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Sem tendas e sem pernoitar, milhares voltaram à Praça D. João I e exigiram intervenção de Seguro

Assembleia Popular no Porto condenou a violência da PSP, aderiu a uma nova manifestação no dia 27 de outubro e optou por não voltar a acampar por falta de condições de segurança.

Martim Andrade
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O grande momento das acampadas é sempre a Assembleia Popular. E no rescaldo de uma noite onde mais de 30 pessoas ficaram feridas e quase uma dezena acabou detida e mantida sob custódia policial até às primeiras horas da manhã, os ânimos estavam especialmente altos. Marcada para as 19h, acabou por começar pouco mais de uma hora depois, perdida entre cantos em coro e um convívio generalizado. Na verdade, a organização estava à espera da chegada de um conjunto de manifestantes que passou a noite na esquadra da PSP no Heroísmo.

O primeiro tema na ordem do dia foi condenar a intervenção policial, que muitos descreveram como sendo um exemplo do “fim do Estado de Direito” em Portugal. Segundo Maria João Calisto, que tem passado os últimos dias nesta praça portuense, tratou-se de um momento “inarrável” e “indescritível”. Em declarações ao Observador, conta que viveu, na noite de sábado, um “massacre”. “As pessoas estavam cercadas, estávamos pacíficos e pacíficas, em ordem”, recorda, referindo que estes eventos acabam por ser “fait divers”, que desviam o foco do tema da habitação.

“O tipo de intervenção que tivemos, para além de inconstitucional, foi absolutamente desproporcional, tendo em conta o número de manifestantes pacíficos que aqui estávamos. Tudo em silêncio. Felizmente, temos a comunicação social que tem passado imagens, quer daqui, quer de Lisboa, daquilo que aconteceu e eu acho que é clara e evidente a desproporcionalidade”, reforça a manifestante. Mas se centenas sentiram o medo de serem “literalmente encostados a uma parede”, como descreveu uma das porta-vozes do movimento à imprensa no local, milhares decidiram sair à rua para condenar essa ação.

Em poucas horas, uma praça que contava apenas com um par de colunas e uma dúzia de manifestantes a passar música para entreter os skaters que por ali passam, transformou-se num espaço praticamente sem margem para caminhar. Montaram-se as instalações da cozinha popular que ficara desfeita após a investida da PSP, já que todo o material de campismo também acabara por ser levado. Formaram-se filas para a comida gratuita, passaram-se panfletos com um design distinto dos do dia anterior para partilhar as reivindicações do coletivo e ainda se dançou.

“Pedimos a intervenção imediata do Presidente”

Quando ainda não se sabia o que iria sair das votações, Catarina dos Santos, uma das porta-vozes da Acampada pela Habitação do Porto, prometeu que iriam continuar naquela praça “até as suas reivindicações serem ouvidas”. Em declarações à imprensa, invocando novamente o episódio de violência que se registou durante a madrugada, a manifestante pediu “veementemente” que António José Seguro se pronuncie sobre o que aconteceu.

“Pedimos a intervenção imediata do Presidente”, reforçou Catarina, considerando ainda “gritante” o silêncio de Luís Montenegro, que deixou de comunicar a sua agenda publicamente desde o início dos protestos. A porta-voz lançou ainda o apelo ao Presidente da República e ao respetivo Conselho de Estado, para que se avalie se “o Governo continua a ter condições de governabilidade”. “O Governo governa apenas para a sua bolha”, atirou a manifestante.

A Assembleia Popular começou poucos instantes após as palavras da porta-voz aos jornalistas. Diante de uma praça com milhares de pessoas sentadas em torno da mesa instalada no seu centro, a sessão começou com um minuto de silêncio em honra das pessoas que ficaram feridas e foram detidas na sequência da operação policial. Com os punhos no ar durante 60 segundos, os manifestantes quebraram a ausência de ruído com uma estonteante salva de palmas.

Nos primeiros minutos, foi aprovado o voto de condenação pelo incidente na véspera, fizeram um pedido ao Presidente da República e formalizaram a adesão da Acampada à manifestação organizada pelo Movimento Casa para Viver, prevista para esta terça-feira, dia 27 de outubro, que deverá começar às 18h30 na estação de metro da Trindade.

Cessadas as votações, deixando no ar se iriam ou não pernoitar mais uma vez na Praça D. João I, dezenas de manifestantes assumiram o microfone para partilhar as suas experiências da noite anterior. Todos, sem exceção, recordam um “abuso” das “forças policiais”, apontando para um “excesso” de meios destacados, com um especial enfoque nos cães que ficaram a olhar para os que dormiam em tendas durante várias horas.

Também aproveitaram a oportunidade para destacar os seis pontos que constam na lista de reivindicações e, ao mesmo tempo, criticar a governação, de uma forma geral. Nestas últimas, repetem-se sempre cânticos de “Demissão” direcionados ora a Pedro Duarte, ora a Luís Montenegro. Sobre o primeiro-ministro, soube-se ao microfone que a PSP tinha identificado e constituído como arguido o manifestante que terá incentivado um hipotético ataque à residência do líder do PSD, na sequência da primeira investida policial das manifestações no Porto.

A notícia foi recebida com desagrado e indignação pelos restantes manifestantes. Catarina dos Santos chega a dizer que é “anedótico” Luís Montenegro sentir algum tipo de insegurança. Segundo o relato da porta-voz, o jovem foi intercetado pela polícia enquanto se deslocava ao Instituto Superior de Engenharia do Porto, para votar nas eleições presidenciais do Brasil. De Paranhos, foi transportado para a Divisão de Investigação Criminal da PSP naquela cidade, onde foi interrogado e constituído arguido. À Lusa, fonte policial adiantou que está em causa o crime de instigação pública a um crime.

Ao fim de mais de uma hora de partilha que viu lágrimas, risos e cânticos de união, com um pano de fundo de imagens repetidas do 25 de abril, a Assembleia Popular terminou com várias questões ainda em cima da mesa. Na verdade, a mais importante acabou mesmo por nem ir a votos. Na noite anterior, todo o material de campismo foi levado pelas autoridades e pela higiene urbana do Porto.

Por esse motivo, e com a memória do que os manifestantes viveram nem 24 horas antes naquele mesmo local, a mesa da Assembleia Popular decidiu não introduzir a discussão sobre uma nova pernoita na Praça D. João I. Ao Observador, Pedro Manuel, um porta-voz da organização, disse que não estavam reunidas as condições de segurança para voltar a dormir ao relento. Não obstante, garantiu que a mobilização na praça irá continuar todos os dias.