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(A) :: Clima e Habitação: o mesmo padrão!

Clima e Habitação: o mesmo padrão!

O foco não é resolver o acesso à habitação ou reduzir emissões. O objetivo é derrubar o modelo de sociedade ocidental.

João Adrião
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“Também poderia [o Estado] imprimir notas para todos”

(Declarações de uma manifestante em Madrid, há uns dias)

As crises da habitação e do clima são os novos palcos de uma velha coreografia de ideologia bem conhecida. À falta de votos, a esquerda radical e estatista encontrou nestas duas áreas o pretexto ideal para reativar o seu combate fundamental: o derrube do capitalismo e a expansão do controlo do Estado sobre a vida dos cidadãos.

Com efeito, sob o manto da urgência e da inevitabilidade, desenha-se uma narrativa em que a complexidade do mundo real é reduzida a um combate dos bons contra os maus, ignorando os mais básicos conceitos de economia, ciência e da própria democracia, até porque não é difícil encontrar nos manifestantes de rua a ignorância da citação do início deste texto – foi uma manifestante em Madrid, mas podia ter sido um dos do Rossio ou de Paris.

Mas já lá vamos, que isto começa com… o alarmismo. Na habitação, propaga-se a ideia de que nunca foi tão difícil ter casa, apagando da memória histórica as profundas carências habitacionais de décadas passadas, enquanto no clima, de forma semelhante, qualquer chuvada, nevão ou seca é um fenómeno apocalíptico nunca antes visto. O objetivo? Cultivar um estado de pânico que justifique a suspensão das liberdades em nome de uma pretensa salvação coletiva.

O passo seguinte consiste em apontar o dedo aos bodes expiatórios do costume. Na habitação, a culpa é dos “fundos abutres” e da especulação imobiliária, os equivalentes das grandes petrolíferas quanto ao clima. Um propósito populista evidente: fingir que os problemas estruturais decorrem apenas da ganância de meia dúzia. Com isso, desviam convenientemente a atenção das falhas do próprio Estado, desde a burocracia asfixiante e lentidão nos licenciamentos até à incapacidade crónica de gerir os serviços públicos.

Esta cegueira ideológica culmina na rejeição das soluções que o mercado pode oferecer. Ao negarem a lei da procura e da oferta na habitação, tratando-a como se estivesse imune às regras económicas, os estatistas provocam o colapso do investimento. Da mesma forma, no ambiente, recusam aceitar que a chave é a inovação e que esta nasce da competição e do dinamismo privado. Nada disso, eles querem é planeamento centralizado: subsidiar de um lado, taxar ferozmente do outro, gerando uma desindustrialização galopante e custos económicos brutais. Depois não percebemos por que razão a Europa, que na viragem do século queria ser numa década a economia mais competitiva do mundo está antes a atrasar-se, a perder relevância para os EUA e para a China e com protestos por mais Estado Social numa altura em que nem o que já tem sabe como irá suportar…

Mas também não é novidade que a esquerda se recusa a encarar os impactos reais e práticos das suas opções. Na habitação, nega-se de forma sistemática o impacto óbvio que a entrada de imigrantes e consequente aumento de mais de 10% da população nacional, teve na pressão sobre a procura. No ambiente, ignoram-se as contradições das energias renováveis ou o que seria o impacto devastador do fim abrupto dos combustíveis fósseis nas populações mais vulneráveis. Pensar no idoso isolado no interior profundo, cuja subsistência depende da carrinha do pão ou que fica sem transportes públicos à noite para ir ao hospital, é ignorado por quem acha que só falta vontade, porque com ela a transição se fazia num estalar de dedos.

O resultado destas políticas é invariavelmente o oposto do prometido, uma emenda pior que o soneto. Ao exigir o teto às rendas ou a proibição de despejos, a esquerda destrói a confiança dos proprietários e retira milhares de casas do mercado de arrendamento, prejudicando exatamente quem diz defender. No ambiente, por exemplo, a obsessão por banir a pecuária tradicional e impor o vegetarianismo ignora o papel vital do gado na preservação da biodiversidade, na fertilidade dos solos ou na prevenção de incêndios. Ignoram, de resto, que a dieta vegetariana tem a sua própria pegada ecológica: é multiplicar as estufas e imigrantes de Odemira para ter uma ideia…

Chato é o fracasso das suas ideias nas urnas, uma vez que os partidos que defendem estes delírios não conseguem convencer sequer 10% do eleitorado. Resta assim a esta minoria o recurso à disrupção e à coação do espaço público. Uns dias fazem acampadas e exigem respostas radicais para desmobilizar; noutros, atiram tinta verde a políticos e cortam estradas. Ou seja, pequenos grupos radicalizados a tentar impor a sua agenda à esmagadora maioria dos cidadãos através do ruído, do bloqueio e do vandalismo, contornando o debate parlamentar e a vontade expressa nas eleições. Que se lixe a legitimidade democrática, pensam eles, embora por vezes o façam de forma assumida (não faltam declarações nacionais e internacionais de ativistas e políticos a dizer que a causa X ou Y é mais importante), e talvez alguns jornalistas, como nos apercebemos ao ver um pouco de televisão – aliás, não houvesse lá televisão e já estaríamos noutra qualquer crise.

A prova de que estas causas são meramente instrumentais? A manta de retalhos identitária que se vê nestas manifestações. Ver bandeiras da Palestina ou LGBT misturadas nos protestos da habitação (ou do clima) denuncia a verdadeira matriz da mobilização. O foco não é resolver o acesso à habitação ou reduzir emissões. O objetivo é derrubar o modelo de sociedade ocidental. Para estas franjas políticas, que revelando a sua natureza autoritária se tentam impor à maioria a partir das ruas, o importante é destruir o sistema que mais prosperidade e qualidade de vida trouxe à humanidade.

Mais controlos estatais ou regressão económica (decrescimento, dizem eles) não são solução para nada. Senão era simples: esbanjávamos até mais não, voltava a Troika e tudo se resolvia por magia. Mas não se resolvendo, é bom para quem vive do conflito social (basta ver os deputados que tinham face aos que têm agora). Enfim, uma esquerda que vive da máxima do “quanto pior, melhor”.