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O mal-estar europeu: quando a democracia deixa de prometer um futuro melhor

O maior risco para a democracia europeia não é apenas a desconfiança nos políticos. É a perda de esperança de que a política ainda possa construir um futuro melhor.

Paulo Finuras
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Não é muito difícil perceber que há um mal-estar profundo a atravessar as sociedades europeias ocidentais.

E não, não se explica apenas pela inflação, pela crise da habitação, pela imigração, pelas guerras ou pela instabilidade política. Todos estes fatores contam. Mas a minha hipótese é que estamos perante algo mais profundo, ou seja, estamos a viver uma crise de confiança no futuro e na capacidade das instituições democráticas para o melhorar. E isto é grave.

Durante décadas, as democracias europeias assentaram numa promessa relativamente simples que consistia em trabalhar, estudar e cumprir as regras, o que permitiria construir uma vida melhor e proporcionar aos filhos mais oportunidades do que aquelas que os pais tiveram.

Hoje, essa promessa está a perder credibilidade.

Temos jovens qualificados que não conseguem autonomizar-se, pessoas que trabalham e continuam pobres, classes médias que receiam perder o estatuto conquistado e cidadãos que se perguntam se quem decide ainda conhece a realidade de quem suporta as consequências dessas decisões.

Entretanto, os governos continuam a anunciar crescimento, prosperidade e progresso. Mas os indicadores macroeconómicos não pagam rendas, não garantem mobilidade social e não devolvem, por si só, a confiança no amanhã.

Uma economia pode crescer enquanto a esperança no futuro diminui. E essa contradição tem consequências políticas profundas.

Na Ciência Política, David Easton distinguiu o apoio específico aos governantes do apoio difuso ao próprio sistema político. Esta distinção é, penso eu, fundamental para compreender o atual mal-estar europeu.

Uma coisa é estar descontente com um governo. Outra, muito mais grave, é começar a duvidar de que o próprio sistema democrático consegue resolver os problemas essenciais da sociedade.

No primeiro caso, a alternância política oferece uma resposta. No segundo, é a própria legitimidade das instituições que começa a ser questionada.

E é aqui que a crise económica e social se transforma numa crise de representação e confiança política.

O problema não é apenas aquilo que os cidadãos têm, mas a distância entre aquilo que legitimamente esperam alcançar e aquilo que acreditam ser possível. É o mecanismo da privação relativa, estudado por Ted Robert Gurr, que ajuda a explicar por que razão sociedades materialmente mais prósperas podem, ainda assim, produzir sentimentos intensos de frustração.

Quando as expectativas de progresso deixam de encontrar correspondência nas oportunidades reais, instala-se nas pessoas a perceção de que o contrato social deixou de funcionar.

E quando os cidadãos começam a acreditar que as instituições já não respondem às suas necessidades, abre-se espaço para discursos políticos que prometem romper com o sistema.

É aqui que o populismo encontra parte do seu terreno fértil. Como explica Cas Mudde, assenta numa oposição entre um povo apresentado como virtuoso e elites consideradas corruptas ou distantes. Oferece explicações simples para problemas complexos, identifica responsáveis e promete devolver aos cidadãos um controlo que sentem ter perdido.

Naturalmente, o mal-estar europeu não tem apenas causas económicas. As transformações culturais, a imigração, as identidades nacionais e os conflitos de valores também contam, como demonstram Pippa Norris e Ronald Inglehart.

Mas há um elemento que atravessa muitas destas tensões que se traduz na sensação de perda de controlo sobre o próprio futuro.

Importa, contudo, não confundir insatisfação política com rejeição da democracia. Muitos cidadãos continuam a valorizar as instituições democráticas, embora estejam profundamente descontentes com o seu funcionamento e com os resultados que produzem.

É precisamente esta distinção que deveria preocupar os responsáveis políticos.

A democracia não vive apenas de eleições, procedimentos e garantias constitucionais. Vive também da confiança de que a participação política pode produzir mudanças reais e de que as instituições são capazes de responder às necessidades dos cidadãos.

Por isso, a resposta ao mal-estar europeu não pode limitar-se a melhores indicadores económicos ou a discursos sobre crescimento. Exige recuperar a credibilidade do contrato social, assegurar oportunidades efetivas de mobilidade, responder à crise da habitação, reforçar a justiça entre gerações e aproximar as decisões políticas da realidade de quem vive com as suas consequências.

Sobretudo, exige devolver aos cidadãos a convicção de que o futuro não está condenado a ser pior do que o passado.

O maior perigo para as democracias europeias talvez não seja os cidadãos deixarem de acreditar nos políticos. É deixarem de acreditar que a política democrática ainda pode melhorar as suas vidas. É que, quando o futuro deixa de ser uma promessa credível, o passado pode transformar-se numa tentação. E é nesse terreno que a nostalgia política, as soluções simplistas e as promessas de regresso a um tempo supostamente melhor encontram condições para prosperar.

Uma democracia pode sobreviver à impopularidade dos seus governantes. Muito mais difícil será sobreviver à perda generalizada de confiança na sua capacidade de construir um futuro melhor.

E talvez seja precisamente aqui que reside a dimensão mais profunda do atual mal-estar europeu, o que nos coloca perante uma questão inquietante. Que destino poderá ter a democracia na Europa se os cidadãos deixarem de acreditar que as próximas gerações poderão viver melhor do que as anteriores?

Deixo a pergunta. Não tenho respostas.