1 O socialismo confunde governo com sociedade. É por isso que se alguém dele discorda logo responde que é por ser adversário das maravilhas progressistas que o governo pretende fazer.
E qual é o instrumento do governo? Pois é a lei e por detrás dela a máquina administrativa, tanto maior quanto mais leis existem. Daí a fé inabalável na lei, na sua boa execução e nas suas virtudes. À lei cabe reformar a sociedade de alto a baixo, sem limites nem hesitações, esclarecida, quando muito, pela cabeça de umas tantas luminárias saídas de umas tocas que se arrogam a missão de educar a humanidade e de a salvar. A sociedade é uma massa inerte, pouco esclarecida, de vida quase vegetativa à espera da redenção dada pelo socialismo legislador e administrador. A sociedade, para ser boa, é uma construção artificial saída do génio socialista porque se assim não for vale tudo e os homens matam-se uns aos outros.
A sociedade é um rebanho amorfo e passivo à espera de ser guiado pelo pastor até ao bom redil. Cabe ao legislador e ao administrador conformar a sociedade que é como quem diz, reunir a multidão dos homens dentro de uma cerca magnífica. O socialista é o pastor do rebanho social. Este é o objecto das combinações e projectos saídos da magnífica cabeça dele.
O socialista crê e de boa-fé que há uma grande distância que o separa da sociedade. Esta distância carece da bondade dos projectos que lhe cabe executar em benefício dela. A humanidade existe para ser por ele educada. Sem ele virá o dilúvio. A sociedade é a argila e o socialista é o oleiro.
Dizia o criminoso Saint-Just, arquitecto do terror revolucionário: O legislador ordena o futuro. Cabe a ele querer o bem. Cabe a ele tornar os homens o que ele quer que eles sejam. E o infame Robespierre, tão admirado nos nosso dias pelo partido La France Insoumise, não lhe fica atrás. Ouçamo-lo: O princípio do governo republicano é a virtude e o seu meio, enquanto ele se estabelece, é o terror. Belos rapazes.
2 O socialista legitima sempre a força. É natural porque crê que sem ele a sociedade caminha para a ignorância, a miséria e a violência. Daí que não hesite em usar e abusar da força porque sem ela a sociedade precipita-se no vício. Tudo o que ele pretende só se faz com a autoridade da lei e com a força que lhe assiste pois que tal como o rebanho para ser guiado necessita dos cães do pastor e das pedradas que este lhe atira, também a sociedade para ser levada a bom porto carece de autoridade e da força. O socialismo está sempre a piscar o olho ao poder e não hesita em atirar pedras ao rebanho nem em pôr os cães e rosnar às ovelhas.
Nas suas várias versões, desde as revolucionárias às democráticas moderadas, o socialista necessita da autoridade e da força e faz e fará uso delas.
Querem exemplos? Já se esqueceram da lei que foi proposta por uma socialista (nem sei felizmente o nome dela, uma grunha qualquer saída de algures) que queria congelar rendas, acabar na prática com o alojamento local, impedir despejos, legalizar ocupações selvagens, condicionar os construtores civis e aplicar mais toda uma série de medidas autoritárias contra a propriedade privada? E dos impostos gerais sobre o património propostos pela incrível Mortágua? Alguém se esqueceu daquele energúmeno que aparecia pintado em murais ao lado de facínoras como o Estaline a dizer que era o «grande educador da classe operária»? Imaginem só o que ele faria se o tivessem deixado… E que dizer de um sujeito que quer ilegalizar o maior partido da oposição, goste-se ou não dele? Alguém se esquece do que é a política agrícola socialista da União Europeia que arranca culturas que deram fruto durante séculos em nome dos «planos» dos burocratas sediados em Bruxelas, desprezando a velha sabedoria do agricultor e as leis da experiência?
A força é a outra face do socialismo. Só assim consegue impedir que a sociedade pense e se guie por si própria em vez de estar à espera das suas magníficas realizações.
3 O socialista despreza deveras a sociedade. Esta é uma matéria informe e passiva que tem nele o seu princípio vital tal como dantes a tinha no monarca absoluto. De hora a hora a sociedade piora e o socialista melhora. A sociedade não tem sabedoria nenhuma. O socialista é que tem. É por essa razão que tem tendência para usar o dinheiro dos contribuintes como se fosse dele: nem sempre é por mal mas sim porque se julga ungido para tal tarefa.
Ainda se o socialista legislasse tão bem como o moderado Sólon, o melhor legislador ateniense, ou como o lúcido William Penn, fundador da Pensilvânia, as coisas compunham-se, mas o objectivo do socialista não é deixar a sociedade viver ordeiramente por si com um mínimo de intervenção mas sim transformá-la de alto a baixo porque não é digna de ser vivida sem ele a mandar. Os seus émulos são o radical Licurgo, legislador que transformou Esparta num estado militar, e seu discípulo Rousseau, outro inimigo da liberdade, pois que ninguém como eles fez a apologia da passividade da sociedade perante o construtivismo do legislador.
4 O maior receio do socialista (democrático) nem é tanto perder as eleições. Mais tarde ou mais cedo ganha-as e com toda a legitimidade. O seu maior receio é que a sociedade seja civil ou seja, que não precise dele. Que pesadelo! Onde ficarão tantas resmas de projectos a transformar em outras tantas leis saídas da cabeça iluminada das estrelitas do firmamento do partido?
E se algum particular, empresa, fundação privada, colégio ou associação ousa começar com iniciativas, logo o socialista lhe cai em cima e a enreda numa cortina de normas, procedimentos e requisitos de modo a castrar tanto quanto possível qualquer iniciativa. Pode lá ser de outra maneira? Ainda chegávamos a um ponto em que a sociedade civil poderia viver sem ele.
O socialista ama a liberdade, mas para ele a liberdade é o poder da lei e da burocracia administrativa. Nada mais. E o legislador é, por definição, infalível e a sua bondade transmite-se a quem executa a lei. Por ser democrático, o socialista (o democrático, evidentemente, e só ele, o revolucionário não) ama certamente a liberdade, mas por ser social despreza-a. A prova? Tudo corre bem ao povo quando está sob a influência dele: o povo é fantástico, esclarecido, adulto e feliz. Mal deixa de estar sob os seus auspícios, a democracia corre perigo e o povo impreparado é manipulado pelo «fascismo», dito agora «populismo».
Para o socialista a liberdade é a lei, a lei feita por ele, evidentemente. Cabe-lhe organizar as nossas consciências, a nossa vontade, o nosso bem-estar, o nosso trabalho e até a nossa família. Para isso confia numa multidão assustadora de funcionários públicos vivendo à nossa custa e em boa hora chamados a arranjar-nos a vida.
Os resultados do socialismo são inevitavelmente estes: o despotismo legislativo, a burocracia gigantesca, o despesismo, o autoritarismo governamental, a tirania «filantrópica», a «solidariedade» à força e uma sociedade civil fraca e indiferente.
É por estas razões que não sou socialista. Mais explicações seriam justificações e não as dou porque penso que não são necessárias. As coisas falam por si.