Ao refletir sobre os conflitos civis que dilaceravam as cidades gregas, Tucídides deteve-se numa transformação menos visível do que a violência dos combates. Naquelas páginas do livro III da História da Guerra do Peloponeso, escritas a propósito dos acontecimentos de Córcira, a fidelidade à fação começava a governar o julgamento e, inadvertidamente, a audácia irrefletida passava por coragem, a hesitação prudente era recebida como cobardia e, por sua vez, a moderação tornava-se suspeita. E mais do que de avaliar uma conduta, importava saber a quem se servia.
A distância histórica impede equivalências fáceis. Permanece, todavia, uma pergunta incómoda. Que espaço resta para pensar quando reconhecer uma razão ao adversário começa a parecer uma falta de lealdade?
O debate entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, realizado na Bandeirantes em 18 de outubro, oferece matéria para essa reflexão. Na cobertura publicada no dia seguinte, a própria estação descreveu um encontro dominado por ataques pessoais, acusações de corrupção e provocações envolvendo familiares, com pouco espaço para propostas concretas. Registou também o uso da expressão «malandro carioca», dirigida por Lula ao adversário. Noutra notícia de 19 de outubro, relatou as intervenções da plateia que obrigaram os moderadores a pedir silêncio repetidamente.
Ressalvo, contudo, que houve discussão de políticas públicas. A Agência Brasil, em notícia de 19 de outubro, deu conta das posições dos candidatos sobre a jornada de trabalho de seis dias com um de descanso, a segurança pública e as relações com os Estados Unidos. Seria desonesto apagar essas passagens para obter um retrato inteiramente sombrio. Igualmente seria conveniente para os candidatos afastar perguntas sobre suspeitas de corrupção sob o pretexto de elevar a conversa. Ora, quem pretende governar deve explicações sobre a sua conduta, as suas relações e o exercício anterior de responsabilidades.
A questão está no destino dado a esse escrutínio. Uma pergunta pode obrigar a esclarecer factos, revelar uma contradição ou tornar visível a fragilidade de uma proposta. Pode ainda fornecer apenas o pretexto para uma provocação cuja eficácia se esgota na satisfação dos apoiantes. No primeiro caso, o eleitor adquire elementos para julgar; no segundo, recebe um sinal de pertença, acompanhado da indicação de quem merece o seu desprezo.
É nesse diapasão que convencer e recrutar tornam-se dois verbos esclarecedores.
Quem procura convencer aceita dirigir-se a uma liberdade que não controla. Tem de encontrar razões capazes de atravessar a distância entre experiências, interesses e convicções diferentes, sabendo que o interlocutor poderá recusá-las e talvez formular uma objeção que mereça resposta, o que importa admitir uma vulnerabilidade nessa disposição dado que expomo-nos ao julgamento de alguém que não está obrigado a confirmar aquilo que pensamos de nós próprios.
O recrutamento, por outro lado, procura uma adesão e a disponibilidade para servir uma causa. Faz parte da vida dos partidos e, é claro, pode resultar de uma escolha refletida. Ademais, esse é o ideal. Mas, à medida que o recrutamento absorve a comunicação política, altera aquilo que se espera das palavras e acaba por ser mais importante mostrar que se está do lado certo do que explicar por que razão determinada escolha será melhor para o país.
Um debate presidencial permite observar essa mudança com particular nitidez, pois reúne públicos diferentes diante do mesmo acontecimento. Há quem procure confirmar uma preferência antiga, quem deseje ver o adversário humilhado e quem ainda espere compreender o que distingue os candidatos. A responsabilidade destes últimos deveria alcançar também esse eleitor menos disponível para o aplauso, que acompanha uma resposta, percebe uma evasiva e gostaria de saber como uma promessa poderá ser cumprida.
Sem embargo, a certa altura, o debate parece organizado para lhe testar a paciência.
Quem o assistiu, viu que o episódio da plateia é revelador. Aos que não viram, recomendo que o busquem na rede. É um caso de estudo da ciência da comunicação. Os apoiantes convidados para assistir ao confronto acabaram por dificultar a audição das intervenções que ali deveriam ser examinadas. A claque introduz no estúdio uma medida imediata de sucesso, feita de aplauso, ruído e capacidade de perturbação. Sob essa pressão, uma frase pode valer pelo incómodo que provoca no outro campo, mesmo quando nada acrescenta à compreensão do assunto. Daí que haja uma recompensa instantânea para a agressividade e uma recompensa muito mais incerta para a explicação paciente.
O insulto participa dessa economia, por evidente. Chamar «malandro» ao adversário dispensa, naquele instante, o trabalho de demonstrar uma acusação concreta e oferece uma personagem pronta, que os próprios reconhecem e os outros rejeitam. Depois de fixadas as personagens, torna-se mais difícil escutar o que dizem. Cada palavra chega ao público com o seu veredicto antecipado.
Importa insistir na distinção, porque a crítica à degradação do debate não pode transformar-se numa exigência de delicadeza perante tudo. Sou favorável a que uma falsidade deva ser desmentida com firmeza, uma suspeita fundada demande um esclarecimento convincente e uma proposta inconsistente mereça ser exposta, pois a qualidade democrática da confrontação depende da possibilidade de examinar o que foi dito, incluindo a prova apresentada e a resposta recebida. A dureza pode servir esse exame, mas a humilhação, ao revés, procura encerrá-lo.
Creio que devemos estar todos advertidos dessa viragem disseminada no nosso tempo, quando as emoções começam a ocupar o lugar das razões. A indignação tem força moral quando nos desperta para uma injustiça, não obstante perde exigência quando se basta com a identificação de um culpado. Do mesmo modo, a compaixão deveria tornar-nos mais atentos aos efeitos das políticas defendidas em nome dos que sofrem. Mesmo uma promessa comovente continua a precisar de meios, prioridades e uma avaliação séria das consequências. E quem pergunta por eles pode estar a levar o sofrimento mais a sério do que quem se contenta em o invocar.
A polarização encontra condições favoráveis neste modo de fazer política. Mantém os apoiantes mobilizados e permite interpretar cada dificuldade como resultado da perversidade alheia. Para alguns protagonistas, uma aproximação pode até representar uma perda, porque enfraquece a ameaça de que depende a coesão do grupo. O cidadão é chamado a escolher um campo antes de conhecer suficientemente as escolhas que esse campo lhe propõe, quase que numa lógica agonística de futebol.
Talvez por isso o diálogo se torne dispensável antes mesmo de chegar a fracassar. Conservam-se os turnos, as perguntas e o cenário televisivo, enquanto a atenção se concentra na frase que circulará entre apoiantes, a “lacração” própria da influência das redes sociais que dominaram a política. O adversário permanece diante de nós, mas já não é alguém a quem respondemos. Fornece a ocasião para falarmos aos nossos, o que amplia nossas câmaras de eco. Multiplica-as.
A questão, sem embargo, é que democracias precisam de decidir entre projetos concorrentes e não devem recear o conflito. Precisam também de conservar o cidadão que hesita, compara, muda de opinião ou reconhece mérito numa proposta de quem não pretende eleger. Essa independência torna o governo mais difícil e a propaganda menos eficaz. É, ainda assim, uma das condições da liberdade política.
Tucídides descreveu uma sociedade em que a prudência se tornara suspeita. A nossa inquietação, por seu lado, começa quando a dúvida já não encontra lugar num debate e quem pede uma razão é recebido como alguém que ainda não percebeu de que lado deve estar.