“Eles vêm aí”. Parece o início de um filme de terror — e é. As três palavras anunciam o pânico dos palestinianos na apanha da azeitona das suas oliveiras, e antecipam que estão prestes a ser novamente agredidos, cuspidos e humilhados, em cenas tensas que ficam registadas em múltiplos vídeos nas redes sociais.
“Eles” são os “jovens das colinas”, um movimento radical de judeus extremistas que se mascaram antes de avançar para provocar, intimidar e tentar expulsar o inimigo — por acreditarem que os palestinianos ocupam terras atribuídas por Deus há mais de 3 mil anos exclusivamente aos judeus.
“Eles” estão ali em cima, bem à vista, a uns 300 metros das oliveiras de onde os agricultores arrancam as azeitonas para as deixar cair em lonas gigantes. Neste posto avançado não autorizado, serão uns 15, agrupados em frente à casa principal no topo da colina, indiciando que se preparam para descer.
Escudos, a tensa dança da provocação e os confrontos armados
Cá em baixo, assim que soam os alertas de que os mascarados vêm a caminho, as mulheres são as primeiras a abandonar as oliveiras. Os homens que estão a colher as azeitonas embrulham as lonas num movimento rápido a fazer lembrar o dos vendedores ilegais quando arrumam a mercadoria com um golpe de elástico ao sentirem a aproximação da polícia. Põem tudo nos carros, para salvaguardar a azeitona usada para produzir um dos azeites mais caros do mundo.
Os homens palestinianos ficam, escoltados por vizinhos, muitos deles proprietários de outras oliveiras em territórios ocupados, por outros jovens palestinianos que pertencem a comités de defesa local, mas também por ativistas (já lá vamos) e jornalistas (estes protegidos por coletes e capacetes). Nos últimos dez dias, o fotojornalista freelancer Issam Ramawi, a trabalhar para a France Press, foi baleado; a fotojornalista Heidi Levine, do Washington Post, foi roubada, pontapeada e espancada; e um grupo de diplomatas europeus foi obrigado a sair do carro para sofrer violentas agressões.
Os ativistas obedecem a uma espécie de escala feita pelo conselho municipal das localidades palestinianas, que os avisa de véspera para comparecerem nos locais onde haverá recolha da azeitona: todos os anos, no mês de outubro, este é um dos períodos de maior violência entre colonos e palestinianos. A presença dos ativistas e dos jornalistas é uma espécie de escudo para os agricultores, porque garantem o registo em vídeo das eventuais agressões dos colonos e também condicionam a atuação do exército, quando aparece.
Na versão mais extrema dos confrontos, os radicais mascarados descem da colina onde estão a viver quando conseguem ver ao longe que há agricultores a trabalhar e vêm para disparar, espancar, pontapear, incendiar, roubar e/ou atirar pedras.
Na versão mais ligeira, os “jovens das colinas” tentam assustar e intimidar os inimigos para saírem do terreno. Se os palestinianos resistem, assiste-se a uma tensa dança provocatória, cara a cara, com telemóveis a filmar para comprovar quem começou primeiro a agredir. Se um palestiniano toma a iniciativa do ataque, tem fortes possibilidades de ser detido quando chega o exército israelita. Os palestinianos queixam-se frequentemente de que o mesmo não acontece normalmente se a iniciativa da agressão for de um colono judeu extremista.
A provocação do colono radical que vai ao café palestiniano ajeitar as bandeiras de Israel
Esta pressão intimidatória dos colonos não acontece apenas nos campos na época da apanha da azeitona em outubro; acontece um pouco por todo o lado, todos os meses. Ainda esta terça-feira, na aldeia de Al-Lubban ash-Sharqiya, 30 km a norte de Ramallah (onde a Autoridade Palestiniana tem a sua sede administrativa), o Observador entrevistava o dono de um café que viu de repente serem colocadas centenas de bandeiras israelitas à porta do seu estabelecimento à beira da estrada. Foi precisamente no dia 7 de outubro, exatamente três anos depois dos ataques do Hamas que mataram 1180 pessoas e fizeram 251 reféns em Israel.
Muaad Mahmoud, o dono do café, contava que os colonos lhe incendiaram o estabelecimento, que o assaltaram quatro vezes desde o início da guerra, e agora tinha este mar de bandeiras israelitas à porta: “Eu não posso removê-las. A menos que sejam eles próprios a tirá-las.” Se Muaad arrancar as bandeiras, tem uma forte convicção sobre o que lhe acontece a seguir: “Eles fazem-me mal. Vão fazer-me mal.”
Chega primeiro um cliente, que lhe manifesta solidariedade de forma contida: “Que Deus te recompense por esta perda!” Chega a seguir uma patrulha de três soldados das Forças de Defesa Israelitas: pedem e fotografam as identificações da equipa do Observador, perguntam o que estamos ali a fazer, quem estamos a entrevistar, com quem mais vamos falar — eles dizem que não podem prestar declarações mas avisam que a história tem dois lados. (Um dos militares, em vez de falar de Ronaldo, como é habitual nos pontos de controlo quando os soldados descobrem portugueses, diz que já esteve no Boom Festival, em Idanha-a-Nova.)
Nem de propósito, os militares vão-se embora e logo a seguir um jovem judeu de tranças compridas e roupa rústica estaciona o carro mesmo em frente, do outro lado da estrada, sai da viatura e fica a olhar para o dono do café. Muaad estremece nervosamente a tentar, sem sucesso, disfarçar o medo: “Foi ele, esse mesmo. Esse homem roubou-me quatro vezes e incendiou o meu quiosque. Está tudo registado nas câmaras. O que posso fazer? O que posso fazer? Sinto-me num estado de total impotência.”
O colono radical atravessa a estrada e vai ajeitar uma a uma as dezenas de bandeiras de Israel, endireitando os mastros cravados no chão e desfraldando os panos com o símbolo azul de Israel. “Estes não atacam agora. Não são do tipo que ataca assim de frente, não tenham medo”, assegura Muaad, ele próprio amedrontado. “É só para provocar, pura provocação”, diz, tentando autoconvencer-se de que não haverá perigo de ataque físico.
O jovem judeu, abordado pelo Observador, diz apenas que não fala inglês. E rejeita comunicar através de uma app de tradução automática para o hebraico. Mas prossegue esta espécie de bullying: aproxima-se de Muaad enquanto o dono do café está a ser fotografado e posa mesmo atrás dele, a rir, e a desenhar com os dedos o V da vitória.
Depois pega no seu telemóvel, um aparelho de aspeto antiquado, que propositadamente não deve permitir acesso à internet para evitar distrações imorais: os smartphones estão interditos entre os “jovens das colinas”, exceto para fins operacionais ou de propaganda. Faz uma chamada a apelar aos seus companheiros para se juntarem a ele: “Venham, venham para aqui! Vá lá, venham ver o que está aqui!” O colono atravessa de novo a estrada para junto do carro, identificado com ajuda de Inteligência Artificial como sendo um Toyota Corolla do fim dos anos 90. Os outros elementos do seu grupo não aparecem, e ele acaba por ir-se embora.
Os dois ministros que vivem em colonatos e os carros do governo para os “jovens das colinas”
As ações violentas mais extremas dos “jovens das colinas” suscitam controvérsia na sociedade israelita, havendo largos setores e políticos com notoriedade que não se reveem nos métodos e lamentam as consequências para a imagem de Israel. Já em 2024, Ronen Bar, chefe do Shin Bet (Serviços de Informação e Segurança Interna de Israel), tinha enviado uma carta a Netanyahu onde alertava que a violência dos “Jovens das Colinas” se transformou em “terrorismo judaico” e constitui um perigo real para Israel, com a “cumplicidade e incentivo” de ministros do governo. Referia-se a dois apoios políticos de peso na extrema-direita: o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir. Ambos vivem em colonatos na Cisjordânia, o primeiro perto de Quduum, o segundo em Hebron.
Além de defenderem a ação dos jovens colonos radicais, levam o governo a apoiá-los materialmente, oferecendo a estes postos avançados ilegais dezenas de veículos todo-o-terreno e equipamentos de proteção, como drones e óculos de visão noturna.


Duas destas cerimónias de entrega de equipamento contaram com a presença do próprio ministro das Finanças, que elogiou o esforço destes jovens pioneiros no alargamento do território, citado pelo Times of Israel. O equipamento é justificado como sendo de proteção dos israelitas que estão “na linha de frente”, isolados e por isso mais expostos a ataques violentos — há artigos regulares na imprensa israelita e estatísticas atualizadas pelo governo sobre as vítimas de violência palestiniana. Mas os equipamentos distribuídos pelo governo acabam por ser usados pelos colonos radicais também para vigiar os palestinianos vizinhos e realizar incursões junto das suas casas e terras para os ir intimidando e convencendo a deixar as aldeias.
Os “jovens das colinas” desconfiam das instituições estatais de Israel, exceto para receber estas ajudas materiais previstas no orçamento.
O funcionário que desviava alunos mal comportados para os colonatos ilegais
Relatórios oficiais pedidos pelo governo apontam para a existência de cerca de 800 jovens radicalizados a viver em colonatos ilegais, dos quais cerca de 300 são suspeitos de envolvimento em atos violentos, segundo estimativas da polícia israelita.
Alguns dos elementos dos “jovens das colinas” têm apenas 12 e 13 anos. As raparigas são uma minoria no grupo, mas existem — e há até vídeos que as mostram a invadir casas de palestinianos. Muitos destes miúdos chegam aos colonatos depois de abandonarem a escola e ficam a guardar rebanhos e em turnos de vigilância para proteção do colonato. Outros estão ali por convicção ideológica e religiosa e provêm de famílias que partilham os mesmos valores e sentem orgulho por os filhos estarem a participar desta forma no alargamento e reconquista territorial de Israel.
Não há uma hierarquia clara que articule todos os postos avançados ilegais onde vivem os “jovens das colinas”, nem sequer dentro de cada posto. A liderança é normalmente assumida pelo elemento mais velho, um jovem adulto.
Pertencem a uma corrente do sionismo religioso. Têm uma vida muito mais modesta e ligada à terra do que a dos palestinianos que combatem. Por exemplo, vivem em casas de madeira, caravanas ou mesmo tendas. Estão totalmente desligados do sistema de ensino. Ocupam o tempo a cultivar a terra, ou a construir ou reconstruir habitações e a aprofundar estudos religiosos. Não têm relação com a internet nem com as novas tecnologias, exceto para questões operacionais.
Yoram Sorek, coordenador da Organização Não Governamental “Olhar a Ocupação nos Olhos”, confronta-se regularmente com os “jovens das colinas”. Já foi espancado, já apanhou gás pimenta, já lhe roubaram as máquinas de filmar. Diz ao Observador que os postos avançados ilegais são administrados por um adulto, que obtém o orçamento, recebe os veículos e garante a articulação com o exército”.
Quanto ao recrutamento, Sorek conta um episódio que mostra a ajuda indireta do Estado. O coordenador de segurança de um colonato tinha um segundo emprego no departamento do município de Jerusalém que lida com jovens que abandonaram as escolas religiosas. “Quando uma criança abandona a escola devido a problemas de comportamento, parece que surge um ‘bom anjo’ a sugerir que, em vez de esse rapaz ir para a rua, envolver-se em atividades criminosas e trazer vergonha para a família e para a comunidade, há uma solução muito boa: “Vamos colocá-lo num bom lugar onde será cuidado”. Ele arranja um lugar para essa criança num colonato ilegal e, de repente, aos olhos da família, ele já não é uma fonte de vergonha e constrangimento; é um herói que está a proteger a pátria.”
O coordenador da ONG “Olhar a Ocupação nos Olhos” explica ao Observador que não são os jovens que decidem onde, quando e quem atacar: “Quando a liderança dos colonatos, as pessoas encarregadas, os adultos, decidem focar-se numa determinada comunidade que desejam expulsar ou cuja terra querem dominar, direcionam os rapazes para lá para a rotina diária de assédio. Estes rapazes são incentivados a ir diariamente a essa comunidade e a tornar a vida lá insuportável”.
“Tudo em que pensamos todas as noites é: ‘Será que vêm matar-nos?’”
Este mesmo modus operandi foi testemunhado esta segunda-feira pelos residentes palestinianos de Turmus Ayya, 23 km a norte de Ramallah. Primeiro, o líder do colonato mais próximo desceu no buggy todo-o-terreno oferecido pelo governo para fazer uma ronda pelas casas, para ver quais estavam mais desprotegidas ou vazias por os agricultores estarem a apanhar a azeitona.
Depois desceram 13 ou 14 radicais mascarados, numa carrinha de caixa aberta e espalharam o terror. “Vinham todos vestidos de preto, com os rostos cobertos”, recorda ao Observador Hazam Assad, que ainda os viu no fim do ataque.
Foi de carro a buzinar quando ouviu os primeiros gritos dos vizinhos, para ver se desmobilizava os agressores. Os “jovens das colinas” bateram com um bastão na cabeça de um residente deixando-o a sangrar, incendiaram-lhe o carro, atiraram cocktails molotov à casa do lado, partiram os vidros e provocaram novo incêndio. “É como se estes terroristas tomassem drogas antes de vir: vêm cheios de energia para queimar, destruir e matar”, compara Hazam, que trabalha no resto do ano num restaurante em New Jersey ao lado de um restaurante português.
Quando está na Palestina, Hazam mal consegue dormir — e sempre de janela aberta para estar alerta: “Tudo em que pensamos todas as noites é: ‘Será que vêm matar-nos?’”




Jimmy Abdul, familiar do homem agredido na primeira casa, indigna-se com a reação das Forças de Defesa de Israel quando chegaram: “Vieram e protegeram os terroristas judeus, os colonos… Nós não lhes chamamos colonos, chamamos-lhes terroristas. E foi isso, não aconteceu nada, nenhuma prisão. Nenhum colono terrorista foi preso ou detido. Eles simplesmente aterrorizaram as pessoas no bairro, partiram as casas, queimaram dois carros e foram-se embora.”
Jimmy, que chegou a dirigir um supermercado em Chicago, tem oliveiras a 5 minutos a pé de casa, mas não pode ir apanhar as suas azeitonas: “Porque os colonos estão a observar-me. No minuto em que eu descer a colina, eles vêm e atacam-me com bastonadas ou tiros…”
Mas apoia ativamente os vizinhos que têm oliveiras mais afastadas dos colonatos israelitas. Leva binóculos e fica a vigiar os radicais mascarados ao longe, para poder avisar quando se põem a caminho. “Quando eles vêm, começamos a atirar pedras uns aos outros. Quer dizer, eu não consigo, já tenho 75 anos, só os assusto, levanto as mãos e finjo que vou atirar. Esta gente não tem misericórdia, não querem saber se tens 75 anos, 85 ou 5 anos, é tudo igual. Eles nasceram para matar, ferir, roubar e saquear. Não temos medo deles, eles podem ir para o inferno, nós vamos ficar aqui até à última pessoa, até ao último bebé. Não vamos deixar a Palestina para eles.”
Hanan Hamayel, a dona da outra casa atacada, estava no sofá quando foi atingida pelos estilhaços dos vidros; depois ouviu pequenas explosões; a seguir os radicais mascarados entraram-lhe em casa e incendiaram o sofá.
“Se não fossem os extintores de incêndio que, graças a Deus, tínhamos pendurados na varanda, só Deus sabe o que teria acontecido…”, desabafa Hanan num pranto, ainda em choque. A conversa é traduzida por um vizinho, Juma Shalaby, que perdeu as terras da família junto a Turmus Ayya para um colonato ilegal: “Há cerca de seis ou sete meses, fui ver as terras do meu avô e eles já estavam lá e começaram a atirar-me pedras. Chamei a polícia, a polícia ainda colaborou de início e tirou-os de lá, mas eles voltaram e agora é um colonato completo. Se tentar ir lá, eles atacam-me.”
Hazam, o vizinho que não consegue dormir, descreve a facilidade com que os colonos tomam posse de terras de palestinianos: “O que eles fazem é: chegam a qualquer topo de colina, colocam uma pequena tenda, hasteiam uma bandeira e tu já não te podes aproximar deles, porque a terra passa a estar sob controlo militar”.
Juma Shalaby, diretor de marketing que trabalha entre a Flórida e a Palestina, condena os atentados do Hamas de 7 de outubro, mas contrapõe: “Não se atacam civis em parte nenhuma do mundo. O que fizeram afetou toda a gente. Mas três meses antes do 7 de outubro, um rapaz de 23 anos chamado Omar foi morto em Turmus Ayya por colonos enquanto defendia as pessoas de um ataque. Ninguém falou disto no mundo.”
Outra vizinha que está na apanha da azeitona, Amal Abu Awwad, 62 anos, vive a poucas centenas de metros, numa casa ensanduichada entre colonatos. A habitação onde vive há 45 anos é atacada regularmente pelos colonos, que partem as janelas, cortam a água e a eletricidade, e não a deixam convidar qualquer visita para ir a sua casa, por questões de segurança.
Emissários dos colonos já lhe ofereceram 7 milhões de dólares pela casa, que bloqueia a continuidade territorial do colonato. É muito dinheiro, mas Amal recusou, e não foi só por ser proibido aos palestinianos venderem terra aos israelitas. “Apanhei um figo do chão e disse ao colono que não trocaria aquele único figo por 7 milhões de dólares. Nunca vou vender um único grão da minha terra.”
O azar de viver frente ao colonato onde mora o ministro das Finanças
Cerca de 40 km mais a norte, em Kafr Qaddum, também ofereceram fortunas a Basim Abdalla, pelas terras onde tem 2 mil oliveiras. “Já me ofereceram seis vezes mais do que paguei por um terreno. Claro que recusei. Usam intermediários, mas sabemos perfeitamente para quem é o dinheiro.”
Basim só consegue visto de turista para vir ver as suas terras e apoiar os familiares por 90 dias de cada vez. Vive nos EUA onde tem negócios imobiliários: “Odeio pagar impostos nos EUA sabendo que parte desse dinheiro é usada para financiar isto contra o meu próprio povo. Sinto-me culpado, mas tenho de continuar a trabalhar e a viver de forma legal.”
Os residentes de Kafr Qaddum têm a sorte de viver nas terras onde é produzido um dos azeites mais saborosos e caros do mundo; e o azar de viver na povoação palestiniana mais próxima de Kedumim. Já não bastava ser este o colonato onde foi presidente de câmara uma espécie de líder espiritual dos jovens radicais, Daniela Weiss, conhecida como “a madrinha dos colonos”. (Daniela Weiss, que não respondeu a um pedido de entrevista do Observador, foi sancionada pelos EUA e pelo Reino Unido com o congelamento de contas bancárias e ativos financeiros, tal como sucedeu com vários outros líderes identificados com os “Jovens das Colinas”).
Kedumim é também o colonato onde vive o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich. O antigo responsável municipal, Saqer Abeed, lamenta-se: “As coisas pioraram muito desde que o Bezalel Smotrich veio morar para aqui perto. Ele vive do outro lado da aldeia. Desde que ele chegou, construíram novas estradas e confiscaram ainda mais terras aos palestinianos.”
Pior ainda, também vivem cercados por “jovens das colinas”, segundo o ex-autarca: “Sim, temos muitos desses aqui! Cerca de 200 ou 300. Há escolas aqui onde eles aprendem o extremismo sionista. No ano passado, quase mataram um rapaz da nossa aldeia a pauladas e facadas. Eles deixaram-no dentro do carro e pegaram fogo ao veículo porque pensavam que ele já estava morto, e foram-se embora. No último minuto, as pessoas da nossa aldeia chegaram e conseguiram salvá-lo, tirando-o do carro em chamas.”
O ativista com um milhão de seguidores agredido quase todas as semanas
Provavelmente uma das pessoas mais vezes agredidas pelos “jovens das colinas” é o jornalista e ativista russo Andrey Khrzhanovskiy. É também uma das pessoas mais vezes detidas pelas Forças de Defesa de Israel, mas acaba sempre por ser libertado, por ter passaporte israelita. Fugiu para Israel quando começou a guerra na Ucrânia, temendo ser preso pelo regime de Putin.
Filho de um realizador e neto de um cineasta de animação, Andrey usa agora esses genes ligados ao cinema para fazer vídeos a documentar os ataques dos colonos e a cumplicidade das Forças de Defesa de Israel. Tem mais de um milhão de seguidores nas várias redes sociais.

Esta quarta-feira, pouco depois de dar uma entrevista ao Observador, foi preso novamente pelas Forças de Defesa de Israel, quando acompanhava agricultores na apanha da azeitona. Seria libertado na mesma tarde. É agredido pelo menos uma vez por semana, já foi detido dezenas de vezes e no início do mês incendiaram-lhe o carro. Tem a certeza de que foram colonos, mas não consegue apontar exatamente quem terá sido o autor. Este ativista de 28 anos financia-se através de uma conta no Patreon, com donativos de apoiantes e seguidores: “Antes fazia isto sem receber nada, agora não preciso de o fazer de graça porque há quem apoie.”
Andrey conhece alguns colonos pelo nome. Alguns foram seus vizinhos e viviam a centenas de metros de sua casa. “É uma forma muito íntima de combate. Todos os dias eles vêm, vemos os mesmos rostos, conhecemo-los pelo nome. Há um sujeito que me bateu na cabeça com um pau e rasgou-me o tímpano; sei o nome dele, chama-se Yehuda Freedman. Já o vi antes e vi-o depois, e claro que nada lhe acontece.”
Diz que os “jovens das colinas” são uma espécie de “linha da frente da limpeza étnica israelita” na Cisjordânia: “São usados para fazer a violência mais ultrajante, para que o exército possa manter as mãos limpas, ficando em segundo plano. Eles é que vão dar pauladas na cabeça das pessoas, queimar casas, carros e tudo mais. Mas são dois braços do mesmo projeto. O objetivo do projeto é a limpeza étnica da Palestina, e estes são dois braços diferentes: os colonos fazem a violência e o exército dá cobertura na Área C da Cisjordânia”.
O ativista/jornalista, acusado pelo governo israelita de ser de extrema-esquerda, desvaloriza a detenção recente de 10 membros dos “jovens das colinas” relacionada com as agressões à jornalista do Washington Post e a diplomatas europeus: “De vez em quando, o exército detém colonos, mas isso acontece quase exclusivamente quando há um grande escândalo internacional e têm de fazer controlo de danos. Ao mesmo tempo, as únicas pessoas que detêm são as que participaram diretamente na violência, nunca os líderes dos postos avançados, os financiadores ou quem organiza os ataques. Fazem-no apenas para alegar internacionalmente que agiram.”
A intensidade e frequência de casos de violência durante a apanha da azeitona na Cisjordânia está a marcar estes últimos dias da campanha para as eleições legislativas em Israel, marcadas para a próxima terça-feira, dia 27. Partidos da oposição de centro-direita e liberais têm acusado Benjamin Netanyahu de instrumentalizar as questões de insegurança no país para assegurar a sobrevivência da sua coligação com a extrema-direita.
Em comunicados oficiais, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel assegura que as tropas têm instruções para “intervir e conter qualquer ato ilícito, independentemente da origem do infrator”. Já o chefe de governo tem insistido que a violência é provocada por “uma escassa minoria de extremistas que não representa a população dos colonos”.
O padre da única aldeia 100% cristã na Cisjordânia: “Não os controlam porque não querem”
Taybeh é a única aldeia totalmente cristã da zona. Segundo o Evangelho de São João, Jesus deixou Jerusalém após a ressurreição de Lázaro e veio refugiar-se aqui. “Mas esta aldeia já não é um lugar seguro de refúgio para nós, devido aos colonos fanáticos, radicais e aos seus ataques”, admite ao Observador o padre Bashar Fawadleh, depois de celebrar a missa das 6 da tarde perante uma dúzia de fiéis.
O próprio sacerdote estava em junho inserido num grupo contra quem os “jovens das colinas” dispararam três vezes, depois de provocarem um incêndio: “A tática deles é atear o fogo, sair e depois voltar fingindo que o vão apagar, dizendo às pessoas: “Não sabemos quem ateou o fogo, mas viemos para apagar e proteger”, denuncia o sacerdote. Os radicais mascarados partiram carros e roubaram telefones aos paroquianos que estavam a tentar ajudar a apagar as chamas.
Esta ação intimidatória tem assustado muita gente: 16 famílias deixaram Taybeh nos últimos três anos. E há mais seis famílias a preparar documentos e passaportes para sair: “Já não se sentem protegidas”, justifica o padre, que também se sente inseguro, mas recusa deixar a aldeia.
Os diplomatas atacados no sábado tinham acabado de sair de Taybeh. Os colonos começaram por agredir quem estava na colheita da azeitona (um rapaz de 12 anos e uma senhora de 70). Depois viram a comitiva do Consulado da Bélgica com dois carros diplomáticos, partiram as janelas de um dos carros, bateram num presidente de câmara francês e atiraram-no ao chão até a segurança do consulado intervir.
“Quando atacam diplomatas, significa que ninguém está protegido. Atualmente, os colonos têm todo o poder e são protegidos por dois ministros, Ben-Gvir e Smotrich, que lideram este movimento sistemático e planeado. São radicais fanáticos que não aceitam o outro na terra”, acusa o padre Bashar, que não hesita em classificar o que está a acontecer: “Na prática, o que vemos é a eliminação da presença palestiniana e, no resultado, sim, é um genocídio.”
“Israel é um Estado extremamente controlado no âmbito da segurança. É impossível o Governo e os serviços de segurança não conseguirem controlar este grupo”, frisa o sacerdote. “Netanyahu diz que é um grupo pequeno de 150 pessoas, mas são centenas ou milhares por toda a Cisjordânia! Não os controlam porque não querem. Sem lei, torna-se uma terra sem lei.”






















