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Um Flávio mais contido e um Lula mais ao ataque. O debate em que se tentou convencer os indecisos no Brasil

Flávio quis mostrar imagem de moderado e afirmar-se como presidenciável. Lula usou um discurso mais duro e insinuou que adversário é perigo para a democracia. Candidatos quiseram convencer indecisos.

José Carlos Duarte
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“Não adianta dar com uma mão e tirar com os nove dedos.” Esta foi uma das frases mais marcantes do debate desta sexta-feira na TV Globo entre os candidatos à presidência brasileira — que acontece a apenas 48 horas da segunda volta das eleições presidenciais. Flávio Bolsonaro atacou o adversário sobre as políticas económicas, aludindo à falta do seu dedo mindinho da mão de esquerda. O tema incomodou particularmente Lula da Silva, que exigiu um pedido de desculpas do rival. E recebeu uma resposta cordial: “Se eu ofendi, eu peço desculpa”.

Foi um dos poucos ataques pessoais de Flávio Bolsonaro neste debate. De fato e gravata, o candidato do Partido Liberal (PL) evitou usar expressões depreciativas do adversário, como fez no passado. Não se ouviram insultos como “ladrão” ou “ex-presidiário”. Uma rutura total com o estilo do pai, Jair, que usava um tom bastante duro. Em vez disso, o senador do PL optou por um tom menos combativo e mais focado em mostrar-se como uma opção viável para a alternância política.

Já Lula da Silva não deixou de atacar o adversário. Desvalorizou-o — chamou-lhe várias vezes “rapaz” por ter 45 anos e por “nunca ter trabalhado na vida” — e designou-o por várias vezes de “miliciano”. Embora adotando um estilo mais duro do que o rival, o Presidente brasileiro parecia saber onde aplicar os golpes. Trazendo a debate várias vezes o legado de Jair Bolsonaro, o chefe de Estado tentou colar o filho às polémicas do pai, assim como tentou recordar as controvérsias da carreira política de Flávio Bolsonaro.

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Sendo várias vezes associado às polémicas do pai, Flávio Bolsonaro quis cativar, neste debate, o eleitorado do centro e mais moderado: aquele que não é fiel a Lula da Silva e que ainda está indeciso. A 48 horas das eleições, numa altura em que as sondagens preveem um empate técnico, o candidato do PL inspirou-se na estratégia do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que venceu as eleições à primeira volta: mostrar-se duro e à direita (abordando tópicos como a segurança ou a economia), mas sem cair em extremos para não assustar os possíveis eleitores.

Para Lula da Silva, o desafio é outro. Havendo um certo cansaço associado à sua imagem, o chefe de Estado quer cativar aqueles que não votaram na primeira volta a irem às urnas e a dar-lhe, desta maneira, a vitória na segunda. Usando a mesma receita que em 2022, o Presidente brasileiro alertou para os perigos que significaria ter um “miliciano” no poder, bipolarizando o discurso: “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando esse país no Palácio do Planalto”.

Flávio manteve discurso à direita, mas não atacou (tanto) o adversário

O pai tem um estilo bastante explosivo. Para os apoiantes, é genuíno; para os críticos, é irrefletido. Embora não seja o nome dele que esteja no boletim de voto, o filho herdou o legado da presidência de Jair Bolsonaro, assim como todas as suas polémicas. Durante este debate, Lula da Silva voltou a recordar as mortes causadas pela pandemia de Covid-19, um dos tópicos que mais críticas motivou no mandato do antigo Presidente: “Se não fosse a gestão do seu pai, poderíamos ter tido metade das mortes que tivemos”.

Flávio Bolsonaro entende que a gestão da pandemia, assim como todas as polémicas em que se envolveu o pai durante o seu mandato, levaram Jair Bolsonaro a perder as eleições em 2022. Assim sendo, o candidato do PL ensaiou um esforço de moderação, algo que ficou totalmente visível neste debate a apenas dois dias das eleições. Raramente se exaltou, não chamou “ladrão” ao adversário, evitou hostilizá-lo e até lhe pediu desculpa. Tentou adotar uma postura presidencial. A falar sobre o Nordeste — uma região que é um bastião de Lula da Silva —, disse que até estaria disponível para falar com os governadores de “outros partidos” que não o seu.

O objetivo do candidato do PL é garantir a transferência de votos da terceira via da primeira volta — principalmente os dos candidatos Augusto Cury e Ronaldo Caiado (que já declararam o seu apoio a Flávio Bolsonaro). Mesmo que não tenham chegado aos 3% de votos cada um, foram os votos de quem não gosta nem dele, nem de Lula da Silva. É a estes eleitores que o senador quer chegar: aquelas pessoas que não gostam do petista, mas que também têm reservas em relação a si.

Neste debate, Flávio Bolsonaro tentou mostrar-se como alguém contido, moderado e com espírito colaborativo. O objetivo passa por capitalizar o desgaste associado à imagem de Lula da Silva e mostrar que o ainda senador tem competências mais do que suficientes para ser Presidente. Quando foi acusado pelo rival de ser um “rapaz”, o candidato elencou os cursos que tirou, recordando que já é político desde os 21 anos.

Ainda assim, apesar do verniz mais moderado, optou por debater assuntos mais à direita durante o debate: num dos poucos momentos em que se exaltou, defendeu o agravamento das penas para quem comete crimes — principalmente para aqueles que foram condenados por “violação”. Falou ainda sobre empreendedorismo e recordou a importância dos grandes negócios na área da agropecuária. A base eleitoral pode ter ficado desiludida com o discurso — mas esses já iam votar nele sim ou sim.

Quanto à capacidade de convencer os indecisos, ainda não é claro se o terá conseguido. Lula da Silva trouxe alguns fantasmas do passado de Flávio Bolsonaro, como uma alegada festa de barco que aconteceu durante a pandemia. Lembrou também a sua homenagem a milicianos. E trouxe a mãe de uma criança assassinada por um polícia para a plateia do debate da TV Globo. Assuntos que contribuem para desmontar a sua possível moderação e revelar que o candidato, afinal, é tão radical como o pai.

Na defensiva, Flávio Bolsonaro não deu muitas vezes uma resposta eficaz perante a pressão de Lula da Silva, não respondendo cabalmente a algumas acusações. Tentou defender-se das homenagens às milícias. A estratégia do candidato foi outra: recordar as polémicas de Lula da Silva. Embora o estilo tenha sido bem mais contido, o senador do PL lembrou várias controvérsias do chefe de Estado, em particular uma suposta oferenda de um uísque de “meio milhão de reais” de Daniel Vorcaro — o alegado cabecilha do caso Master — a Lula da Silva.

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Lula recordou polémicas e foi mais incisivo

Lula da Silva chegou a este debate em desvantagem. Mesmo que as sondagens mais recentes sejam animadoras — terá recuperado vantagem face a Flávio Bolsonaro —, o Presidente tem de conseguir colmatar a diferença de dois milhões de votos que o rival obteve a mais na primeira volta. Os candidatos da terceira via da primeira volta? Quase nenhum lhe declarou apoio. Por isso, a estratégia é outra: convencer quem não foi votar no dia 4 de outubro, que foram cerca de vinte milhões de brasileiros.

Daí que, neste debate, Lula da Silva tenha tentado denunciar as polémicas de Flávio Bolsonaro. O voto em si é a única forma de “não colocar um miliciano no poder”. O discurso foi bastante menos contido do que o do adversário: não houve pedidos de desculpas, nem a simulação de uma postura mais polida. É preciso tirar pessoas de casa no domingo para irem votar — e não é com palavras simpáticas que o chefe de Estado acredita que esse objetivo será concretizado.

Além disso, a postura de ataque de Lula da Silva é também uma forma de cativar o eleitorado de centro. Pintando o rival como um “miliciano” e como alguém que defende o uso da violência estatal — além de o ter acusado de querer fazer cortes nos serviços sociais —, o Presidente brasileiro quis alertar o eleitorado centrista e indeciso de que, afinal, Flávio Bolsonaro está muito longe dessa posição ideológica.

Noutra estratégia que já vem da primeira volta, Lula da Silva procurou sublinhar a sua experiência no cargo e o seu legado. “Retirei o Brasil do mapa da fome”, reiterou, lembrando que os seus Governos foram aqueles que “ajudaram os mais pobres”. Tentando mobilizar alguns abstencionistas, o chefe de Estado fez questão de recordar os seus sucessos, como o programa de apoios aos mais desfavorecidos, um dos quais o Bolsa Família, avisando que podiam estar em risco se o adversário chegar ao poder.

Por sua vez, Flávio Bolsonaro acenou com a mudança política e perguntou diretamente aos brasileiros se “tinham dinheiro quando chegou o final do mês”, culpando Lula da Silva pelo aumento do custo de vida. O Presidente brasileiro tentou defender-se destas acusações, evocando novamente o passado: “A economia não crescia acima de 3% desde que eu deixei a presidência em 2010. Agora, ela voltou a crescer”.

Lula da Silva também foi confrontado com algumas das suas polémicas, em particular do seu filho, “Lulinha”, que está a ser investigado por tráfico de influências e corrupção. O primogénio do chefe de Estado está a viver num “bairro de luxo” em Espanha, tal como o jogador de futebol Vini Jr., e Flávio Bolsonaro questionou: “O que está a sustentar o Lulinha?” O candidato questionou ainda os alegados gastos excessivos da presidência com viagens oficiais. Tal como o adversário, o líder brasileiro nem sempre respondia diretamente, preferindo colocar o foco nas polémicas do senador.

No final do debate, ainda não ficou claro se os dois candidatos vão conseguir chegar aos dois públicos que desejam: os que votaram noutros candidatos na primeira volta e os abstencionistas. Num debate menos crispado do que no domingo passado, tentaram demonstrar os seus pontos fortes: Flávio, o rosto da alternância política e uma suposta moderação face ao pai; Lula, o seu legado e o papel que se auto-atribui de defensor da democracia. Mas, num país polarizado e em campanha há mais de um mês, estas táticas correm o risco de ter um impacto pouco significativo.