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PS com "grande consenso" sobre abstenção do OE, até porque "os figos só se comem maduros"

Socialistas reúnem-se para validar proposta do líder para viabilizar Orçamento do Governo pela abstenção. Ao mesmo tempo procuram mostrar distância, mas com conta, peso e medida.

Rita Tavares
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Vasco Maldonado Correia
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Os socialistas vivem um equilíbrio difícil: viabilizar o Orçamento do Estado para o próximo ano sem que esse gesto seja entendido como um apoio político ao Governo. Na noite desta quarta-feira, José Luís Carneiro fez uma longa intervenção justificativa da abstenção e conseguiu aquilo que o porta-voz do partido classificou de “grande consenso”. Os socialistas não querem confundir-se com o Governo, mas admitem que o “figo tem de estar maduro” para ser “comido”.

A analogia com figos veio de uma figura do Algarve, o deputado Luís Graça, e foi relatada ao Observador por vários socialistas que estiveram na reunião como um exemplo do sentimento generalizado de que continua a ser preciso aguentar eventuais tentações de desencadear uma crise política. O socialista disse mesmo que “os governos são como os figos, só se devem comer quando estão maduros” — e este ainda não estará no ponto, na avaliação socialista.

Por agora, os socialistas pediram ao líder que o foco da oposição esteja em propostas nas áreas mais quentes, como o aumento do custo de vida, a saúde e a habitação. E também que não se hostilize por completo a direita moderada. Um membro da direção, Luís Soares, terá mesmo defendido que só se deve malhar no ferro quando está quente — defendendo o aproveitamento cirúrgico daquilo que mais desgasta o Executivo.

O caminho é, por isso, entre aproximações e distanciamentos. Exemplo disso foi que, antes do encontro que tinha na agenda a apreciação da sua proposta para viabilizar o Orçamento pela abstenção, Carneiro reuniu a direção do partido para carregar contra o Governo em matéria de habitação.

Saiu a insistir que o Governo coloque “na gaveta” a nova lei das rendas, disponibilizando-se para um “diálogo construtivo”, mas sem deixar de aproveitar a contestação na rua — o que os socialistas também queriam ouvir.

https://observador.pt/programas/reportagem-observador/abstencao-nao-adjetivada-ps-garante-consenso-total/

Considerou “inaceitável, incompreensível que o Governo não tenha em consideração o que se está a passar nas praças do nosso país” e desafiou o primeiro-ministro a ouvir o PS, num “diálogo construtivo”, sobre “uma solução de garantia pública [no arrendamento] que permita cumprir três objetivos: dinamizar o mercado do arrendamento, dar segurança aos jovens e às famílias das classes médias e dar segurança também aos mais idosos.”

Na reunião da Comissão Política Nacional, que se seguiu pela noite dentro, o líder do PS voltou a apresentar o Orçamento como um compromisso com a estabilidade, sobretudo quando o país vive dificuldades — o aumento do custo de vida e a instabilidade internacional funcionaram como argumentos para justificar esta mão estendida ao Governo no OE.

A posição foi alvo de “grande consenso”, resumiu no final da reunião André Moz Caldas, mas ao mesmo tempo quis sublinhar que “não mostra concordância com o conteúdo do OE, nem com a política do Governo”.

Ainda assim, é pouco provável que o PS mude o sentido de voto entre a primeira votação, na generalidade já na próxima semana, e a final global. “A não haver nenhuma surpresa que modifique os dados do problema manteremos a abstenção”, respondeu André Moz Caldas quando foi questionado diretamente pelos jornalistas sobre se a posição é para ir até ao fim da discussão da proposta.

Para o debate na especialidade, os socialistas levam propostas de alteração, mas “sempre garantindo a sustentabilidade das finanças públicas”, assegurou José Luís Carneiro ainda antes da reunião da Comissão Política. E a mesma bitola serve para a questão da habitação, onde o PS vai avançar com propostas próprias, mas dentro do que o Orçamento permite.

Sobre quanto tempo o PS manterá este “compromisso com a estabilidade política”, como lhe chamou Moz Caldas, a promessa não é eterna. “É desejável que as legislaturas se cumpram”, disse o porta-voz do partido, mas também admitiu que “não haverá eleições num período em que é necessária estabilidade, o que não significa que os critérios não possam variar futuramente”.

A bola, chutou ainda o socialista, está do lado do Governo que “só poderá queixar-se de si próprio” se não for capaz de executar políticas públicas ao longo do próximo ano.