Ao fim de alguns anos a escrever sobre temas políticos, é inevitável desenvolver um certo cinismo, que se revela na sensação de não haver nada a aprender com a política portuguesa. Eis senão quando, surpresa, é marcada a data para o julgamento de José Sócrates. Depois de uma vida inteira a acreditar que o Dia de São Nunca era apenas uma expressão popular, chegou o esclarecimento: afinal, 30 de Outubro é o célebre Dia de São Nunca.
É verdade que, nos tempos que correm, quase ninguém se lembra da existência de José Sócrates. Não só é verdade como é imerecido. O legado do “engenheiro” é de tal modo imorredoiro que, neste momento histórico, volta a ser o epicentro das problemáticas mais explosivas. Uma das polémicas mais engraçadas em torno do ex-primeiro-ministro foi a novela da casa de Paris. Portanto, temos “casa” e temos “Paris”: uma só polémica engloba a habitação e a Cidade Luz Resultante dos Inúmeros Carros e Lojas Incendiados. É uma matriosca de polémicas (e não me façam falar de como “matriosca” remete para o facto de, desde o início da guerra, a União Europeia ter gasto mais dinheiro a comprar combustíveis à Rússia do que a apoiar a Ucrânia).
O que importa é que Paris está linda nesta época do ano: as folhas das árvores ficam vermelhas e as avenidas também, inundadas pelos agitadores marxistas. O meu grande receio é que estes protestos pela melhoria das condições do ensino, cujos raríssimos episódios de ligeira violência se contam pelos dedos de uma mão (daquelas com dedos que ainda não foram arrancados pela explosão de uma granada), provoquem uma onda — aí sim — de violência de extrema-direita, com vandalismo bárbaro, antissemitismo e pilhagem. Ui, isso seria medonho.
Mas, felizmente, Paris continua deslumbrante. E barata, presumo. Não só os hotéis devem estar com óptimas promoções — tipo “tudo incluído, incluindo um vislumbre de férias em Mogadíscio” — como, nesta altura, não se justifica uma ida à Disneyland. Se a ideia é ver o trabalho de bonecos apalhaçados (sem ofensa para o Rato Mickey), basta passear pelas ruas da capital francesa e apreciar o resultado de anos de empenhada labuta globalista do boneco Macron (e, sejamos justos, da generalidade dos seus apalhaçados antecessores desde, sei lá, o Mitterrand).
Mesmo com a globalização, muita coisa continua a chegar atrasada a Portugal. E tratando-se de uma espécie de — ainda é necessário dizer “espécie de”? — revolução-invasão marxista-islamista, eu diria que é como o banho para o típico campista do Rossio e Praça de D. João I: quanto mais tarde, melhor. E isto se tiver mesmo de ser, que não faço questão. E há sempre o champô seco.
Agora, sendo verdade que, de momento, “só” tivemos acampadas e grandoladas que por vezes redundam em cassetetadas, não é menos verdade que seria um erro crasso ignorar o testemunho histórico que Dino Meira nos legou há décadas: “Ainda ontem estava em França e agora já estou cá”. O saudoso autor de “Voltei, Voltei” deixou um pertinente alerta sobre a impressionante rapidez com que qualquer coisa chega cá vinda de França.
Ainda assim, uma rapidez patética quando comparada com a velocidade com que António Costa foi apanhado na monumental peta de 2018 das casas para todos os portugueses nos 50 anos do 25 de Abril. É tipo corrida entre o novo semi-foguete Tesla Roadster e o ressuscitado e deprimente Citroën 2CV.
Mais deprimente só se os que agora se queixam histericamente da falta de casas tivessem o discernimento necessário para concluir que foram, eles próprios, dos principais culpados pelo actual estado comatoso do sector imobiliário. Se os geringonceiros dos adicionais ao IMI, do nunca suficientemente balofo Estado e da orgia imigratória se olhassem ao espelho, aí sim ficariam deprimidos. E assustados. O que até calhava bem, com o Halloween à porta.