É uma história que se repete centenas de vezes desde há décadas, principalmente na Europa e principalmente com jovens jogadores vindos de África. De repente, um rapaz de 14, 15 ou 16 anos, a jogar na formação de um clube europeu e à procura de um sonho longe de casa e da família, é acusado de ter 24, 35 ou 46 anos. A carreira, normalmente, fica por ali — e raramente se conhece o lado do verdadeiro protagonista da história.
Joseph Minala, contudo, quis fazer diferente. Nasceu nos Camarões em agosto de 1996, há 30 anos, e chegou a Itália com apenas 14 e à boleia de uma promessa de fazer um teste no AC Milan. A promessa, porém, era uma mentira. Um de 12 irmãos, viu-se sozinho e sem dinheiro em Roma e acabou por encontrar a única solução numa esquadra da polícia, ficando no país com o estatuto de refugiado e a viver num alojamento com dezenas de outras pessoas na mesma situação.
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A paixão pelo futebol fez com que não desistisse de, pelo menos, dar uns pontapés na bola. Começou a jogar no Vigor Perconti, um clube amador, e atraiu mesmo a atenção do Nápoles, que ofereceu um teste de dois meses nas camadas jovens. Em 2013, porém, a Lazio bateu à porta da Casa Familia, o alojamento em que Joseph Minala vivia, e sugeriu que este ficasse ali mesmo em Roma, fizesse um teste e um jogo particular no clube e ponderasse juntar-se à formação. O teste correu bem, o jogo correu ainda melhor e o camaronês, já com 17 anos e três depois de chegar a Itália, juntou-se mesmo à Lazio.
Os primeiros tempos prometeram. Médio-centro, já com mais de 1,80 metros, impressionou nas camadas jovens e acabou mesmo por ser chamado à equipa principal, que na altura era treinada por Edoardo Reja. Foi suplente não utilizado em março de 2014, contra o Cagliari, e estreou-se na Serie A no início de abril, substituindo Senad Lulic no último quarto de hora de uma vitória contra a Sampdoria. E foi nesta altura, quando tudo ainda mal tinha começado, que o sonho terminou.
No Senegal, num site chamado “senego.net”, que entretanto já nem sequer existe, surgiu a notícia de que Joseph Minala tinha mentido em relação à idade. De acordo com as informações, o camaronês não tinha nascido em 1996, mas sim em 1972 — ou seja, não tinha 17 anos, mas sim 42. A Federação Italiana de Futebol abriu uma investigação e, em maio de 2014, anunciou que iria arquivar o processo, já que não encontrou quaisquer irregularidades na documentação do jogador. Ou seja, confirmou que Joseph Minala tinha mesmo nascido em agosto de 1996 nos Camarões, portanto, tinha apenas 17 anos.
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Pelos mesmos dias, também a Lazio emitiu um comunicado em defesa do jogador, confirmando a “legitimidade absoluta da documentação apresentada”. Para a opinião pública, porém, já era tarde demais. Joseph Minala não voltou a jogar na Serie A e logo nesse mesmo ano foi emprestado ao Bari, cumprindo depois outras cedências ao Latina, à Salernitana e também aos chineses do Qingdao Huanghai. Desvinculou-se dos italianos em 2021, depois de ainda fazer um jogo na Taça de Itália em 2019/20, e assinou pelo Lucchese, passando depois por Liepaja (Letónia), Sliema Wanderers (Malta) e Gzira United (Malta), sendo que atualmente representa o Marsaxlokk, também em Malta. Pelo meio, ainda chegou a ser convocado para os Sub-23 dos Camarões, mas nunca fez carreira internacional.
Agora, mais de uma década depois da notícia que tudo mudou, decidiu falar. “Acho que não recebi o que realmente merecia na minha carreira. Malta não está mal, mas acho que nesta altura da minha carreira não devia estar a jogar aqui. Tive muitas oportunidades que se fecharam, muitas portas que se fecharam por causa daquela história. Aquela notícia foi completamente falsa. E toda a gente sabe disso”, explicou Joseph Minala em entrevista ao jornal Olé, da Argentina.
“Cresci como qualquer outro, nunca fiz nada de mal. Alguém quis arruinar a minha carreira, simplesmente, porque naquele momento eu não estava contente com muitas das coisas que queriam fazer comigo. No início ia assinar pelo Nápoles, mas não assinei pelo Nápoles e escolhi o meu próprio caminho. Eu sou dos Camarões, nasci nos Camarões… A notícia era do Senegal”, acrescentou.
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Ainda assim, o jogador não tem explicações para a eventual origem da notícia e nem sequer consegue perceber o porquê de ter aparecido num site de outro país. “Não sei, essa é a pergunta que faço. Quando as pessoas olham para mim, quando estão cara a cara comigo, percebem a realidade. Aquela era a época do Facebook, o Instagram ainda não existia. Alguém manipulou uma imagem e uma história e as pessoas gostam do negativo. E hoje continuo a pagar as consequências de tudo aquilo na minha carreira”, atirou.
O camaronês afasta a possibilidade de tudo não ter passado de um caso de racismo e garante que a história surgiu “por outras razões”. “Escreveram sobre mim sem me conhecer. Eu já jogava futebol há muito tempo quando aquela notícia apareceu. Muitas oportunidades acabaram por desaparecer porque, quando procuras o meu nome no Google, a primeira coisa que aparece, mesmo tantos anos depois, é aquela história. Mas não tenho nada a esconder”, vincou.
Por fim, Joseph Minala lamenta o facto de não ter contado com o apoio da Lazio, independentemente do comunicado oficial que o clube chegou a fazer. “Não me apoiaram. E por isso é que digo que, se pudesse mudar algumas coisas no meu passado, mudava. Não tinha a minha família comigo, não tinha pessoas que pudessem aconselhar-me. O meu clube ficou surpreendido porque me via todos os dias, mas não tivemos tempo para nos sentarmos e falar sobre o que íamos fazer. Pensava que tudo ia passar, que tinha de concentrar-me no futebol e na minha família. Era a única coisa que me passava pela cabeça”, terminou.