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(A) :: O mistério da dor no hat-trick da anestesiologia

O mistério da dor no hat-trick da anestesiologia

É sobretudo aos médicos anestesistas que devemos o incomensurável benefício de uma intervenção sem dor!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Segundo a gíria futebolística, a habilidade de um desportista marcar três golos no mesmo jogo tem um nome próprio: hat-trick. Pois bem, em Viseu, no passado dia 16, Dia Mundial da Anestesia, deu-se um hat-trick médico: festejaram-se, em simultâneo, os 180 anos da Anestesiologia moderna, os 55 anos da Anestesiologia em Viseu e os 30 anos da respectiva Unidade da Dor Crónica! A cerimónia, que ocorreu no Solar do Vinho do Dão, na presença do Presidente da Câmara de Viseu, Dr. João Azevedo, foi magistralmente organizada pelo Serviço de Anestesiologia de Viseu, na pessoa da sua Directora, Dr.ª Alexandra Guedes.  Contou também com a presença da Dr.ª Fátima Lima, Presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, do Dr. António Marques, Presidente do Colégio da Especialidade de Anestesiologia da Ordem dos Médicos, e de uma centena de profissionais da saúde.

A excelente moderação correu a cargo do Dr. Vítor Pinho Oliveira, que organizou a sessão comemorativa em quatro módulos: ‘A anestesia como ponto de viragem civilizacional’; ‘O olhar do Direito: consentimento, autonomia e confiança’; ‘O olhar da Teologia e da Filosofia: dor, corpo e sentido’; e ‘Actualidade: a anestesiologia invisível’. Se o primeiro e último blocos foram assegurados, como era de esperar, por médicos desta especialidade clínica, o segundo foi desenvolvido pela Dr.ª Eugénia Galvão Teles, jurista e colunista do Expresso, que brindou a assistência com uma excelente exposição. Coube ao autor deste texto, na sua qualidade de sacerdote católico e também cronista de um jornal de referência, expor o terceiro tema.

O tópico a explanar neste penúltimo módulo era, decerto, desafiante: “Se as grandes tradições filosóficas e espirituais atribuíram ao sofrimento um papel de provação, purificação ou busca de sentido (como sugeria Viktor Frankl), será que a obsessão contemporânea por erradicar a dor a qualquer custo nos torna mais confortáveis fisicamente, mas existencialmente mais frágeis perante a adversidade?”. Filosofia e Teologia intersectam-se no que respeita ao sentido da dor humana e, por isso, pretendia-se não apenas uma abordagem antropológica, mas também teológica, à questão do sofrimento humano.

A este propósito, foram referidas algumas notas que interessam não só aos médicos, mas a todas as pessoas, porque o sofrimento, próprio ou alheio, é um mistério que interpela o ser humano e o obriga a questionar a razão da sua existência.

Não é por acaso que o Cristianismo é a mais humanista de todas as religiões: ao afirmar que Deus encarnou, ou seja, se fez homem (Jo 1, 14), confere ao ser humano uma dignidade quase divina. Por outro lado, a religião cristã dá uma especial importância ao Corpo de Cristo, gerado em Maria (Mt 1, 18), morto na Cruz (Jo 19, 30), ressuscitado ao terceiro dia (Mc 16, 9-14) e presente, real e verdadeiramente, na Eucaristia (1Cor 11, 23-32).

Segundo a eclesiologia paulina, a Igreja é imagem e semelhança desse Corpo: do mesmo modo como o organismo humano é uma unidade composta por uma multiplicidade de órgãos, assim também a Igreja congrega, na unidade da fé e da vida do Espírito, uma multiplicidade de vocações e carismas (1Cor 12, 1-30). Jesus Cristo não apenas partilha com todos os homens e mulheres a comum natureza, como também com eles se identifica, de tal modo que, em termos morais, o bem e o mal praticados a qualquer pessoa são, em última análise, um benefício ou um agravo a Cristo e, nele, a Deus (Mt 25, 31-46).

Neste sentido, o episódio do bom samaritano – por sinal, a mais anticlerical das parábolas de Jesus! – estabelece o paradigma da moral cristã (Lc 10, 30-37). É significativo que a personagem que é proposta, como exemplo a imitar, não só não pertence ao povo eleito, como até fazia parte de uma etnia que nutria pelos judeus uma especial antipatia (cf Jo 4, 9). Cristo sofreu as consequências dessa inimizade quando, ao atravessar a Samaria, lhe foi recusada hospedagem, ao ponto de dois dos seus discípulos sugerirem uma vingança exemplar (Lc 9, 51-56). Apesar dessa incompatibilidade étnica, o samaritano é elogiado porque o serviço ao outro não decorre de uma afinidade social, ou religiosa, nem sequer do mérito ou virtude, mas apenas da condição humana, que o irmana com todos os homens e o assemelha a Cristo. A caridade cristã há-de ser universal, sem distinguir bons e maus. Todas as pessoas, qualquer que seja a sua etnia ou virtude, carecem dos mesmos cuidados, que hão-de ser também físicos e espirituais: a caridade não tem apenas por objecto todos os homens, mas também o homem todo.

Nunca será demais sublinhar a importância de que o Serviço Nacional de Saúde pratique este acolhimento universal, sem injustas discriminações. Mas também de que as entidades clínicas estejam abertas à livre cooperação das instituições religiosas, católicas ou não, quando requeridas pelos fiéis que desejam receber, no doloroso transe da sua enfermidade, os auxílios espirituais a que têm direito e que tanto contribuem para o seu bem. Não foi, decerto, por engano, nem por acaso, que Jesus de Nazaré primeiro absolveu os pecados do paralítico e, só depois, curou a sua deficiência (Mc 2, 1-12).

Talvez o anestesista seja o mais invisível dos bons samaritanos, porque, depois da intervenção, todos os louros pelo êxito da operação revertem para o cirurgião e para a sua equipa: não é irrelevante que, na parábola evangélica, o bom samaritano, apesar de ser o protagonista, depois desaparece, mas não sem antes confiar o moribundo ao estalajadeiro, a quem promete pagar o que este gastar pelo bem-estar daquele hóspede (Lc 10, 35). Nos anestesistas se cumpre, exemplarmente, o preceito evangélico que obriga a fazer o bem sem reclamar retribuição, ou reconhecimento (Mt 6, 1-4), mas é sobretudo a estes médicos que devemos o incomensurável benefício de uma intervenção sem dor! Antes de 16-10-1846 – a data que assinala a prática, com êxito, da primeira anestesia pública, com éter, em Boston e, portanto, o nascimento da Anestesiologia moderna – a qualidade do cirurgião media-se pela rapidez da sua actuação, tal o incrível sofrimento que a mesma implicava para o doente! Hoje, graças aos anestesistas, até uma operação demorada é suportada sem dor, o que representa um extraordinário avanço no que respeita à qualidade de vida dos enfermos submetidos a intervenções cirúrgicas, ou tratamentos invasivos e dolorosos.

A anestesia não é apenas uma extraordinária conquista do passado, mas também, juntamente com os cuidados paliativos, uma grande aposta para o futuro. Ante o drama dos doentes terminais, ou dos que sofrem dores crónicas insuportáveis, alguns propõem a eliminação das suas vidas, o que não apenas infringe o quinto mandamento da Lei de Deus e o preceito constitucional que estabelece a inviolabilidade a vida humana (Art.º 24.º), como também contradiz o juramento hipocrático, a que livremente se obrigam os clínicos mais comprometidos com a grandeza da sua missão.

Se a morte é, para São Paulo, um bom combate, ao jeito de uma prova desportiva – “combati o bom combate, acabei a minha carreira” (2Tm 4, 7) – a sua intencional antecipação é equiparável à ignominiosa deserção do campo de batalha, ou à desonrosa desistência de uma prova desportiva. A resposta cristã a uma situação dolorosa não é a fuga, nem a alienação, mas a compreensão do valor redentor do sofrimento humano unido ao sacrifício de Cristo, e a coragem da aceitação da dor, sem descurar os meios que a aliviam, e que também Jesus, na Cruz, aceitou (Jo 19, 28-30). Para este efeito, são determinantes os cuidados paliativos e uma prática anestesiológica que respeite a dignidade da vida humana, desde a concepção e até à morte natural.