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(A) :: Para entrar pelo Porto, tive de passar por Lisboa

Para entrar pelo Porto, tive de passar por Lisboa

Não retiro uma vírgula ao que escrevi. O Porto continua a ser a melhor entrada. Só que, desta vez, para entrar pelo Porto tive de passar por Lisboa

Diogo Pasuch
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Desta vez escrevo de cá. Mais precisamente, da redação do Observador, em Lisboa, numa secretária emprestada e rodeado de quem faz este jornal todos os dias.

Em setembro escrevi neste espaço um texto chamado «Amo Portugal, e é por isso que entro pelo Porto». Defendia que o Francisco Sá Carneiro se tinha tornado a melhor porta de entrada do país. O destino, que tem um sentido de humor muito próprio, decidiu pôr-me à prova logo na chegada.

O avião chegou ao Porto e não aterrou. Fez órbitas, umas atrás das outras, enquanto os passageiros trocavam olhares e o relógio fazia o seu trabalho. Ao fim de algum tempo, rumámos a Lisboa. Aterrámos no Humberto Delgado, o aeroporto sobre o qual já escrevi mais do que gostaria, e ali ficámos duas horas, sem sair do avião, apenas à espera de autorização para regressar. Depois, novo voo para o Porto. Já em terra, as malas levaram ainda uma hora e quarenta e cinco minutos a aparecer no tapete.

Não retiro uma vírgula ao que escrevi. O Porto continua a ser a melhor entrada. Só que, desta vez, para entrar pelo Porto tive de passar por Lisboa, e sem sequer pôr os pés em Lisboa, o que, pensando bem, resume meio século de política aeroportuária portuguesa.

Valeu a pena cada minuto. Rever amigos de muitos anos tem um efeito que nenhum atraso consegue estragar. O Paulo, o João, a Rosa e o António, pais do Paulo, que me recebem como se eu nunca tivesse partido. Há conversas que ficam suspensas durante anos e recomeçam a meio da frase, como se alguém tivesse apenas carregado na pausa.

E há o Observador. Conhecer por dentro a casa onde estes textos são publicados é uma honra, e digo-o sem a cerimónia que a palavra costuma carregar. Uma coisa é enviar uma coluna por e-mail a partir do Rio Grande do Sul ou da Cidade do Cabo. Outra é escrevê-la aqui, no meio da redação, das pessoas e do ritmo de quem faz um jornal todos os dias. Ganha-se outro respeito pelo trabalho que o leitor não vê.

Era sobre a TAP que tencionava escrever esta semana. A venda à Lufthansa merece-o, e os números estão alinhados, do múltiplo ao valor dos slots, do hub à opção sobre a segunda fase. Mas os amigos, a boa comida e as conversas que se arrastam até tarde convenceram-me a adiar. A TAP fica para depois. O leitor não perde nada com a espera, a TAP espera há décadas por um destino e umas semanas a mais não lhe fazem diferença.

Deixo apenas uma nota de rodapé, oferecida pelo próprio voo. A Lufthansa acaba de comprar uma companhia cujo valor depende de um hub em Lisboa, num país onde, num dia qualquer de outubro, um avião pode dar voltas ao Porto e ir esperar à Portela. Voltaremos a isto.

Esta segunda-feira, dia 19, antes de chegar à redação, participei ao vivo no Contra-Corrente, da Rádio Observador, com a Helena Matos, a quem agradeço o convite. O tema foram as eleições no Brasil, a uma semana da segunda volta. O que já se pode concluir, o que dizem as sondagens e qual instituto mais acertou na primeira volta, e o que mostram as ruas, que nem sempre coincidem com as folhas de cálculo dos institutos.

No domingo, 25 de outubro, o Brasil volta às urnas. É provável que a próxima coluna vá por aí. Um país com mais de 200 milhões de habitantes escolhe o rumo dos próximos quatro anos, e Portugal, onde vivem hoje mais de meio milhão de brasileiros, tem mais razões do que nunca para prestar atenção.

Até lá, fico por cá. Cheguei com horas de atraso e sem vontade nenhuma de partir.