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A mentalidade revolucionária e nós

A questão que se coloca, hoje, não é se a mentalidade revolucionária ainda está viva, mas se a sociedade das liberdades está disponível para derrotá-la.

Miguel Morgado
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A exaustão espiritual da Europa é patente em todos os aspectos da vida social do nosso tempo. Para alguns, o indiferentismo generalizado e convertido em regra de vida é tomado por triunfo da liberdade. Mas não é.

Os alicerces e as instituições da sociedade assente nas liberdades individuais, na prosperidade económica e na coesão cívica depende de uma dose regular de investimento imaterial. Depende da aceitação e adesão da grande maioria da população aos “valores” e bens que estão na base de toda essa infraestrutura. Não se trata aqui de esforço intelectualizado, nem da aparição regular em comícios vociferando palavras de ordem. É outra coisa a que os franceses há muitos anos chamavam moeurs.

Os moeurs eram as crenças e os “valores” convertidos no quotidiano em comportamentos, gestos, reflexos, maneiras, em louvores e reprovações espontâneas. No fundo, a democracia liberal, representativa e constitucional tem os seus próprios moeurs. Sem os seus próprios moeurs, a democracia morre.

Contudo, a situação em França, que sinaliza o que está a acontecer de modo mais ou menos latente por toda a esfera ocidental do continente, incluindo em Portugal, mostra que essa exaustão está a atingir um ponto muito perigoso. Esperemos que não seja irreversível.

O que hoje sucede a cada minuto em Portugal e nos seus vizinhos europeus é, nada mais, nada menos, do que um colapso ominoso da nossa consciência política colectiva. No domínio da discussão pública, abdicamos com surpreendente facilidade de normas estruturantes do regime das liberdades. Nas conversas que animam os estúdios das televisões, deixamos de proteger instituições vitais da sociedade democrática diante das investidas do delírio revolucionário. Como se não bastasse a indigência intelectual do que a vanguarda revolucionária em Lisboa, Madrid e Paris diz, as fórmulas usadas repetem sem escrúpulo, nem pudor os lemas de regimes assassinos que produziram uma das maiores tragédias que a Humanidade jamais conheceu.

Ver a facilidade com que jornalistas se impressionam e reproduzem a vulgata do leninismo ou do sacrifício dos valores e direitos mais elementares em nome da “revolução”, sem uma centelha sequer do brilho e da sofisticação de que os nossos antepassados apesar de tudo deram provas nas manifestações revolucionárias que produziram, é uma lição histórica importante. Fala-se na “morte do capitalismo”, na destruição da “ordem burguesa”, no “sionismo”, na aniquilação de bens privados e na ofensa à segurança pessoal, no apelo à violência e desordem generalizadas, com uma naturalidade que só se compreende porque o espaço comum e mediatizado onde essas palavras abrem caminho está vazio. Ou melhor, foi deixado vazio pela ignorância e pela indiferença.

O problema não é uma manifestação repetir a ladainha falida que, hoje, mais de 100 anos depois da revolução bolchevique, devia causar escândalo ou gargalhada. Onde as coisas indicam outros horizontes está na serenidade com que esses termos são aceites para a discussão sobre a “crise da habitação” ou, em França, sobre “as condições das escolas”. Está no modo como se relata jornalisticamente o mesmo modus operandi de sempre, testado até à saturação durante mais de 100 anos – de provocação e resposta violenta, de disseminação do rumor e marchas contínuas contra os “inimigos do povo” – ser situado sempre no campo da acção espontânea que encontra do outro lado governantes cruéis ou uma polícia selvagem.

É óbvio que a mitologia que abriga estas possibilidades confunde as consciências que se despolitizaram, perderam a noção do passado político europeu e responde apenas a estímulos emocionais gerados pelo complexo mediático. É o terreno estéril onde só podem vicejar as aberrações intelectuais e os radicalismos políticos. Nessa mitologia figuram as sombras da grande coligação “anti-fascista”, onde todos os adversários da extrema-esquerda são fascistas, onde todos os problemas decorrem do fascismo, e onde se acomodam os chamados “idiotas úteis” – expressão sempre tão acarinhada pelos patrões dos totalitarismos desde os anos 20 do século passado.

Também é aí que, perante uma população que deixou de reconhecer as verdades elementares de edificação de uma democracia liberal protegida por um Estado com autoridade, e que os seus pais reconheciam espontaneamente, aparecem as falsas extensões dos princípios democráticos para os postulados mais radicais. Todas as promessas, todos os dispositivos, aparecem a estes olhos fechados como simples extensões da democracia que todos acarinham: a ocupação das ruas, as decisões por “assembleias populares” dos amigos, a exigência de “soluções” baseadas na ofensa aos “inimigos do povo”. As condições elementares da democracia aparecem, em contrapartida, como agências de opressão: a ordem pública, a superioridade da representação política, a regência da lei, a discussão racional dos méritos relativos de propostas que têm de ser tecnicamente testadas, a intolerância à violência como método.

Pouco antes de morrer, em plena euforia liberal após a implosão da União Soviética, François Furet avisava que a ilusão revolucionária – destrutiva, criminosa, milenarista – não tinha morrido definitivamente. É certo que não apareceria no futuro com a mesma forma da acção totalitária que dominara o século XX. Mas, no seu movimento essencial, acabaria por regressar. A questão que se coloca, hoje, não é se a mentalidade revolucionária ainda está viva, mas se a sociedade das liberdades está disponível para derrotá-la.