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A habitação que não quisemos

Com a crise financeira apertámos no sector na construção civil. Perderam-se empresas e empregos. Perdeu-se conhecimento e interesse. A crise não surgiu do nada, mas de escolhas que foram feitas.

André Abrantes Amaral
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A ideia de que antes era fácil comprar casa é um mito. Para a geração a que pertenço (não aprecio o egocentrismo do ‘a minha geração’, pois que não é minha, mas sou eu que sou dela) comprar casa exigia um empréstimo bancário que nos ficava com uma boa parte do ordenado. Para pagar as prestações da minha primeira casa, um T1, durante cerca de dois anos não me sobrou mais que o necessário para as contas da casa e a compra de comida no supermercado. Não me queixo. Era vida, foi a vida. Tinha 25 anos. Agora olho para trás e orgulho-me desse tempo em que ganhei, a custo, a minha independência que nunca mais perdi.

O que não significa que a situação não tenha piorado. Piorou. Comprar casa hoje é mais difícil que na altura. Mesmo um T1. Salientar as dificuldades de antes não desvaloriza as de agora. Alerta apenas para que a realidade não é a preto e branco. Que antes era fantástico e agora é péssimo. Não era, mesmo que agora seja pior.

As causas para a crise da habitação são muitas, mas cingem-se essencialmente a duas que, por serem difíceis de aceitarmos evitamos confrotá-las. São estas, em primeiro lugar, o grande aumento da população residente à custa da imigração. De acordo com o INE, em 2015 a população residente em Portugal era de 10 milhões e trezentos e quarenta mil pessoas. Em finais de 2025 cifrava-se nos 11 milhões e quatrocentos mil habitantes. Um aumento de um milhão e quase cem mil pessoas em dez anos. Mais: se olharmos com mais atenção para os números vemos que esse aumento se concentrou entre 2022 e 2025. Só nesses quatro anos passaram a residir em Portugal cerca de mais novecentas mil pessoas. Como estas não nasceram nesse período, mas foram adultos que entraram no país, o embate na procura de casa foi óbvio e natural. Com mais procura os preços subiram. Como foram muitos à procura ao mesmo tempo os preços subiram ainda mais.

Dir-me-ão: mas os preços das casas começaram a subir em 2016, muito antes de 2022 com a imigração em massa. É verdade. E esta é a segunda razão, aquela que mais queremos esquecer. Deriva da crise financeira e da regulação bancária que daí resultou. Fruto do susto que apanhámos em 2010 e 2011, e das más práticas dos bancos na primeira década do século, foi decidido apertar nos empréstimos bancários para a construção e para a compra de casas para habitação. Emprestar dinheiro deixou de ser tão fácil. Ora, a quem é que os bancos emprestavam dinheiro? Às pessoas como eu para comprarem casa e aos empreiteiros para as construírem. Estamos a falar de um país sem capital e que vive de crédito. O resultado foi a necessidade de reduzir o risco. Daí que enquanto antes se emprestava para construção em massa, agora empresta-se para projectos de reabilitação urbana que, naturalmente, é mais cara e traz menos casas para o mercado. São projectos imobiliários mais pequenos e de menor risco para os envolvidos. O resultado foi o mais natural. Sem dinheiro, muitos foram os empreiteiros que deixaram de construir. Ao deixarem de construir, outros tantos deixaram a profissão e fecharam as empresas. Só em 2015 antecipava-se que cerca de 37 mil empresas de construção civil tinham fechado portas. Ficaram as gigantes e as que trabalham para projectos pequenos de alta rentabilidade. As restantes desapareceram e os seus empregados perderam o trabalho. Com o tempo, tanto empregadores como empregados começaram a trabalhar noutras áreas. Alguns foram para a restauração, outros emigraram. Primeiro perderam o trabalho. Depois o conhecimento. Mais tarde, o interesse. A falta de mão-de-obra qualificada na construção civil é um facto do conhecimento de todos.

Foi por esta razão que se deixou de construir em quantidade suficiente para as necessidades do país. E é por esta razão que voltar a construir não é fácil e leva tempo. Apesar de tudo há sinais positivos. Aos poucos estão a surgir novas empresas de construção civil e o número de empregados no sector também tem aumentado. Os salários seguem os mesmo percurso, o que não deixa de ser importante. Se a recuperação do sector será suficiente é outra questão. O mais certo é que vamos levar alguns anos para resolver o problema da falta de habitação em Portugal.

Independentemente do que vier a acontecer no futuro há uma lição a tirar do passado: as políticas públicas têm custos. Há 15 anos foi importante apertar na regulação bancária porque a desregulamentação excessiva deu no que deu. Como resultado deu-se cabo do sector que construía casas. Por acaso um sector que a generalidade do país desprezava. A falta de equilíbrio nas políticas públicas, o ir com a maré do momento tem consequências. Por vezes nem há outro remédio, mas isso não anula os resultados negativos a longo prazo. Na maioria das vezes estes chegam uns anos mais tarde e apanham toda a gente de surpresa, razão pela qual se começa a exigir receitas imediatas de sentido contrário que pecam novamente pelo excesso. Mas não tem de ser assim. É possível tentar perceber o que se passou para que seja possível resolver o problema sem que se crie outro de dimensões igualmente trágicas.

Mas as pessoas têm pressa. Certo. Mas também é para isso que existem políticos numa democracia. Para tomarem as medidas mais adequadas e saberem gerir a situação com os eleitores. Ninguém disse que era fácil. Não é fácil comprar casa e não é fácil ser governante ou político num momento como estes. Mas isso não justifica que se cometam mais erros. Exige, isso sim, mais coragem política. Para fazer o que é mais adequado e explicá-lo aos eleitores convencendo-os do caminho a seguir.