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O Porquinho e os Lobos de pés de barro

Os lobos continuam a parecer perigosos, sobretudo à distância. Mas vistos de perto, percebe-se que também carregam fragilidades que não cabem na narrativa da sua própria força.

Francisco de Rhodes Sérgio
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No último artigo descrevi a Europa como um porquinho cercado por três lobos maus: Estados Unidos da Amárica, China e Rússia, cada um à sua maneira pressionando, explorando ou desafiando o projecto da União Europeia.

Mas há uma pergunta que ficou por fazer e que talvez seja ainda mais relavante: e se os lobos não forem assim tão ferozes?

Num mundo onde a percepção de força é muitas vezes tão importante quanto a força em si, olhar apenas para o poder dos outros e ignorar as respectivas fragilidades é meio caminho andado para a auto-desvalorização. E, nesse exercício, a Europa tem sido particularmente eficaz. A Europa é perita em subestimar-se e sobrestimar os outros.

Comecemos pela Rússia. A imagem projetada é a de uma potência agressiva. Mas por trás dessa postura está uma realidade estrutural muito mais limitada. Em 2025, o PIB nominal russo foi de cerca de 2,56 biliões de dólares, enquanto o PIB conjunto da União Europeia, foi de aproximadamente 21,2 biliões de dólares, mais de oito vezes superior. Trata-se além disso de uma economia pouco diversificada, altamente dependente de recursos fósseis e hoje cada vez mais orientada para o esforço de guerra.

A invasão da Ucrânia, que pretendia demonstrar força e alargar o seu perímetro de influência, acabou por expor fragilidades. Transformou a economia numa economia de guerra, isolou o país politica e tecnologicamente e acentuou a sua dependência da China. Ao mesmo tempo, a Rússia enfrenta um declínio demográfico significativo, agravado pela perda de uma geração de jovens homens, estejam eles mortos, feridos, traumatizados ou emigrados.

Internamente, trata-se de um sistema fechado, dominado por uma elite oligárquica, onde a corrupção é endémica e a liberdade de expressão limitada. A ausência de diversidade não é apenas um problema político, é um travão à inovação.

A Rússia pode intimidar mas dificilmente pode liderar.

Passemos à China. A escala impressiona: cerca de 1,4 mil milhões de habitantes e um PIB nominal de aproximadamente 19,5 biliões de dólares em 2025. Mas os sinais de tensão acumulam-se.

A população já começou a diminuir, entrando num inverno demográfico que pressiona o crescimento futuro e o tratamento privilegiado dado à etnia Han ameaça sufocar a diversidade de culturas e pensamento que as outras minorias presentes na China traziam. Apesar da dimensão económica, o PIB per capita continua muito abaixo do das economias avançadas e há uma desigualdade abissal entre o habitante das mega-cidades da costa leste e os habitantes rurais e das grandes planicies interiores.

A economia permanece fortemente dependente da indústria e das exportações, num momento em que o mundo procura reduzir dependências. Ao mesmo tempo, surgem fragilidades internas, nomeadamente no sector imobiliário, e uma crescente resistência externa, sobretudo na Ásia.

Mas talvez o maior risco seja outro: o excesso de controlo. Um sistema que controla a informação e limita o pensamento pode ser eficiente mas pagará um preço no longo prazo. A inovação não se decreta e a diversidade é fundamental para a exponenciar.

A China é poderosa mas não tem de ser hegemónica.

E depois há os Estados Unidos. Continuam a ser a maior economia do mundo e a principal potência militar. Em 2025, o seu PIB nominal foi de cerca de 30,8 biliões de dólares. Mas também aqui surgem fissuras.

A dívida pública é elevada e, embora o dólar continue a ser a principal moeda de referência mundial, o endividamento não poderá continuar a crescer ao ritmo atual indefinidamente sem provocar consequências económicas graves. O acesso aos cuidados de saúde continua a ser extremamente dispendioso e, no ensino superior, as universidades de maior prestígio tendem a cobrar propinas muito elevadas. Esta realidade exclui quem não dispõe de recursos financeiros suficientes ou obriga muitos estudantes a contrair dívidas avultadas, levando-os mais tarde a privilegiar os empregos mais bem remunerados em detrimento daqueles que lhes poderiam proporcionar maior realização pessoal e profissional.

O modelo social é também menos robusto do que o europeu e está mais exposto à volatilidade dos mercados. A forte ligação das pensões à evolução dos mercados de capitais cria incentivos perversos para uma procura incessante de criação de valor económico, muitas vezes à custa de outros valores e considerações e a desigualdade é uma das mais acentuadas entre economias avançadas.

A economia revela uma dependência crescente de um conjunto restrito de mega-empresas tecnológicas, concentrando investimento e risco. Ao mesmo tempo, políticas mais restritivas em relação à imigração podem comprometer um dos motores históricos do sucesso americano: a capacidade de atrair talento global. A isto junta-se uma polarização interna crescente, que levanta dúvidas sobre a estabilidade do sistema.

Os Estados Unidos continuam a ser um gigante mas já não são um gigante incontestado e inalcançável.

Há ainda uma fragilidade comum aos Estados Unidos e à China: a dimensão da aposta na inteligência artificial. Nos Estados Unidos, o investimento concentra-se num pequeno ecosistema de fabricantes de chips, plataformas e de cloud, grandes tecnológicas e empresas de modelos, ligados por participações cruzadas, contratos de fornecimentos e compromissos de compra. Na China, embora com maior intervenção do Estado a lógica competitiva é semelhante: mobilizar capital e construir capacidade antes que o rival conquiste uma vantagem considerada irreversível.

Esta corrida pode produzir ganhos reais de produtividade, mas também contém uma lógica de sobre-investimento. Se as receitas futuras não justificarem o volume de centros de dados, chips, energia e dívida mobilizados, uma correcção das avaliações poderá propagar-se entre empresas financeiramente interdependentes, destruir riqueza e travar o investimento.

O risco não se limita ao eventual rebentamento de uma bolha, embora só as Magnificent 7 (NVIDIA, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta, Apple e Tesla) já representem cerca de 1/3 do S&P 500, que é o maior e mais importante indice bolsista do mundo. Enquanto o capital, o crédito, a energia e o talento convergam para a IA, outros sectores potencialmente produtivos ficam preteridos. As duas maiores potências podem, assim, estar a financiar simultaneamente a próxima revolução tecnológica e a vulnerabilidade que surgirá se as expectativas forem maiores do que os resultados.

Assim, talvez o erro esteja, desde o início, na forma como a Europa faz a comparação. Olha para os outros e vê força. Olha para si própria e vê fragilidade. Mas raramente se detém a perguntar o preço dessa força.

Os Estados Unidos lideram mas a um custo interno crescente e com uma perda inexorável de prestígio e respeito externo. A China cresce mas cada vez mais condicionada por um sistema rígido. A Rússia assusta militarmente mas à custa de isolamento e regressão económica e de politica externa.

Nenhum destes modelos é gratuito e talvez seja precisamente aí que reside o equívoco europeu. Durante demasiado tempo a Europa habituou-se a confundir moderação com fraqueza e compromisso com incapacidade.

Num mundo cada vez mais dominado por excessos de poder, controlo e conflito, a própria estrutura da União Europeia, incluindo a ausência de uma verdadeira união política, pode parecer menos estável. No entanto, essa aparente fragilidade poderá reforçar a sua capacidade para equilibrar interesses e absorver choques de forma menos vistosa, mas mais sustentável.

A Europa não é perfeita, longe disso, mas é, cada vez mais, uma exceção. E as exceções, em contextos extremos, tendem a tornar-se referências. Talvez por isso a questão certa não seja se a Europa vai conseguir alcançar os outros mas sim quando é que os outros vão começar a ter dificuldade em sustentar-se a si mesmos.

Os lobos continuam a parecer perigosos, sobretudo à distância. Mas vistos de perto, percebe-se que também carregam fragilidades que não cabem na narrativa da sua própria força.

E talvez o maior erro da Europa não seja ter medo deles mas sim o convencer-se incapaz de reagir perante esse medo. No dia em que a Europa se convencer de que é tão ou mais forte e capaz do que os lobos que a perseguem talvez o(s) predador(es) e a presa invertam a posição.