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(A) :: Outra mulher

Outra mulher

Basta pensar que quero ser outra para entender que não me consigo imaginar mais ninguém. Essa outra mulher seria ainda imaginada por mim.

Djaimilia Pereira de Almeida
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Pergunto-me se todos desejamos, de vez em quando, ser outras pessoas. Ter outro nome, outra cara, outro corpo, outra vida. Estamos presos à nossa forma e conteúdo e podemos vivê-lo como uma prisão. Não me refiro a querermos melhorar-nos, alterar-nos, fortalecer-nos. Mas a deixar de ter esta cara e passar a ter outra. Deixar corpo e história para trás e irmos ser outras pessoas. Aliviar-nos da nossa dor e tentar, por uns dias, viver sem ela noutra carcaça. O facto de não podermos fazê-lo pode ser vivido com sofrimento. Querer jogar fora o que está a mais: não podemos. Querer esquecer: não nos é permitido.

Alguns imaginam que o tempo é o único antídoto para essa prisão, aliado do esquecimento, reparador das angústias. Mas o que faz o tempo à vida, a cada um de nós, senão tornar cada pessoa ainda mais quem ela é, de uma maneira ainda mais aguda? Quase parece que uma pessoa é uma cicatriz que o tempo atenua, mas aprofunda.

Querer ser outro não é o mesmo que querer esquecer quem se é. Mas acarinhar o desejo de nos evadirmos dos nossos traumatismos idiossincráticos.

Deixar de ser quem sou — mas para ser quem? A inveja não é tida nem achada nesse desejo. E por isso a mera formulação defrauda. Basta pensar que quero ser outra para entender que não me consigo imaginar mais ninguém. Essa outra mulher seria ainda imaginada por mim. Tão diferente de mim quanto a concebo. Ainda eu, até onde a minha sensibilidade me leva.

Também não seria como criar uma personagem ou um heterónimo. Não seria o mesmo que imaginar ou criar outrem, por meio do qual vivesse e sentisse no lugar de alguém que não eu.

Ser plenamente outra pessoa. Como alguém que acorda de manhã e a vida que tinha desapareceu e a vida é outra. Acordar eu menos a dor, eu menos a má memória, se calhar essa pessoa seria menos uma ideação que uma subtracção.

Sempre que me abandono a essas contas de menos, alguém me recorda das coisas de que gosta em mim. Aquilo que eu gostava de subtrair são os meus encantos, assegura-me. As sombras, as cortinas, os pavores, são a razão de eu ser amada.

Alguns de nós têm a sorte de ser gostados exactamente pelo que são, nem mais nem menos. Se fôssemos embora ser outros, onde deixaríamos as pessoas que mais gostam de nós? Estou presa a mim: mas os parâmetros dessa cela são o sentido da vida de uma pessoa que amo na exacta medida em que é quem é.

Amar na pessoa amada aquilo que ela não pode mudar acerca de si mesma — e estar grata por isso. Ser amada de volta naquilo que não sou capaz de mudar em quem sou. Ser amada na limitação e não na potência.

O amor não é uma prisão, mas a única esperança para a prisão de sermos os mesmos todos os dias.