O autocarro arrojou à paragem, com a solenidade macilenta de um destroço, arrastando consigo um breve rumor de travões e o bafo morno de muitas viagens alheias; parou junto ao passeio, e as portas abriram-se com aquele suspiro mecânico de quem há muito fez do cansaço um hábito; e, naquele ruído de dobradiças e ar comprimido, havia uma ordem simples e irrevogável: partir ou ficar, subir ou deixar que a distância escolhesse.
Há destinos que, ao contrário do estrondo das catástrofes, se decidem na quase invisível inflexão de um corpo: uma cabeça que se volta, uma pálpebra que vacila, a demora de uma respiração antes de uma resposta. Assim Píramo e Tisbe, Leandro e Hero, Céix e Alcíone. Mas talvez nenhum outro casal como Orfeu Eurídice tivesse traçado com tamanho desvelo as mais comoventes das secantes — não no clamor dos infernos, nem por destoar no canto capaz de comover as sombras, mas pela mínima desobediência de desejar vê-la. Bastou-lhe temer um instante pela presença que o seguia, pedir aos olhos aquilo que a promessa lhe oferecera, para que a amada regressasse à região sem rosto donde a sua música a trouxera.
Há uma brutal ironia nesta economia do irreparável: uma vida inteira pode inclinar-se para a ruína por causa de um gesto mais imperceptível do que o de uma folha quando, antes de cair, hesita no ramo; e, depois, todo o tempo que resta não chega para o desfazer.
O parque parecia ter sido deixado ao cuidado das árvores e da água. O céu, lavado por uma chuva breve, conservava ainda uma daquelas claridades de vidro estalado; nas folhas dos plátanos, a humidade reunia-se em pérolas incertas e caía, uma a uma, sobre a terra escura.
“Perdi-te?” perguntou o rapaz junto ao repuxo.
A rapariga estava diante dele, mas olhava para a fonte. Talvez já soubesse que há perguntas a que ninguém pode responder sem alterar a própria forma do mundo.
A água erguia-se em jactos delgados, alcançava por instantes a sua figura mais alta e regressava à bacia de pedra. Não regressava, porém. Apenas outra água ocupava o lugar da que caíra. O rapaz reparou nisso e pensou, sem ter a coragem de o dizer, que o amor se parece talvez com aquela engenhosa ilusão: julgamos reconhecer o mesmo gesto, a mesma voz, a mesma mão pousada sobre a nossa; mas o tempo, que não possui rosto nem remorso, muda secretamente tudo aquilo em que toca.
Ela não respondeu logo. De mãos nos bolsos, cerrava em punhos fechados as sólidas certezas avulsas que um daqueles orgulhos que governam a garganta teimam em transformar em frases mal entendidas, tempos suspensos, e demoras absurdas. E, enquanto ambos esperavam, a vida fizera o que sempre faz quando ninguém a vigia: avançara.
Não lhe era desconhecida a história de Orfeu. O rapaz lera-a, em criança, como quem escuta uma lenda demasiado remota para poder magoar alguém. Recordava o músico diante dos deuses subterrâneos, a descida pelas sombras, a condição simples e impossível: caminhar sem olhar para trás. E lembrava-se de ter achado cruel que uma felicidade inteira pudesse depender de um gesto tão pequeno — o movimento do pescoço, a inquietação dos olhos, um segundo de desconfiança.
Não fora a curiosidade que o perdera. Nem sequer o amor. Era a necessidade de possuir certeza. Caminhar no escuro e confiar na presença de alguém que não se vê exige uma espécie de coragem para a qual os homens raramente são educados. Orfeu quis confirmar que Eurídice o seguia; quis transformar a promessa em evidência, o pressentimento em prova. E, ao voltar-se, abriu entre ambos uma distância que nenhum canto poderia voltar a cerzir.
O rapaz perguntou-se se não teria feito o mesmo. Quantas vezes olhara para trás, não com os olhos, mas com a angústia sôfrega de quem amara talvez em excesso: não com a abundância serena de quem oferece uma casa e deixa as janelas abertas, mas com a fome de quem leva para a mesa tudo quanto possui e, mesmo assim, teme que o outro parta sem ter ficado saciado. Oferecera-lhe mais presença do que ela podia aceitar, mais certeza do que qualquer coração pode prometer, mais palavras do que as que cabem numa vida partilhada. Talvez toda a precipitação nasça desse terror: o de não suportarmos que o outro seja livre, obscuro, irredutível; o de não podermos saber, com a segurança das pedras, se ainda somos amados.
Ela continuava junto ao repuxo, imóvel, e ele pensou se também ela não transportaria a sua descida aos infernos. Não há casal que não conheça, cedo ou tarde, essa geografia: corredores onde a voz do outro chega amortecida, escadas em que se desce sem luz, portas que se fecham sem estrondo. Algumas pessoas chamam-lhe desencontro; outras chamam-lhe cansaço. Mas talvez seja apenas o instante em que duas criaturas percebem que a ternura, abandonada a si mesma, não basta para vencer a má arte de dizer e a pior ainda de calar.
Continuara a falar, convencido de que as palavras, depois de ditas, se desfazem no ar como fumo. Não sabia ainda que certas sílabas encontram secretas cavidades no corpo e ali permanecem. Aninham-se sob as costelas, atrás do esterno, nos músculos do pescoço. Anos depois, regressam sem serem chamadas, sob o ruído de uma torneira, no perfume de uma camisa, numa silhueta que passa. A palavra dele continuaria nela. E o silêncio dela permaneceria nele.
Talvez por isso o parque lhe parecesse tão vasto. As crianças tinham deixado de correr; um cão cheirava, com aplicação grave, as raízes de uma árvore; ao fundo, uma mulher fechava um livro e levantava-se do banco. Ninguém reparava nos dois. O mundo possui essa terrível inocência de não interromper nunca a sua respiração quando uma vida se quebra. As fontes continuam a trabalhar, os pássaros regressam aos ramos, as pedras guardam o frio da noite. Só aquele que perde alguém vê o universo adquirir uma espécie de indiferença luminosa.
O rapaz quis aproximar-se, tocar-lhe no pulso, mas compreendeu que a aprendizagem, quando chega tarde, não desfaz a lição já escrita no corpo do outro. O arrependimento tem sempre alguma coisa de tardio: é uma lucidez que aparece quando o gesto já encontrou a sua consequência.
Pensou então que talvez a eternidade não fosse uma duração sem termo. Talvez fosse o peso de um instante que não cessa nunca de acontecer. A mão que não segurámos. A carta que não enviámos. O pedido de perdão adiado até que a própria demora se transforme numa parede. O olhar de Orfeu, ainda a rodar no escuro, muito depois de Eurídice se ter dissolvido na sombra.
A rapariga ergueu enfim os olhos. Havia neles temor, talvez, e uma ternura coalhada e funda, tão funda que não podia já servir de abrigo. O rapaz percebeu que ela o ouvira, embora nada mais tivesse dito depois da pergunta inicial. E então, com um ligeiríssimo movimento no pescoço, uma subtil inquietação dos olhos, como quem atira para o poço aquela única pedra cuja forma arde na mão antes ainda de atingir o fundo, respondeu:
“Claro!”
O autocarro fechou as portas com uma secura quase doméstica, e aquele som — duas lâminas de borracha a encontrarem-se, o breve estalo de um mecanismo obediente — pareceu-lhe mais definitivo do que qualquer sentença. Depois avançou, pesado e indiferente, levando-a pela avenida abaixo, entre semáforos, montras e esquinas onde ninguém saberia que uma vida acabava de se dividir em duas metades irreconciliáveis: a que ainda a continha e a que teria de aprender a sobreviver-lhe. O rapaz ficou junto à paragem, sem correr, sem chamar, como se já soubesse que há partidas que não se alcançam por falta de velocidade, mas porque, dentro de nós, alguma coisa decidiu chegar tarde. E o destino inscrito na frente do veículo, tão absurdamente comum que quase feria — Poço do Inferno — afastou-se no vidro traseiro, até que as letras se tornaram ilegíveis e o autocarro desapareceu, levando consigo a ironia inteira de uma descida sem Hades, de um amor perdido não entre os mortos, mas num fim de tarde, ao som de travões, a caminho de um lugar que, desde esse instante, lhe pareceu não ter outro nome.
E a silhueta das costas da rapariga esfumou-se, talhando naquelas sílabas — “Claro!” — um mundo de renúncias breves, quase mudas, com que, como um lençol de levedura, a vida, muito devagarinho, aprende a apodrecer.