“Homem com bandeira de Israel invade concentração no Rossio e é retirado pela PSP”, informou a imprescindível Agência Lusa.
Repare-se no uso do verbo “invadir”, a sugerir que o homem não pertencia à “concentração” e tentou integrá-la de modo abusivo e quiçá ilegal. A infracção cometida não passou por ostentar a bandeira de um país estrangeiro numa manifestação que alegadamente protesta um problema português: não encontrei um único artigo em que a Lusa chamasse invasores aos homens e mulheres que têm acampado no Rossio com bandeiras da “Palestina” ou sem quaisquer bandeiras. Não vi em lado nenhum notícias de que, ao contrário do que sucedeu no referido caso, as bandeiras da “Palestina” e os lencinhos “fedayin” valessem aos respectivos portadores insultos, agressões e a necessidade de serem escoltados pela polícia. Para a Lusa, deduz-se, os manifestantes não só têm pleno direito de ocupar praças públicas, a vandalizar estátuas e a emporcalhar as imediações, como estão habilitados a seleccionar os candidatos a participar na pândega – e a filtrar a iconografia exibida. Porquê? Que se saiba, o indivíduo insultado e agredido pelos manifestantes pacíficos não era senhorio ou especulador imobiliário. Que se saiba, não há relação entre símbolos judaicos e o custo das casas em Lisboa e no Porto. Que se saiba, o indivíduo, à semelhança dos restantes, apenas queria juntar a sua voz aos que reclamam a dificuldade de comprar ou arrendar um apartamento no nosso país e, à semelhança de alguns dos restantes, levou a bandeira que lhe apeteceu. As assembleias “populares” realizadas nos acampamentos são pela liberdade, não são? E os acampamentos são sobre habitação, não são?
Não e não. Claro que os métodos leninistas não têm nada a ver com liberdade e os acampamentos têm pouco a ver com habitação. E este recorrente erro é culpa da generalidade dos “media”, que o repete a cada “directo” televisivo ou texto de jornal. Os campistas não têm culpa. Os campistas fartam-se de dizer o que de facto querem, ou com o que de facto sonham. E não o dizem em surdina, mas de megafone na mão. Uns exigem que se acabe com os “cães fascistas” (deve ser uma raça desagradável; por sorte, dos meus cinco rafeiros não há sequer um que mostre apetência para aderir a bandos de fanáticos ou que dê sinais de anti-semitismo). Outros proclamam “morte a Israel e aos israelitas”. Outros ainda pedem a “destruição do capitalismo” ou a “globalização da intifada”. Uma senhora com o cabelo verde intimou as massas: “Temos que ter mais raiva. Temos que fazer com que os políticos tenham medo de sair à rua.” E há os que divagam, sempre aos berros, acerca do clima, do colonialismo, do racismo, do feminismo, do movimento LGBT, de Trump e das demais modas que condizem muito bem com as tonalidades mais ousadas da L’Oréal Paris e dois piercings nas pálpebras. Mas não condizem de todo com o preço da renda de um T1 nas Amoreiras.
Conforme confessam nas entrelinhas de tudo o que guincham, os campistas “pela habitação” pairam na D. João I e no Rossio por ordem dos partidos assumida ou disfarçadamente radicais a que pertencem, os quais encontram na rua, aliás o seu habitat, uma alternativa ao fracasso nas urnas. Se realmente se afligissem com a dificuldade no acesso a casa própria, aqueles meninos e meninas guinchariam contra os governos socialistas, que abriram as fronteiras e, através de leis fatídicas e punições fiscais, fecharam a confiança de proprietários e investidores. Mas não. Na época dos governos do dr. Costa, com ou sem “geringonça”, não houve “acampadas”, esse grotesco neologismo que os babados reproduzem. As “acampadas” acontecem agora em parte para contestar o governo actual, que a tradição e os comentadores televisivos convencionaram colocar à “direita”. Sobretudo, os acampamentos são a importação possível do caos que vigora, ou que se procura implantar, pela Europa afora, e cujo alvo é o que também se convencionou designar por Ocidente.
Se Portugal não caiu na devastação sem retorno por exemplo da França, é somente por faltar força às forças empenhadas em devastar o que calha. Os campistas nacionais não carecem de raiva, que já possuem de sobra: carecem da adesão de cidadãos “comuns”, leia-se sujeitos que trabalham e não dispõem de vagar nem inclinação para pastiches revolucionários, e principalmente carecem da aliança estratégica com multidões de jihadistas genuínos, muçulmanos de 2.ª e 3.ª gerações empenhados em retribuir a hospitalidade dos infiéis com a extinção dos mesmos.
Por isso, os campistas de trazer por casa, perdão, por tenda limitam-se em geral e por enquanto em fornecer generoso alimento ao anedotário indígena. Tem piada ouvir a rapaziada que fala às reportagens e não consegue expressar a sombra de um esboço da caricatura de uma ideia. Tem piada observar, evidentemente a partir do sofá da sala, o aspecto circense da maioria da rapaziada. Tem piada constatar que, impedida de montar barracas, numa das noites a rapaziada recorreu a sacos-cama. Tem imensa piada ler que, no dia seguinte, a rapaziada acordou resfriada e trocou nova dormida ao relento por um minuto de silêncio em “conchinha”. Etc.
Porém, não convém permitir que a comédia involuntária das “acampadas” lhes esconda a natureza e os propósitos. Essa gente aguarda unicamente pelo número e pela oportunidade para proceder à destruição em larga escala, inclusive dos princípios que damos por adquiridos e, melhor ou pior, nos mantêm do lado de cá da civilização. Essa gente não pode ser legitimada – ou “normalizada”, em jargão contemporâneo – mediante “diálogo” e reuniões sérias com políticos que pretendem ser levados a sério. Essa gente, que na quase totalidade coincide com a extrema-esquerda, é um perigo tanto maior quanto o ignorarmos ou tratarmos com suicida tolerância. Se a deixarem, essa gente não gastará iguais mesuras connosco.