Uma vitória para o Campeonato, duas goleadas na Liga Europa, a reposição da normalidade assegurada. O resultado no Dragão frente ao FC Porto não foi o desejado e deixou o Benfica a cinco pontos da liderança mas os encarnados souberam interpretar da melhor forma aquilo que correu bem e menos bem, recarregaram as baterias durante a paragem para seleções e voltaram ainda mais fortes, mais consistentes e com mais opções perante o aparecimento de Echeverri e as indicações da dupla Prestianni-Schjelderup a jogar em conjunto. A grande aposta de Marco Silva desde que chegou à Luz foi ganha: a equipa comprou uma ideia, assumiu uma nova identidade, percebeu um modelo diferente e aprendeu a voar. Agora vinha um teste fulcral a essa ascensão, na deslocação aos Açores para defrontar um Santa Clara sem derrotas e com quatro golos sofridos.
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Marco Silva, um técnico que quer sempre mais como se percebeu no Chipre, onde ficou satisfeito com quatro golos marcados mas furioso pela forma como as águias consentiram um golo ao Omonia, tinha noção do que estava em causa e, aproveitando a conferência de antevisão antes da viagem para São Miguel, colocava o foco naquilo que era importante e naquilo que era “mais importante”: jogando melhor ou pior, os três pontos. “Há várias formas de ganhar, cada clube e cada treinador tem a sua forma de jogar ou de pensar o jogo. Às vezes pensamos de uma forma e queremos jogar daquela maneira mas acabamos por não conseguir porque temos adversários à nossa frente com qualidade que nos tentam bloquear. No futebol não há só uma forma de ganhar, há variadíssimas maneiras e compete a cada clube e equipa técnica optar por esse caminho”, frisou.
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“Temos o nosso caminho, queremos segui-lo e ganhar jogos. Não estamos no clube para sermos os mais bonitos da festa nem para sermos aqueles que vestem melhor, queremos progredir com a equipa, ganhar jogos e conquistar títulos – esse é o nosso objetivo claro”, reforçou, passando ao lado de questões que podiam interferir como o relvado do Estádio de São Miguel mas valorizando todo o percurso do Santa Clara.
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“A equipa está bem, confiante, depois de mais uma boa vitória na Liga Europa. Vamos ter mais uma viagem mas não serve de desculpa. É momento de prepararmos o jogo e recuperarmos jogadores. Vamos jogar com uma equipa que não tem derrotas, que tenta criar problemas ao adversário, que procura a iniciativa, com jogadores bons e qualidade na frente de ataque, bem treinada. Vai exigir um Benfica no máximo. Jogo mais complicado depois do FC Porto? É difícil mas a classificação diz-nos que sim… Esperamos um bom jogo, se o tempo irá criar ou não mais dificuldades, temos de estar preparados. Também precisamos da criatividade dos nossos jogadores. Temos que assumir a responsabilidade e chegar lá e impor o nosso futebol”, referiu.
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Em paralelo, e um pouco à semelhança do que aconteceu com o Sporting, que se “afundou” ainda mais na classificação após perder em Alvalade com o Ac. Viseu e ficar já a nove pontos do topo da classificação, Marco Silva não via problemas por jogar apenas depois do líder FC Porto, sabendo que a margem de erro se tornou mais curta depois dos cinco pontos perdidos nas sete jornadas iniciais. “Compete-nos olhar para nós. Não é agradável olhar para a classificação mas quem não gostar, que não olhe. Se não tiver influência, podem olhar. A partir do momento em que preparámos uma época, sabíamos que a maioria das vezes íamos jogar depois dos adversários porque estamos na Liga Europa. Não controlamos, não adianta gastar energia. Temos de nos focar nos três pontos e é nesse ponto que temos de estar”, comentou o técnico dos encarnados.
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Parecia estar a adivinhar. Com o Santa Clara a aproveitar o facto de jogar a favor do vento para “banalizar” a máquina ofensiva do Benfica, que fez apenas dois remates não enquadrados em 45 minutos numa exibição sem brilho, foi preciso mexer na equipa para dar largura pelas alas e colocar Prestianni no meio para ter mais bola, pisar outros terrenos e fazer a diferença. Mais uma vez, o argentino foi um furacão à solta que conseguiu desequilibrar a favor dos encarnados na partida mais complicada depois da viagem ao Dragão.
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Ficha de jogo
Santa Clara-Benfica, 1-2
9.ª jornada da Primeira Liga
Estádio de São Miguel, nos Açores
Árbitro: Cláudio Pereira (AF Aveiro)
Santa Clara: Lucas França; Lucas Soares (Léo Jacó, 84′), Pedro Pacheco, Emanuel Moreira, Guilherme Romão; Pedro Ferreira (Vitinho, 84′), Tiago Ribeiro, Daniel Borges (Vasconcelos, 75′); Brenner (Welinton Torrão, 67′), Luis Fernando e Vinícius Lopes
Suplentes não utilizados: Neneca, Henrique Silva, Afonso Duarte, Ythallo, Frederico Silva, Tiago Duarte, Fofana e Luiz Castro
Treinador: Petit
Benfica: Samuel Soares; Bah, Tomás Araújo (Circati, 81′), Lenglet, Dahl; João Palhinha, Aursnes; Rafa (Lukebakio, 46′), Sudakov (Schjelderup, 46′), Prestianni (Manu Silva, 90+1′) e Pavlidis (Jhon Durán, 81′)
Suplentes não utilizados: Trubin, Gabriel Índio, El Karouani, José Neto, Tiago Freitas, Claudio Echeverri e Anísio Cabral
Treinador: Marco Silva
Golos: Luís Fernando (32′, g.p.), Pavlidis (62′) e Prestianni (68′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Bah (8′), Marco Silva (10′), Emanuel Moreira (35′), Pedro Pacheco (40′), Pavlidis (59′), Aursnes (74′), Dahl (88′), Jhon Durán (89′), Guilherme Romão (89′) e Vasconcelos (90+3′); cartão vermelho direto a Jhon Durán (final do jogo), Tiago Pinto (adjunto do Santa Clara, final do jogo), Luis Fernando (final do jogo), Gonçalo Santos (adjunto do Benfica, final do jogo) e Mário Branco (delegado do Benfica, final do jogo)
Os minutos iniciais foram marcados pela tentativa de estudo entre as duas equipas e pela adaptação ao vento que na primeira parte soprava a favor do ataque do Santa Clara. Brenner, numa segunda bola ainda longe da área, tentou um remate de fora da área que foi tudo menos isso (1′), Alexander Bah combinou bem com Rafa na direita, ganhou a frente no movimento para o meio e tentou também de pé esquerdo para defesa de Lucas França (7′). Não estava fácil entrar no bloco defensivo dos açorianos, também nem sempre era fácil controlar a mobilidade das unidades ofensivas do conjunto de Petit, com Vinícius Lopes a ter uma aceleração na zona entre central e lateral descaído sobre a direita do ataque antes do cruzamento tenso que Luis Fernando ainda conseguiu desviar para defesa de Samuel Soares (11′). Apesar da tentativa clara de querer controlar o jogo em posse, o Benfica não conseguia sair das marcações individuais no corredor central e via-se quase “forçado” a jogar algumas vezes em passes mais longos quando não conseguia levar a bola até Prestianni.
Se dúvidas ainda existissem, a forma como o conjunto de Petit conseguia controlar o Benfica sem bola não perdendo de vista os espaços para sair rápido em transição era mais um bom exemplo do porquê de, com oito jornadas jogadas até aqui, o Santa Clara não ter derrotas e levar apenas quatro golos sofridos (tantos como o FC Porto). No entanto, e mesmo sem Gonçalo Paciência que foi baixa de última hora devido a um problema físico, a melhor defesa da Liga fazia mais do que travar apenas o melhor ataque da Liga – e também tinha argumentos para colocar os encarnados em sentido, como se viu num passe longo nas costas de Tomás Araújo que Brenner conseguiu ir receber antes do corte na área de Bah quando o brasileiro iria ficar isolado e pronto para rematar (28′). Na sequência do canto, nasceu o primeiro golo: Dahl desviou a bola com o braço, Lenglet também tocou com a mão na área e Luis Fernando aproveitou o penálti para fazer o 1-0 (32′).
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O Benfica estava previsível, demorava muito a fazer circulação de bola (perante a visível irritação de Marco Silva na zona técnica com esse dado), não conseguia criar desequilíbrio com o descair de Sudakov para o lado esquerdo onde estava Prestianni com o apoio de Dahl, tinha grandes dificuldades em chegar ao último terço com oportunidade de visar a baliza de Lucas França. E, quando ganhava algum espaço, os defesas da casa não pensavam duas vezes e assumiam o cartão amarelo, como aconteceu cedo com Emanuel Moreira e Pedro Pacheco, em faltas sobre Rafa e Pavlidis. Os minutos iam passando, o intervalo estava a chegar e o único momento de relativo perigo antes do descanso acabou por acontecer de novo para o Santa Clara e de bola parada, num livre direto de Tiago Ribeiro descaído sobre o lado direito que passou ao lado (45+2′).
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Marco Silva não perdeu tempo a “combater” aquela que foi a pior primeira parte do Benfica esta temporada a vários níveis (e de longe), apostando em Lukebakio e Schjelderup nas posições de Rafa e Sudakov. Por um lado, o técnico dos encarnados procurava dar outra largura à equipa, fazendo com que os dois alas do Santa Clara tivessem de recuar mais vezes e, com isso, ficassem mais longe no momento das transições ofensivas. Por outro, tentava colocar Prestianni no meio para ter mais bola, projetando também de outra forma o duplo pivô do meio-campo para criar superioridade e tentar reagir mais cedo à perda. Foi o argentino que, numa segunda bola ganha à entrada da área, arriscou o remate que saiu ao lado (53′) antes da melhor oportunidade dos encarnados que chegou num corte defeituoso de Emanuel Moreira que Lucas França conseguiu evitar que acabasse em autogolo (56′). Ainda assim, e sempre que o Santa Clara conseguia sair, criava perigo.
Na primeira ocasião em que os açorianos ganharam espaço para ir à procura da profundidade, Tiago Ribeiro ficou em posição privilegiada numa situação 2×1, não foi egoísta, quis assistir Vinícius Lopes que teria apenas de encostar mas Dahl conseguiu cortar para canto (56′). Pouco depois, o mesmo Tiago Ribeiro arriscou de livre ainda longe da baliza e obrigou Samuel Soares a uma defesa mais apertada (60′). O Benfica estava no limite, mais uma vez apareceu Prestianni: primeiro conseguiu provocar um raro desequilíbrio pela direita da defesa dos açorianos para ganhar espaço e cruzar rasteiro para a pequena área onde Pavlidis surgiu para desviar de primeira para o empate (62′), depois ganhou pelo meio com uma aceleração que deixou os defesas contrários para trás, entrou na área e atirou rasteiro para a reviravolta (68′). Em apenas seis minutos, o jovem argentino conseguiu apagar 60 minutos quase nulos da equipa e projetou as águias para a vitória.
Pela primeira vez na partida, o Santa Clara tinha de se mostrar mais em termos ofensivos, ficando também mais exposto ao que fossem as saídas pelos corredores laterais do Benfica. Ainda houve duas tentativas de chegar ao último terço bem resolvidas pela defesa dos encarnados mas o encontro tinha mesmo mudado as suas características, com os lisboetas a gerirem de outra forma a posse com circulação pelo setor defensivo a “chamar” o adversário antes de colocar na velocidade dos alas ou de Prestianni. Aursnes ainda teve um tiro que saiu muito perto do poste da baliza de Lucas França, Tiago Ribeiro voltou a arriscar a meia distância que ainda assustou Samuel Soares mas o encontro iria mesmo terminar com o 2-1, antes de uma enorme confusão no final da partida que valeu vários empurrões, insultos e cartões vermelhos para os dois lados.
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