Desde A Morgadinha de Vale d’Amores e O Morgado de Fafe em Lisboa, ambos de 1957, que a televisão (leia-se: a RTP) tem sido bem mais pródiga a adaptar livros de Camilo Castelo Branco do que o cinema português, que apesar da vastíssima obra do autor, teima em embicar para Amor de Perdição (cinco adaptações até hoje, três delas mudas, incluindo a de Georges Pallu em 1921, com três horas de duração, mais a clássica de António Lopes Ribeiro em 1943 e a controversa de Manoel de Oliveira em 1979, esta também com versão para televisão). Tiveram que ser realizadores estrangeiros a sair deste ramerrame: Raúl Ruiz com Mistérios de Lisboa, em 2010, e a sua viúva, Valeria Sarmiento, com O Caderno Negro, em 2018.
Foi durante a sua prisão na Cadeia da Relação do Porto, entre 1 de outubro de 1860 e 16 de outubro de 1861, sob acusação de adultério com Ana Plácido, que ali esteve encarcerada ao mesmo tempo, que Camilo escreveu Amor de Perdição, baseando-se numa história de família. E temos, finalmente, uma adaptação de Memórias do Cárcere, pela mão de Sérgio Graciano, livro escrito por Camilo (interpretado por Albano Jerónimo) em 40 dias após a sua libertação. Nele, o autor de A Queda de um Anjo deixou o vívido e pungente testemunho do seu encarceramento, retratando ainda as difíceis condições de vida naquela cadeia e dando uma ideia da justiça que se fazia em Portugal pelos meados do século XIX.
[Veja o “trailer” de ‘Memórias do Cárcere’:]
https://www.youtube.com/watch?v=1Kj3Zone5M0
Em Memórias do Cárcere, Camilo não se limita a falar de si e das suas penas. Conta também histórias, muitas, quase sempre trágicas, mas também uma ou duas cómicas, de outros presos e do famoso e temido bandoleiro José do Telhado, formando assim “uma coleção de desgraçados, incluindo o próprio romancista, como sempre preso na maior vocação, falar dos outros”, como escreveu Abel Barros Baptista. O argumento de Memórias do Cárcere foi o último escrito pelo falecido Carlos Saboga, que o “herdou” de um trio de guionistas anterior, e lhe deu uma personalidade mais cinematográfica.
As quase três horas de Memórias do Cárcere (que será também uma série de televisão em cinco episódios) não chegam para tudo o que Camilo conta no livro. Mas esta adaptação, que inclui algumas peripécias contadas no “Discurso Preliminar” da obra, quando ele andava a monte antes de se ir entregar ao Porto, é-lhe bastante fiel, e estruturalmente bem composta. E não toma liberdades abusivas nem introduz anacronismos ditados por agendas contemporâneas que comprometam a narrativa (embora a transformação, de minhoto para africano, no início da fita, do arrieiro que acompanha o escritor quando ele vai para a quinta do seu grande amigo Vieira de Castro, mais a valente moça que carrega o baú, fosse dispensável).
O cenário da própria Cadeia da Relação é plenamente aproveitado pelo realizador, do ponto de vista cinematográfico e como pesado e claustrofóbico centro de gravidade dramático, entre as enxovias miseráveis em que se amontoavam os mais pobres, e as celas individuais, os “quartos da malta”, onde eram instalados os presos mais ilustres e afortunados. Era um ambiente sinistro, malsão e deplorável, que levou o Rei D. Pedro V, quando da sua primeira visita à Cadeia da Relação, e à cela de Camilo (visita essa que Sérgio Graciano recria), a dizer que o edifício precisava de ser “completamente arrasado”.
Neste espaço limitado e sombrio, duro, frio e insalubre, que mexe com o corpo e a cabeça de quem lá está encerrado, Camilo convive com os outros presos, e ouve e regista as suas histórias (destaque-se, entre as mais comoventes, a do falsário António José Coutinho e da sua fiel cadelinha – Camilo gostava muito de animais), cisma sobre a vida, pensa em Ana Plácido, fechada no pavilhão das mulheres, sente intensamente a solidão e a privação de liberdade, mortifica-se e escreve. Graciano capta o feitio e as disposições interiores do escritor, tocados pela situação e pelas suas circunstâncias, e sublinha, articula e expõe com subtileza os seus estados emocionais e de espírito.
O realizador disse numa entrevista à Agenda Cultural de Lisboa que quis “criar um Camilo mais humanizado, próximo de nós”. O Camilo do seu filme é sem dúvida humaníssimo, mas a verdade é que pela sua abundante obra, que sempre foi popular e muito lida (foi o primeiro escritor português a viver da pena, e muito escreveu para poder comer e alimentar os seus) pelo menos até há poucos anos, e pela turbulenta biografia, sobretudo a sua agitada e escandalosa vida amorosa, e ainda pelo trágico fim, Camilo sempre esteve muito próximo dos seus leitores e admiradores, nunca distante deles ou acima, num qualquer pedestal.
O elenco é consistente e harmonioso, e toda a gente está bem encaixada nas respetivas personagens (João Pedro Vaz, em António José Coutinho, e Marcelo Urgeghe, no morgado autoritário e de gatilho fácil, são particularmente bons), mesmo que Maria João Bastos seja bonita demais para personificar Ana Plácido. Camilo Castelo Branco não era um homem encorpado e vistoso como Albano Jerónimo, a quem raras vezes o argumento permite ativar a faísca temperamental do escritor (que era picado das bexigas, literalmente e na índole) e há alturas em que cai num tom monocórdico, mas acabamos por nos acomodar a ele com o correr do filme.
Não devo estar enganado se escrever que Camilo não avançaria de bengala ao alto nem engatilharia a clavina perante esta representação fílmica de Memórias do Cárcere. A fita de Sérgio Graciano sobressai e faz boa figura perante as mediocridades comerciais, as inanidades autorais, os raquitismos político-ideológicos e os verbos de encher do cinema nacional. Venham mais filmes sobre livros do escritor na senda deste, porque matéria é o que não falta. (Que fita de estalo não daria A Queda de um Anjo, uma obra ainda hoje com atualidade). Haja liberdade para Camilo Castelo Branco no cinema português.