(c) 2023 am|dev

(A) :: Uma tenda não é um voto 

Uma tenda não é um voto 

A escassez e carestia da habitação sente-se desde a geringonça. Mas com PS, PCP e BE no poder, não era problema: é agora apenas porque já não são eles que lá estão. 

Rui Ramos
text

Em França, a oligarquia não conseguiu manter a ordem, mas chamou os bois pelos nomes: não, o vandalismo, as pilhagens e os confrontos não foram espontâneos, mas estimulados, enquadrados e dirigidos pela extrema-esquerda. Nem toda a gente que destrói câmaras municipais, danifica monumentos, rouba lojas e ataca a polícia é militante de La France Insoumise? Pois não: mas as insurreições sempre dependeram da capacidade dos revolucionários para arrastar outras camadas, dos idiotas úteis aos simples delinquentes.

O ambiente em França é propício à desordem. Macron fracassou. A crise fiscal gerou grandes incertezas. As migrações descontroladas destruíram a coesão social e acumularam nos subúrbios uma juventude amestrada pelo fundamentalismo islâmico para “globalizar a intifada”. Os actuais motins são um ensaio para o que a extrema-esquerda vai tentar se, perante o fiasco “centrista”, Marine Le Pen for eleita: transformar a mudança de governo num problema de ordem pública, quando não numa guerra civil.

Em Portugal, PCP e BE tentaram importar a insurreição francesa, embora a pretexto do tema espanhol da habitação. Faltam-lhes os subúrbios jihadistas de França, e por isso tiveram de poupar na violência. De resto, seguiram a velha receita leninista de criar um poder paralelo. Vimos assim os sovietes montados nas praças a exigir serem reconhecidos como pares e interlocutores de câmaras municipais democraticamente eleitas. Como se uma tenda no Rossio valesse tanto ou mais do que um voto.

Não terá sido um grande sucesso, mas serviu para constatar uma coisa: o desarmamento intelectual e político do regime. A imprensa, com poucas excepções, adoptou sem cuidado a linguagem dos activistas. Chamou “assembleia popular” às poucas centenas de profissionais de todas as manifestações, e tratou como genuína a preocupação pelo “direito à habitação” de quem, para defender esse direito, ergue bandeiras da Palestina. Rapidamente, a reportagem, a notícia e o comentário se focaram na acção policial, deixando-se encaixar na táctica destas movimentações, que é provocar a polícia e suscitar o que possa ser depois apresentado como “repressão” e motivo de mais revolta.

A polícia fez o que lhe competia num Estado de direito, mas os políticos não. A escassez e carestia da habitação nas maiores cidades sente-se desde a geringonça. Nesse tempo, porém, com PS, PCP e BE no poder, não era problema: é agora apenas porque já não são eles que lá estão. O PS, sem vergonha, fingiu ouvir a “voz do povo” no Rossio e atribuiu todas as dificuldades aos dois anos de “governação da direita”. À direita, ninguém mostrou capacidade para não se deixar condicionar. A gente do governo, cheia de medo de parecer socialmente “insensível” ou “fascista”, enalteceu a justeza da “causa”, e homenageou o “direito à manifestação”. O presidente da câmara de Lisboa declarou “solidariedade total” com os manifestantes; o do Porto dispôs-se a recebê-los. Apenas lhes pediram o favor de não acamparem. O Chega vacilou sobre a “lei das rendas”, parecendo mais uma vez, como na reforma laboral, confundir a opinião pública com as convulsões de rua da extrema-esquerda. A Iniciativa Liberal resolveu fazer de presidente da república e convidar os partidos para uma reunião. Todos pareceram muito inseguros. Já não confiam nas suas próprias ideias? Já não sentem que a democracia lhes dê autoridade?

Muitos anos a achar que o único perigo é a “extrema-direita” e a tratar as “manifs” da extrema-esquerda como órgãos representativos turvaram as verdades mais elementares. Uma democracia não é apenas leis e instituições, mas também ideias claras e vontades firmes. É isso que parece faltar no actual regime.