Portugal nasceu na dinâmica da chamada Reconquista Cristã. É um dado histórico, inegável, que carece de pouca problematização na sua apresentação geral. Contudo, descendo a uma análise mais detalhada, importa perceber que, mesmo nesse quadro de conquista militar enquadrada num ideário religioso, isso não implicou uma anulação das restantes religiões presentes nos territórios conquistados.
Paralelamente a essa linha em que Portugal se enquadrava na cristandade e, acima de tudo, era parte central no ideário de luta contra o islão, verificamos que Portugal terá sido dos espaços políticos mais tolerantes na Idade Média. Sejam judeus, sejam muçulmanos, os monarcas da I Dinastia claramente afirmaram uma política de organização do espaço conquistado tendo em conta a permanência dessas populações.
Os judeus constituíram, ao lado dos muçulmanos, uma das minorias étnico-religiosas mais importantes no território português medieval. Com motor simplesmente económico e demográfico, para rentabilizar os novos territórios, ou por aberta e franca capacidade para integrar e tolerar, em Portugal teremos, ao longo dos séculos XII a XV, um franco desfasamento e atraso em relação às políticas seguidas um pouco por toda a Europa de perseguição aos judeus. Durante vários séculos, mouros, judeus e cristãos viveram lado a lado, conseguindo manter as suas tradições históricas e religiosas.
Após a conquista de cidades importantes como Santarém, Lisboa, Évora e Alcácer, é legítimo supor que a respetiva população judaica permaneceu no novo reino cristão. Estas comunidades contactaram com todos os estratos sociais, do povo à família real, exercendo cargos de destaque na corte portuguesa desde o reinado de D. Afonso Henriques. É de destacar que o primeiro rabi-mor, Yahia Aben-Yaisch, recebeu como recompensa pelos serviços prestados ao primeiro rei português, na luta contra os mouros, importantes propriedades e, de acordo com a tradição, autorização régia para usar brasão.
Desde o início da monarquia portuguesa que os soberanos se referem aos judeus como sendo sua propriedade, «os meus judeus». Estes têm a proteção do rei, que, em troca de dinheiro, concede aos seus favoritos privilégios e doações de bens, como é o caso dos rabis-mores, que ocupam uma posição privilegiada junto da corte. O próprio rei consultava frequentemente os judeus mais importantes, nomeando-os muitas vezes como conselheiros e tesoureiros, como, por exemplo, Isaac Abravanel, que exercia estas funções junto de D. Afonso V. Uma das evidências que atestam a importância e o poder que os judeus podiam exercer junto da comunidade cristã está bem ilustrada no facto de a grande maioria de cirurgiões e físicos de Lisboa serem judeus.
Durante os primeiros cinco reinados, os judeus viviam entre os cristãos num clima de paz. Porém, após o conflito com a Igreja, D. Dinis promete obrigar a população judaica a habitar em bairros apartados, o que começa a ser implementado a um ritmo bastante lento, contrariando as determinações do Concílio de Latrão, sendo norma apenas em meados do século XV.
Hoje, num momento de recuperação da história quase milenar de Portugal, num quadro mundial de radicalização, um olhar para a I Dinastia e para a forma como foi possível, numa clara contracorrente, proteger muçulmanos e judeus num novo reino cristão, mostra-nos que o convívio entre diferentes se encontra na matriz cultural desde tempos imemoriais.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
