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(A) :: Azar d’Santiago

Azar d’Santiago

Não podendo imitar o apóstolo, que foi rápido a negar Jesus, Dino fez o que Pedro também teria feito se tivesse tido a mesma presença de espírito: invocou em seu auxílio André Ventura.

Bruno Vieira Amaral
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Dino d’Santiago tem azar. Durante anos, dezenas, centenas, talvez milhares de artistas participaram na Festa do Avante. Presumivelmente seriam todos simpatizantes da causa comunista, mesmo que não fossem militantes do partido, daqueles de braço no ar, cartão de sócio e um primo metalúrgico. Seja como for, não me lembro de acusações de cumplicidade com o regime norte-coreano a um artista qualquer que fosse tocar gaita-de-foles às três da manhã numa sexta-feira perante um público em parte constituído por jovens ébrios e apolíticos dos subúrbios de Lisboa.

Mas isso foi até 2022. Nesse malfadado ano da “operação militar especial” (acho que no Kremlin e na Soeiro Pereira Gomes ainda é assim que se lhe referem) desencadeada pela Rússia para acabar com o nazismo na Ucrânia, atuar ou não atuar na Festa do Avante tornou-se um teste moral do algodão devido às extravagantes posições do Partido Comunista Português. E é aqui que entra o azar de Dino d’Santiago. Ele podia ter sido convidado e podia ter aceitado o convite sem qualquer problema em qualquer ano. Um mês depois, ninguém, nem o próprio Dino, se lembraria de ter atuado na Quinta da Atalaia. Mas não é que o foram convidar precisamente em 2022? É preciso ter azar.

Até eu, a esta distância, sofro com o dilema que, nas semanas após ter recebido o convite, terá atormentado o músico. Aceitando, uma parte da chuva de críticas que se abatia sobre o PCP cairia sobre a sua desamparada cabeça. Recusando amavelmente o convite, alegando um espectáculo em Mirandela ou um jantar há muito marcado em casa dos tios, era possível que o acusassem de pertencer à brigada Azov. Em abono de Dino, diga-se que ele hesitou. Mas, corajosamente, lá optou por atuar na festa do PCP, onde pronunciou as imortais palavras que ainda hoje ecoam pelos arrabaldes de Paio Pires e do Seixal: “Quando olhei para dentro, para a História e para quem fez a diferença, decidi que não iria à Festa do Avante. Eu sou o Avante!”

Depois de ter sido o Avante, Dino d’Santiago quis experimentar algo ainda mais radical e, surpreendentemente, apareceu como mandatário de Marques Mendes na corrida a Belém. Esta jogada imprudente valeu-lhe, na cabeça de muitos que o tinham aplaudido no Avante, o ingresso automático nas sempre famintas fileiras do “fascismo”. Felizmente, desta vez a coragem não o levou a proferir palavras tão marcantes como aquelas que dissera no Avante, embora eu, a título meramente pessoal, lamente muito nunca o ter ouvido gritar “Eu sou o Marques Mendes!” num comício em Fafe.

Este episódio obscuro, tal como a própria candidatura de Marques Mendes, já teria caído no esquecimento de grande parte da população portuguesa. Era o tipo ideal de pergunta para o prémio máximo no Joker daqui a vinte anos: “de que político Dino d’Santiago foi mandatário, etc…” Mas isto somos nós, que nos esquecemos rapidamente dos maus passos e dos infortúnios alheios. Desgraçadamente para os objetivos artístico-políticos de Dino, os camaradas têm excelente memória e ontem, quando o viram aparecer nos “protestos contra a crise da habitação”, apontaram-lhe o dedo acusador, como a populaça fez com o apóstolo Pedro: “Verdadeiramente também és um deles, pois acompanhavas Mendes, o diminuto.”

Que azar! Uma pessoa ali a juntar-se sinceramente aos protestos pacíficos do povo e logo alguém tinha de lembrar aquilo de que a maioria já se esquecera. Não podendo imitar o apóstolo, que foi rápido a negar Jesus, Dino fez o que Pedro também teria feito se tivesse tido a mesma presença de espírito: invocou em seu auxílio André Ventura. Nada como falar do Belzebu para unir diferentes credos. E então explicou que a única razão para ter aceitado o convite de Marques Mendes foi porque desejava com todas as suas forças derrotar Ventura na sua (de Dino) terra natal, Quarteira. Com tanto azar, é fácil adivinhar que nem esse objetivo foi alcançado. Mas pelo menos Dino fez o seu ato de contrição. No próximo ano, com mais sorte e já removida a mancha do fascismo, será convidado para atuar no Avante e ninguém recordará que um dia ele foi mandatário de um certo candidato presidencial.