequena folga.

Benjamim entregou o formulário e os exames indicados. Segundo o formulário, e porque tinha antecedentes de “pedra nos rins”, era preciso uma ecografia abdominal.

Ainda no ano anterior tinha feito uma que estava normal. O médico tinha-o indicado no formulário. Porém, tinha a informação, mas não o exame.

Pode parecer capcioso, mas se o protocolo tinha identificado o exame como necessário, não havia como contornar o problema. Ou tinha o exame, ou não haveria como fazer nova apólice. Procurou e vasculhou toda a casa, sempre sem sucesso. Nem exame, nem pista que esclarecesse o sumiço. As coisas tendem a aparecer muito depois e só quando já não são precisas.

Contudo, era claro, tinha de repetir o exame, só que este custaria cerca de cinquenta euros. Cinquenta euros de dificuldades a acrescentar às do mês. Mas lá se decidiu, era um investimento que lhe daria seguramente retorno.

E lá fez uma ecografia abdominal que duas semanas depois levou ao médico. O relatório referia uma presença inesperada – no terço médio do rim esquerdo identifica-se uma formação nodular sólida, medindo cerca de 22 × 19 mm, condicionando discreta deformação do contorno renal – o médico leu e Benjamim leu e releu, era assim que estava escrito. Não deixava margem para dúvidas.

Era um aviso importante. Tinha de agir! Semanas depois estava numa consulta hospitalar e dois meses após já tinha feito uma nefrectomia parcial.

A análise do tumor mostrou um carcinoma renal detetado a tempo. Depois de removido foi considerado como curado.

Meses depois, bastantes meses depois, quando fazia uma limpeza no carro, encontrou a ecografia perdida. Estava caída entre o lugar do passageiro da frente e a consola central. Estava ali, ao lado do banco, ali, há mais de um ano.

Pegou no envelope, abriu-o. Tinha dentro uma folha com um quadro negro, artisticamente preenchido por pontos e traços brancos. Um enigma! Como seria possível alguém ver ali o que quer que fosse? Onde estaria o tumor? Será que já por ali estava?

Pegou no relatório e leu-o até ao fim! Apertou a folha contra o peito e pensou “Obrigado Passos Coelho”.