Durante mais de uma década, Harry Kane foi uma caricatura. Avançado do Tottenham, capitão do Tottenham, figura maior do Tottenham, acumulou centenas de golos sem conquistar um único troféu e entre todas as desilusões tornou-se a cara de um clube que nada ganhava. Em 2023, quando tomou a brutal decisão de virar costas ao legado para abraçar o futuro, deixou de ser uma caricatura para se tornar uma imagem.
Agora, três anos depois de ter chegado ao Bayern Munique, Harry Kane é o melhor jogador do mundo. Aproveitando uma temporada em que ninguém foi dominador ou avassalador, entre as conquistas coletivas nos clubes e nas seleções e os registos individuais, o avançado inglês recebeu esta segunda-feira a Bola de Ouro em Londres, a cidade onde nasceu, sucedendo a Ousmane Dembélé — contando também com essa particularidade quase mística de, pela primeira vez, a gala da France Football não ter acontecido em Paris, mas sim em Inglaterra.
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Aos 33 anos, Harry Kane é assim o quinto jogador inglês a receber a Bola de Ouro: junta-se a Stanley Matthews, o primeiro de sempre a ser considerado o melhor jogador do mundo, em 1956, cujos 70 anos do galardão foram precisamente o motivo de a gala decorrer em Londres; Bobby Charlton, que ganhou em 1966 e à frente de Eusébio, que tinha vencido no ano anterior; Kevin Keegan, o único inglês a vencer em duas ocasiões, em 1978 e 1979; e ainda Michael Owen, que ganhou em 2001 e à frente de Raúl e Oliver Kahn, numa das edições mais contestadas do troféu. Há 25 anos que um inglês não recebia a Bola de Ouro, portanto, com Inglaterra a superar agora Itália e Brasil, ambos com cinco triunfos, ficando com seis atrás de França (oito), Argentina (oito), Alemanha (sete), Países Baixos (sete) e Portugal (sete).
Na última temporada, o avançado marcou 61 golos em 51 jogos pelo Bayern Munique, conquistando a Bundesliga, a Taça da Alemanha e a Supertaça da Alemanha com os bávaros. Chegou às meias-finais da Liga dos Campeões e voltou a ganhar a Bota de Ouro, o troféu que distingue o melhor marcador na Europa, algo que já tinha alcançado em 2024. No verão, enquanto capitão de Inglaterra, ficou no terceiro lugar do Mundial 2026, caindo nas meias-finais com a Argentina e vencendo depois França, tendo marcado seis golos durante a competição.
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Nascido em Leytonstone, um subúrbio de Londres, em julho de 1993, Harry Kane foi o segundo filho de Kim e Patrick — e até tem uma ascendência irlandesa bastante vincada, já que o pai nasceu em Galway. Começou a jogar futebol muito cedo e estudou na Chingford Foundation School, conhecida por ter sido a escola de David Beckham, e em 1999 já fazia parte do Ridgeway Rovers, um clube local.
“Acho que os genes do desporto vêm do lado da família da minha mãe, ainda que o assunto provoque um debate muito intenso lá em casa. O meu pai não gosta muito de que diga isto, mas o meu avô Eric, o pai da minha mãe, era um jogador de futebol bastante bom e chegou a jogar em vários clubes”, já contou o avançado, que tinha Teddy Sheringham, David Beckham, Jermain Defoe e Ronaldo como ídolos quando era criança.
Apesar de a família contar principalmente com adeptos do Tottenham e de ter crescido a 15 minutos de White Hart Lane, o histórico estádio dos spurs, Harry Kane era adepto do rival Arsenal quando era mais novo. E foi precisamente nos gunners que acabou por entrar quando tinha oito anos — numa fotografia que acabou por acompanhá-lo e persegui-lo durante todo o tempo que passou no Tottenham. Ao fim de um ano, porém, foi dispensado por ser “um bocadinho gordinho” e “não muito atlético”, referia o relatório.
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Voltou ao Ridgeway Rovers e aos 11 anos, em 2004, entrou nas camadas jovens do Watford — mas por muito pouco tempo. Impressionou num jogo contra o Tottenham e acabou por merecer a aposta dos spurs, onde até começou por ser médio-centro ou médio ofensivo, assumindo mais tarde a posição de avançado. Nunca teve grande destaque nos primeiros anos, já que não era alto ou particularmente rápido, mas todos os que com ele se cruzaram naquela altura recordam a vontade de melhorar e trabalhar.
Aos 16 anos, já em 2009, beneficiou de um salto brutal em termos de altura e acompanhou-o com ginásio e treino, tornando-se fisicamente forte e já muito próximo do que é hoje em dia. Assinou contrato profissional com o Tottenham e em 2009/10 foi convocado duas vezes para a equipa principal, num jogo da Taça de Inglaterra e noutro da Taça da Liga, sendo que acabou por ser suplente não utilizado em ambos.
A estreia oficial estava reservada para agosto de 2011, numa pré-eliminatória da Liga Europa contra o Hearts, mas Harry Kane teve de andar vários anos a rodar por diversos clubes para encontrar espaço em Londres: foi cedido a Leyton Orient, Millwall, Norwich e Leicester e só em 2013/14, pela mão de Tim Sherwood, é que entrou definitivamente nas contas do Tottenham. Daí para a frente, marcou 280 golos em 435 jogos, tornando-se o melhor marcador da história dos spurs, perdeu finais da Liga dos Campeões e da Taça da Liga, tornou-se o inglês com mais golos de sempre na Liga dos Campeões e ainda o segundo melhor marcador da história da Premier League, com 213 golos, apenas atrás dos 260 de Alan Shearer.
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Em 2023, depois de ser associado ao Real Madrid durante anos a fio, assinou pelo Bayern Munique por mais de 100 milhões de euros e tornou-se a contratação mais cara da história dos alemães. A maldição parecia tê-lo perseguido para a Alemanha, já que o Bayern perdeu a Bundesliga para o Bayer Leverkusen na época de estreia do avançado inglês, mas tudo voltou ao normal logo na temporada seguinte e Harry Kane já conta agora com dois Campeonatos, uma Taça da Alemanha e duas Supertaças, os únicos troféus que conquistou em toda a carreira.
Pelo meio, de forma natural, tornou-se a figura maior de Inglaterra no pós-Wayne Rooney, Frank Lampard, Steven Gerrard ou David Beckham. É capitão, perdeu as finais dos Europeus de 2020 e 2024, já é o melhor marcador inglês em Campeonatos do Mundo com 14 golos e já no atual mês de outubro igualou Peter Shilton enquanto mais internacional de sempre, com 125 internacionalizações.