Há muitos anos, percebi que uma linha de forecast nunca é só uma linha de forecast. Pode ser uma contratação que avança, um projeto que fica em pausa, uma equipa que será reforçada ou uma decisão difícil que obriga uma organização a olhar para a realidade antes de olhar para o próximo slide estratégico.
Finance não está à margem da tecnologia, está no centro da sua capacidade de crescer.
A inteligência artificial tornou esta conversa urgente. Hoje, a tecnologia lê documentos, cruza dados, automatiza tarefas, identifica padrões e devolve respostas em segundos. Mas obriga-nos a uma pergunta mais difícil: quando a máquina executa cada vez mais, qual passa a ser o nosso verdadeiro valor?
Para mim, a resposta está no contexto.
A inteligência artificial não sabe, sem contexto estratégico, se uma contratação deve acontecer agora, se um investimento tem retorno, se uma poupança protege margem ou destrói capacidade crítica seis meses depois. Pode sugerir uma resposta, mas não conhece a história. Não conhece as pessoas por trás da linha de headcount. Não substitui julgamento. É aqui que Finance se torna mais importante, não menos.
Numa empresa tecnológica, fechar números e garantir rigor e coerência com a história da empresa continua a ser essencial: a história que os números contam sobre o passado, mas também a que ajudam a construir sobre o futuro através da estratégia. Mas agora a velocidade é outra. As decisões têm menos tempo para amadurecer. Crescimento, transformação e pressão para fazer melhor acontecem ao mesmo tempo.
Esse choque já me é familiar. Quando entrei no setor tecnológico, a forma de trabalhar era mais rápida, informal e menos tradicional do que aquela que eu conhecia. No início, para quem vinha de uma base financeira clássica, aquela velocidade parecia incompatível com Finance.
Com o tempo, percebi o contrário. A tecnologia ensinou-me a trabalhar melhor na minha área: a partilhar conhecimento, fazer perguntas, aproximar Finance do negócio e não tratar o forecast como um exercício administrativo.
Um forecast parece “só” um ficheiro de Excel, mas é onde muitas decisões ganham permissão para existir. É onde a estratégia encontra a realidade, onde se percebe se uma ambição tem estrutura e se o crescimento que queremos é sustentável.
O meu percurso começou em contabilidade. Passei a liderar equipas cedo, antes de me sentir preparada. O meu maior medo era simples: falhar com tudo.
Estudava muito. Perguntava muito. Tentava perceber cada conceito, cada sistema, cada conversa onde ainda não dominava a linguagem. Durante algum tempo, achei que precisava de saber tudo para merecer estar na sala. Hoje sei que não era isso. O necessário era coragem para fazer as perguntas certas. Um pedaço de coragem, e talvez um pouco de loucura, para aceitar crescer antes de nos sentirmos prontas.
Em tecnologia, primeiro somos puxadas pelo ritmo; depois aprendemos a transformá-lo em capacidade.
Uma vez disseram-me que eu não precisava de saber todas as fórmulas de Excel; precisava de saber contratar e desenvolver quem soubesse. Isso soou estranho, mas hoje percebo o ponto. Liderar é também criar equipas que sabem mais do que nós, dar espaço a pessoas que pensam diferente e transformar conhecimento individual em capacidade coletiva.
Hoje, penso mais em foco, eficiência e impacto. Não para fazer menos, mas para fazer melhor. Aprendi que liderar também é saber delegar, criar sucessão e permitir que outras pessoas ocupem espaço, cresçam e aprendam.
Vejo Finance em tecnologia como uma ponte: entre dados e decisão, crescimento e sustentabilidade, automação e julgamento humano, ambição e execução.
Às mulheres que trabalham em áreas operacionais, digo: não fiquem à porta da conversa. Entrem. Perguntem. Questionem. Tragam contexto.
Não precisam de falar “tecnologês” para pertencer. Precisam de ajudar o negócio a ver aquilo que os números, sozinhos, não contam.
Porque a tecnologia não se constrói apenas com código. Também se constrói com coragem, estrutura e pessoas capazes de transformar crescimento em futuro.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.