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(A) :: "Dinheiro, medalhas e notoriedade à frente da segurança das crianças." A juíza que condenou Nassar diz que a ginástica continua "a falhar"

"Dinheiro, medalhas e notoriedade à frente da segurança das crianças." A juíza que condenou Nassar diz que a ginástica continua "a falhar"

Para Rosemarie Aquilina, a juíza que condenou Larry Nassar a 175 anos de prisão, a ginástica continua a não fazer o suficiente para proteger atletas no mundo inteiro. E a Human Rights Watch concorda.

Mariana Fernandes
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Foi há 10 anos, em 2016, que Larry Nassar foi preso e acusado de abusar sexualmente de mais de 250 jovens ao longo de duas décadas como médico da equipa feminina de ginástica dos EUA. Dois anos depois, foi condenado a um total de mais de 175 anos de prisão. Agora, seis anos após um julgamento muito mediático que contou com centenas de testemunhos impressionantes, a juíza que decidiu que iria passar o resto da vida na prisão garante que pouco ou nada mudou na modalidade. 

Rosemarie Aquilina, que também se tornou uma verdadeira celebridade durante o julgamento pela maneira atenta como ouviu todos os testemunhos e a forma assertiva e até agressiva como se dirigiu a Larry Nassar, esteve em Roterdão a participar num evento da organização Gymnasts for Change International e defendeu que o sucesso desportivo continua a ter prioridade em relação à segurança das atletas. 

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“O caso do Larry Nassar apareceu há 10 anos e desde aí aconteceram muito poucas mudanças significativas. Não estou à procura de mudanças pequeninas por que muitas pessoas recebem crédito. Quero mudanças significativas, muitas mudanças significativas. E ainda não estamos aí, nem no desporto, nem na vida, nem nos tribunais, nem nas salas de aula ou na legislatura. E temos de perguntar porquê. A resposta é sempre a mesma: dinheiro, medalhas e notoriedade à frente da segurança das crianças. E a segurança é um direito humano”, disse a juíza norte-americana na cidade dos Países Baixos onde estão a decorrer esta semana os Mundiais de ginástica.

Na mesma intervenção, Rosemarie Aquilina defendeu que a ginástica está “a falhar” às atletas. “Acho que está a falhar em praticamente tudo. O que eles fizeram no mundo inteiro é uma fachada para dizerem ‘olhem para nós, olhem para o que fizemos tão bem’, mas nem sequer estão a ser responsabilizados pelas coisas que não estão a fazer. A segurança é um direito humano e estas atletas continuam a sentir que não o têm, porque o desporto que adoram desaparece se se queixarem de alguma coisa. Ainda não avançámos o suficiente, de todo. E acho que não vamos ver mudanças enquanto eu for viva, acho que vai demorar décadas”, acrescentou.

As declarações da juíza surgem numa altura em que a World Gymnastics, a organização que regula a ginástica no mundo inteiro, está prestes a escolher um novo secretário-geral nas eleições marcadas para o final do ano. No mesmo evento, em Roterdão, uma advogada da Human Rights Watch explicou que as consequências que a modalidade acabou por ter na sequência do escândalo com Larry Nassar surgiram “da maneira errada”.

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“Por um lado, podemos medir os progressos na importância da voz das atletas e na advocacia, na proteção de quem quer denunciar casos, nas regras de segurança que foram anunciadas — ainda que as regras estejam lá, mas não sejam implementadas. Por outro lado, podemos medir o impacto que não teve na ginástica e que teve em todos os outros desportos. Entrevistei centenas de sobreviventes em cerca de 50 modalidades, de verão e inverno. 10 anos depois, a escala, a gravidade e a duração dos abusos de Larry Nassar causaram consequências no desporto. Mas essas consequências tiveram muitas vezes a forma errada, tomaram a forma da defesa”, disse Minky Worden.

O escândalo de abusos sexuais que teve Larry Nassar como protagonista funcionou aparentemente como um alerta para a necessidade de controlar e regular uma modalidade que não era segura para as jovens atletas — e que, no entender de Rosemarie Aquilina, continua a não ser. Logo em 2017, o Congresso dos EUA criou o US Center for Safe Sport, uma entidade independente dedicada a investigar denúncias de abuso sexual, emocional e físico em todas as modalidades olímpicas, com uma base de dados centralizada e o poder de suspender permanentemente treinadores e dirigentes.

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Adicionalmente, também nos EUA, foram aprovadas leis federais que tornaram obrigatória por lei a notificação imediata às autoridades de qualquer suspeita ou alegação de abuso sexual. Ao mesmo tempo, a USA Gymnastics estabeleceu várias normas: a “regra dos dois adultos”, passando a ser proibido que um adulto fique sozinho com um atleta menor em salas fechadas, quartos de hotel ou balneários, sem a presença visível de outro adulto autorizado; as instalações de treino foram obrigadas a manter portas abertas ou janelas de observação para que os treinos e os tratamentos médicos possam ser vistos por pais ou responsáveis; os exames e tratamentos dos atletas deixaram de ser geridos de forma independente por um único médico, com os protocolos clínicos e registos a serem agora partilhados.

Os norte-americanos abriram ainda mecanismos de denúncia diretos e anónimos fora do circuito da USA Gymnastics, para reduzir o receio de consequências, e fecharam acordos de indemnizações que superaram os 380 milhões de dólares no conjunto das centenas de vítimas. Para Rosemarie Aquilina e a Human Rights Watch, porém, as novas regras não são suficientes e muitas das medidas anunciadas, programadas e divulgadas nem sequer chegaram a ser implementadas. 

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Larry Nassar, atualmente com 63 anos, foi condenado a mais de 175 anos de prisão por abuso sexual, posse de pornografia infantil e tentativa de destruir ou esconder provas. Entre 1997 e 2016, enquanto foi médico da equipa feminina de ginástica dos EUA e também da Michigan State University, abusou sexualmente de 265 jovens atletas, incluindo Simone Biles, McKayla Maroney e Aly Raisman, três medalhadas olímpicas.

Depois da condenação, o médico começou por ficar na Penitenciária de Tucson, no Arizona, mas foi transferido para Coleman, na Flórida, após ser agredido. Em 2023, na sequência de mais uma agressão em foi mesmo esfaqueado no peito, nas costas e no pescoço, ficando com um pulmão colapsado, foi novamente transferido, para Lewisburg, na Pensilvânia, onde está atualmente.