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(A) :: A forma portuguesa de se viver

A forma portuguesa de se viver

O postal turístico esconde um país de salários baixos e uma geração forçada a emigrar. O desabafo de um jovem que tenta sobreviver na tão aclamada "California da Europa".

Matias Santos
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Dizem que nasci no paraíso. Cresci a ouvir os políticos a venderem-nos como o “jardim à beira-mar plantado”, o refúgio seguro da Europa, a tal “Califórnia” com azeite e sardinhas. Mas hoje, a sair de mais um dia de trabalho enquanto preparo-me para ir à universidade, apenas vejo que é mais um mês em que chego a meio e tenho de ficar a contar tostões, pergunto-me em que dimensão paralela vivem aqueles que nos governam. Porque o Portugal que eles exportam nas brochuras não é o Portugal em que eu acordo todas as manhãs.

Não tenho necessariamente algo contra o casal Smith que vêm do Colorado aproveitar a brisa e culinária portuguesa, mas ouvir no comboio para Sintra “How cheap Portugal is”, enquanto que eu com 24 anos com formação e emprego, já devia estar a pensar em construir vida mas ao invés disso, a minha maior vitória mensal e de todos os portugueses é conseguir pagar por um buraco que a imobiliária apelidou de “estúdio acolhedor e minimalista”. É, na verdade, uma arrecadação glorificada onde se dorme tão colado à janela que sei de cor as discussões dos vizinhos. O equivalente ao meu salário, esfumado num quarto onde a luz do sol o tal sol de que tanto nos orgulhamos mal tem espaço para entrar e dar vida às minhas coitadas plantas

Dizem que, pelo menos, cá come-se bem. Claro que sim, se o teu apelido tiver “von” e vieres cá de férias. Mas para mim? A ida à tasca, aquele sagrado ritual de pedir um bitoque, falar do Benfica ou do Sporting e deitar abaixo uma mini, tornou-se um luxo inacessível. A minha cidade foi gentrificada ao ponto da caricatura. A tasca do Sr. Joaquim é agora um espaço de brunch com paredes de tijolo burro falso, onde uma tosta de abacate pálido e um ovo escalfado custam dezoito euros. Entre a inflação que devorou qualquer aumento de salário que o Estado tenha atirado para a mesa e os preços inflacionados para agradar às carteiras dos expats, a nossa gastronomia de luxo passou a ser nada mais que uma sandes mista do take away do Pingo Doce. Em casa, o chef do dia sou eu a tentar não queimar salsichas em lata.

E se a habitação e a alimentação são um insulto, o que dizer do suposto contrato social? Pagamos impostos ao nível da Escandinávia para recebermos em troca serviços públicos de terceiro mundo. Descontamos uma fatia pornográfica do nosso ordenado todos os meses para o Estado, mas se eu tiver o azar de ficar doente, a minha “qualidade de vida” traduz-se em catorze horas de espera no Santa Maria onde médicos e enfermeiros trabalham até à exaustão por tuta e meia. Ir de carro com estes preços de gota é impossível, estou como todos, dependente dos transportes públicos para poupar no combustível que é taxado até ao tutano, arrisco-me a ficar apeado porque o comboio foi suprimido pela milésima vez este ano, ou viajo esmagado num autocarro com a lotação de uma lata de sardinhas. Mas nos jornais, os ministros continuam a inaugurar rotundas e a anunciar comboios de alta velocidade para 2050, enquanto eu não consigo chegar a horas ao trabalho e às aulas em 2026.

Esta asfixia lenta tem consequências. A nossa verdadeira e mais trágica exportação não é a cortiça, nem o azeite, nem o vinho do Porto. São os meus amigos. É a minha geração. Todos os meses há um jantar de despedida. Todos os meses abraço alguém no aeroporto da Portela que parte para os Países Baixos, para a Alemanha ou para a Irlanda, à procura de um país onde trabalhar o mês inteiro signifique que consegue pagar as contas e ainda sobrar dinheiro para viver e não sobreviver. E os nossos políticos têm o descaramento de vir à televisão fazer apelos emocionados para que os jovens regressem enquanto os chamam de egoístas por se manifestarem. Regressar para quê? Para partilhar um quarto com beliches aos 40 anos e ser explorado com recibos verdes disfarçados?

No fim de contas, a verdadeira “forma portuguesa de viver” não é desfrutar deste postal ilustrado de braços cruzados. É a nossa resiliência cómica. É a nobre, cínica e ancestral arte do desenrascanço. É chegar ao dia 20 do mês a contar tostões, mas conseguir sentarmo-nos na esplanada, pedir uma bica que entretanto a cada mês custa mais 10 cêntimos, olhar para o rio e suspirar com a mais profunda das convicções: “Isto é que é vida”.

E o pior de tudo? É que, lá no fundo, acreditamos mesmo nisso.