“Há um estranho cheiro a pairar no ar, o cheiro da pré-insurreição”. Foi com estas palavras que um amigo meu, jornalista em Paris, me descreveu o passado fim-de-semana. De facto, no passado fim-de-semana o povo francês teve a oportunidade de ver o que a “Nouvelle France” sonhada pelo Jean-Luc Mélénchon faria caso este chegasse ao poder. E o mínimo que se pode dizer é que seria o caos: a França ficaria nas mãos de fanáticos vermelhos, ajudados por hordas de arruaceiros que não perdem uma ocasião para mostrar o seu ódio ao país de acolhimento. Exceptuando uma parte significativa dos jornalistas, articulistas, professores universitários e/ou comentadores que, tal como os três macaquinhos chineses, continuam cegos, surdos e mudos, está a tornar-se impossível ignorar aquilo que temos diante dos olhos. E o que é que vemos? Vemos, para quem tem olhos para ver, que aquilo que se passou em Paris no passado sábado e domingo, dias 17 e 18 de Outubro, não foi uma greve pacífica, nem sequer uma greve marcada por episódios esporádicos de violência. Tratou-se, sim, de grandes motins que, pelo número de pessoas envolvidas em actos de violência e pela dimensão da destruição, dos incêndios e dos saques, se assemelharam muito mais a um fenómeno de pré-insurreição.
A palavra é forte! Certamente chocará alguns leitores, que me acusarão — como já li num comentário — de exagerar ou de “confundir os meus desejos com receios”. Limito-me a fazer um diagnóstico de uma situação que se torna, a cada dia que passa, mais preocupante. Aquando dos motins de 2023, terão participado 50 mil arruaceiros ao longo de sete dias (fonte). Desta vez, só no sábado, estima-se que o número de arruaceiros tenha sido quase o dobro (fonte). Por pouco, a polícia não colapsou (fonte). Há grupos a testar as forças do Estado francês: grupos esquerdistas e os seus aliados islamistas, numa união a que alguns chamam “islamo-esquerdismo”, termo cunhado pelo intelectual francês Pierre-André Taguieff. Os islamo-esquerdistas estão a ser ajudados por milhares de arruaceiros maioritariamente de origem não ocidental, em grande parte provenientes dos bairros problemáticos, bem como por centenas de membros de milícias de extrema-esquerda antifa. Quem venceu o braço-de-ferro no sábado? Venceram o Jean-Luc Melenchon, os antifas e os seus aliados provenientes dos bairros problemáticos que pilharam e destruíram durante dois dias. Mas venceram também os islamistas, que utilizam os arruaceiros — muitos deles muçulmanos — como factor de destabilização do país. Pelo contrário, o Estado francês perdeu, pois o chefe de Estado, o presidente Emmanuel Macron, mostrou, mais uma vez, ser fraco. E, acima de tudo, perderam todos os cidadãos residentes em França, franceses ou estrangeiros, independentemente da sua etnia ou religião, que viram os seus negócios pilhados e destruídos.
As autoridades esperavam um sábado complicado, mas a realidade acabou por superar as expectativas — tanto assim que alguns jornalistas já apelidam o passado sábado de samedi noir (“sábado negro”). Por mais exagerado que possa parecer, só na cidade de Marselha a polícia estima que tenham estado envolvidos mais de 30 mil arruaceiros (fonte). Segundo os relatos, muitos eram provenientes dos bairros do Norte da cidade, marcados pelo tráfico de droga e por graves problemas sociais, e provocaram uma onda de destruição e pilhagens no centro de Marselha (fonte). Em Paris, os números serão ligeiramente inferiores. Registaram-se motins em quase todas as grandes cidades francesas. Em Limoges, a câmara municipal, um edifício com 150 anos e património público, foi devastada pelas chamas. A polícia deteve um suspeito de 30 anos, alegadamente ligado ao movimento antifa (fonte). Também o edifício do posto de turismo de Lyon foi devastado pelas chamas. Milhares de lojas em Paris, Marselha, Lyon e noutras grandes cidades foram pilhadas, quando não incendiadas (fonte). Como se não bastasse pilhar, também destroem. Lojas de brinquedos, de telemóveis, de roupa e de calçado. Uma restauradora foi atacada quando tentou defender o seu negócio, que acabou não só por ser pilhado, mas também incendiado (fonte). Mais de 50 estabelecimentos comerciais da cadeia Carrefour foram pilhados, com prejuízos que, segundo o Le Figaro, ascenderão a várias centenas de milhões de euros só para esta marca (fonte). No total, os prejuízos provocados apenas pelos acontecimentos de sábado poderão ascender a 800 milhões de euros (fonte). Cerca de 3 mil estabelecimentos comerciais foram pilhados e/ou destruídos (fonte). Centenas de pessoas foram agredidas, espancadas ou apedrejadas quando tentavam defender os seus negócios. Vários símbolos franceses foram também atacados, entre os quais a estátua de Santa Joana d’Arc, em Toulouse, que foi coberta na cabeça com um colete amarelo, como se de um véu islâmico se tratasse, e adornada com uma bandeira palestiniana (fonte). Humilhar um símbolo como Joana d’Arc é um acto significativo: pretende mostrar aos franceses que a França deixará de ser a “França eterna”. O véu islâmico mostra que há uma parte da população que vive em França mas que parece odiá-la profundamente, sendo o seu objectivo a submissão das mulheres francesas, demasiadas belas, demasiadas inteligentes, demasiadas livres para o gosto dos salafistas.
Escrevi no Observador, desde os primeiros dias da greve estudantil, aquilo que muitos teimavam em não ver em Portugal: a greve estudantil é insignificante. Esqueçamos esta “estória” de que os estudantes estão a lutar pelos seus direitos. Sim, há estudantes preocupados com as condições das escolas, mas aqueles que realmente se preocupam com elas não partiram nem pilharam e já regressaram às aulas. Tratou-se, desde o início, de uma manipulação da extrema-esquerda, levada a cabo por partidos e movimentos como La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, ou Révolution Permanente (fonte). Uma pseudo-greve que deu origem a pequenos motins, os quais, por sua vez, deram origem a uma atmosfera de pré-insurreição como aquela a que assistimos este fim-de-semana. Uma pré-insurreição que abre caminho a uma verdadeira insurreição, mais cedo ou mais tarde. O que vimos em França não é apenas mais uma daquelas revoltas de que os franceses tanto gostam, tão bem retratadas por Victor Hugo. Trata-se de um “aviso”, de uma demonstração de força. Trata-se da vontade da extrema-esquerda de destruir o velho mundo para construir um novo. Tabula rasa da “France éternelle”, criação da “Nouvelle France” de Jean-Luc Mélenchon, a “France créole”, como ele próprio já afirmou várias vezes. Uma nova França que deverá ser construída após a destruição da antiga, à maneira de Maximilien Robespierre e do seu aliado Jean-Baptiste Carrier, o “carniceiro da Vendeia”. E, para alcançar esse objectivo, a extrema-esquerda poderá contar com o apoio das suas milícias e de jovens provenientes de países extra-europeus que parecem nutrir um profundo e incompreensível ódio pelo Ocidente. Como explicou Éric Zemmour, convidado do canal LCI, o que vimos foi a dita “Nouvelle France” desejada pelo partido LFI. Nas suas palavras, esta França desejada pelo Jean-Luc Mélenchon tem “uma bandeira, ou várias bandeiras: a bandeira palestiniana, a bandeira argelina e até a marroquina. Tem aliados: as milícias antifascistas. Tem uma fachada legal: os deputados da LFI. Tem um modus operandi: a pilhagem, a razia. E tem, por fim, diria eu, um motor ideológico e histórico, ou seja, o ódio à França e a vingança pela colonização” (fonte).
O colapso da França torna-se penoso de ver. E, por mais absurdo que possa parecer, na sexta-feira, em vez de organizar uma reunião para preparar o dia de sábado, apesar dos repetidos avisos dos seus serviços de segurança, Emmanuel Macron preferiu ir assistir a um concerto de Céline Dion. Enquanto a França arde de norte a sul, o homem que supostamente lidera o país vai ouvir uma cantora pop, qual Nero a tocar lira enquanto Roma arde. No domingo, enquanto as pilhagens prosseguiam, Emmanuel Macron decidiu viajar até ao Koweit. O presidente Macron está a tornar-se o arquétipo da classe tecnocrática, oriunda, na sua maioria, da média e alta burguesia, que domina o Ocidente desde as Revoluções Liberais. O presidente Emmanuel Macron, Ursula von der Leyen, o antigo primeiro-ministro António Costa, Christine Lagarde… todos eles simbolizam o declínio do poder desta classe tecnocrática burguesa, destes políticos profissionais — alguns dos quais há várias gerações —, que poderão vir a ser varridos pelos “maremotos históricos” que se avizinham.
Sim, acredito que estão para vir acontecimentos violentos em todo o Ocidente. De Seattle a Viena, antevejo anos muito atribulados. A violência já se está a alastrar. Depois da França, também a Bélgica foi palco de greves estudantis e de protestos contra o custo de vida, que rapidamente degeneraram em actos de violência. A sede do Partido Socialista Belga foi vandalizada no dia 17 de Outubro, tal como várias lojas foram pilhadas e mobiliário urbano foi danificado por jovens que empunhavam bandeiras palestinianas, argelinas e marroquinas, dezenas de polícias feridos bem como 150 detenções (fonte). No mesmo fim-de-semana, várias manifestações contra o custo de vida em Itália acabaram também por dar origem a violentos confrontos com a polícia e a pilhagens em diversas cidades. Turim, Bolonha, Brescia e Milão terão sido algumas das mais afectadas. Entre as forças policiais, registaram-se 140 feridos. Houve mais de 270 detenções (fonte). Mais uma vez, entre os detidos encontravam-se alguns militantes antifascistas italianos, que terão iniciado os actos de violência, bem como alguns jovens refugiados e imigrantes de origem extra-europeia (fonte). Outros países, como o Reino Unido e os Países Baixos, também não estarão a salvo, penso eu… Mas por que razão estão tantos eventos deste tipo a ocorrer ao mesmo tempo? Será, como alguns afirmam, porque a vida se torna cada vez mais difícil na Europa? Ou será, como outros defendem, que a extrema-esquerda procura deliberadamente criar o caos em vários países europeus para tentar conquistar o poder? Estarão os islamistas, por seu lado, a tentar demonstrar a sua força? Ou será uma combinação dos três factores? É possível que seja precisamente esta última hipótese.
Acredito que muitos dos que fizeram greve, dos estudantes aos trabalhadores, o fizeram porque estão a passar por dificuldades e que muitos se manifestaram de forma pacífica. Mas, como tantas vezes acontece, a esquerda aproveitou-se deste descontentamento para se apropriar dos movimentos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os Coletes Amarelos. Os Coletes Amarelos começaram por mobilizar trabalhadores e pequenos empresários: agricultores, proprietários de pequenos negócios, camionistas. Não pediam ajuda ao Estado; queriam que este os deixasse respirar. Tratava-se de contestar o excesso de impostos, a multiplicação de leis e regulamentos e toda uma burocracia que sufoca quem trabalha. E, como tantas vezes acontece, a extrema-esquerda colou-se ao movimento, protagonizou desacatos, atacou a polícia e acabou por afastar os dirigentes originais do movimento através de ameaças e agressões. Quer se trate de movimentos iniciados pela extrema-esquerda, como aconteceu em França ou na Bélgica, quer de movimentos espontâneos — que, a meu ver, são bastante raros na História, embora existam exemplos —, a esquerda e a extrema-esquerda acabam frequentemente por parasitá-los, e utilizar os mesmos para agendas pessoais. Depois, há outro fenómeno que, na minha perspectiva, se tem vindo a repetir há pelo menos dez anos: a adesão de jovens de origem não ocidental que empunham bandeiras de países do Magrebe, da África Subsariana ou do mundo árabe e gritam palavras de ordem em árabe ou, por vezes, num inglês pouco fluente. Entre as expressões que, segundo relatos de manifestações em França, se ouvem, estão “wesh”, “wallah”, “Bismillah”, “la hagra”, “Free, free, free Palestine” ou “One, two, three, viva l’Algérie”. Qual a razão? É, na minha perspectiva, uma maneira de mostrar claramente que rejeitam o país onde muitos nasceram.
Que conclusão retirar de tudo isto? A única conclusão que me parece possível é que estaremos, provavelmente, a poucos anos do fim do actual interregno. Utilizo a palavra “interregno” no sentido que Antonio Gramsci lhe atribuía: “O mundo velho está a morrer. O mundo novo tarda em aparecer. E, neste claro-escuro, nascem os monstros”, dizia o intelectual italiano.. O professor Michel Maffesoli explica-nos que as épocas — entendidas como grandes parênteses históricos no interior de uma era mais longa — duram entre 300 e 400 anos. Segundo o intelectual francês, a época em que vivemos, a Época moderna, começou por volta de 1648 e chegou ao fim em 1990. Desde então, encontrar-nos-íamos em pleno interregno: esse período incerto e tumultuoso que separa duas épocas, em que as velhas estruturas começam a ruir, as novas ainda não se consolidaram e os conflitos tendem a multiplicar-se. Em que ainda não apareceram os verdadeiros líderes “de amanhã”. São, tantas vezes, períodos sangrentos, que acabam por culminar numa apoteose histórica de ferro e fogo. Os nossos líderes revelam-se tão frágeis como, se não mais frágeis do que, os últimos imperadores romanos. Os novos bárbaros — os islamistas — já não estão às portas de Roma: encontram-se dentro das muralhas da cidade. E, enquanto as nossas sociedades parecem perder a capacidade de defender os alicerces civilizacionais que as sustentam – o Cristianismo, a Família nuclear, a democracia de tipo liberal, a razão, a liberdade de opinião – os seus dirigentes parecem propositadamente ignorar as problemáticas actuais. Quanto tempo poderá ainda sobreviver o nosso sistema de democracia parlamentar, dominado por partidos que parasitam a riqueza das nações e por uma casta de políticos profissionais cada vez mais desligada da realidade dos povos que governam? Só Deus sabe. Mas uma coisa me parece certa: aquilo a que assistimos no último fim-de-semana poderá não passar do começo. Perante a escalada da violência e o número crescente de pessoas que nela participam, poderá chegar o dia em que as diferentes polícias europeias deixem de conseguir assegurar a ordem pública… Se a polícia desertar as ruas, será o começo do verdadeiro colapso das nossas sociedades — e, com ele, o fim do sonho de construir sociedades pacificadas, no seio das quais os homens possam viver em inteligência e harmonia. Será uma grande libanização das nações ocidentais.
Nenhuma época é eterna. Resta apenas saber quem irá desenhar e dominar a próxima Época no Ocidente.