Trabalhei quatro anos nos eventos da Gulbenkian. Hoje trabalho em performance marketing, onde um algoritmo decide a quem mostrar cada anúncio.
A própria Spotify mediu o que as recomendações fazem. Numa experiência de campo com podcasts, conduzida por Holtz e colegas no MIT e na própria plataforma, mostrar a cada ouvinte apenas o que se ajustava ao seu gosto fez subir as audições em 28,9%, mas estreitou em 11,5% a variedade que cada um ouvia; a variedade do conjunto, essa, cresceu 5,96%.
Um estudo observacional da mesma empresa aponta no mesmo sentido: ouvir por recomendação aparece associado a menos variedade, e ouvir mais variedade a quem se torna subscritor e permanece mais tempo. Nada disto prova que quem programa uma sala acerte mais. Prova apenas que o algoritmo, ao servir cada pessoa, lhe encolhe o horizonte.
Uma “sala” tem nome na porta e o direito de errar. Num limite, podemos perguntar porquê. A temporada 2026/27 da Gulbenkian é a primeira de Fredrik Andersson como diretor de Gulbenkian Música. Na programação, uma carta explica o que propõe e convida o público a explorar além do que já conhece. A Fundação encomendou obras novas a Carlos Caires, Andreia Pinto Correia e Hawar Tawfiq, com estreias entre outubro e dezembro. Na mesma temporada, Indiana Jones com a Orquestra Gulbenkian ao vivo.
“O que deves ouvir” às vezes quer dizer “o que sempre ouvimos”, e uma sala ou auditório pode gostar de si próprio. Mas esse é um defeito com morada, e por isso admite resposta.
O algoritmo conhece o meu passado. A “sala”, quando acerta, conhece uma versão de mim que ainda não existe. Quando a “sala” falha, sei a quem devo associar. A lei obriga o algoritmo a explicar, nos termos e condições, os parâmetros daquilo que decide, mas não escolhe a escolha. Quando ele falha, encontro os termos e condições.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.