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Bugalho perde guerra com Weber e falha eleição como vice-presidente da bancada do PPE

Bugalho falhou a eleição para vice-presidente do PPE. Pela primeira vez em 22 anos, Portugal não tem um vice-presidente da bancada. Eurodeputado assume responsabilidade "pessoal".

Rui Pedro Antunes
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O eurodeputado português Sebastião Bugalho falhou a eleição para vice-presidente do grupo do Partido Popular Europeu, a maior bancada do Parlamento Europeu. Depois de uma guerra fratricida no grupo parlamentar e a oposição do presidente Manfred Weber, Portugal perde pela primeira vez em 22 anos um cargo que garantiu até quando estava na oposição a nível nacional. Ao Observador, o eurodeputado e porta-voz do PSD assume todas as responsabilidades pela derrota: “Foi uma candidatura pessoal e é, por isso, um resultado exclusivamente pessoal”.

Sebastião Bugalho, que substituiu Lídia Pereira como o candidato português, enfrentou problemas devido à quota de género e também foi alvo de um email falso a apelar ao não voto nele — que já está a ser investigado pelo Parlamento Europeu e pelas autoridades belgas.

Montenegro sempre quis Bugalho (em vez de Lídia)

Sebastião Bugalho enfrentou uma campanha muito atribulada numa guerra fratricida na bancada do PPE. Tudo começou em 2024, quando o então cabeça de lista foi eleito pela primeira vez deputado ao Parlamento Europeu. Na altura, as indicações de Lisboa já eram para que o antigo jornalista fosse o candidato de Portugal à vice-presidência da maior bancada do Parlamento Europeu, mas a delegação e a direção nacional fizeram as contas e chegaram à conclusão de que Bugalho teria mais dificuldades em ser eleito (por ser pouco conhecido e ser homem) do que Lídia Pereira, que não só foi presidente da estrutura juvenil do YEPP como era da confiança de Manfred Weber. Ficou então combinado que Bugalho esperaria até aos midterms do PPE e seria o candidato à vice-presidência em 2026.

Apesar do que a delegação portuguesa tinha combinado e conversado com o alemão, Weber quis recandidatar todos os seus 10 vice-presidentes, incluindo Lídia Pereira. Como Bugalho assumiu as funções de vice-presidente e porta-voz do PSD nacional (o que mais tarde seria utilizado contra ele), houve a expectativa junto da trupe de Weber que o português se desinteressasse pelo cargo de vice-presidente. O status quo do partido alimentou a possibilidade de Lídia Pereira vir a ser candidata, até por ter mais hipóteses, o que ficou sempre de ser acertado entre Paulo Cunha e o primeiro-ministro.

Luís Montenegro confirmou que mantinha a decisão de indicar Bugalho, para “apostar no perfil europeu” do eurodeputado, numa breve reunião com o chefe de delegação, Paulo Cunha, a 6 de outubro, quando foi discursar ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Lídia Pereira, que tinha tido 154 votos em 2024, naturalmente desistiu de se candidatar. Horas depois, Sebastião Bugalho enviou um email a todos os eurodeputados do PPE a anunciar que era candidato. Ao que o Observador apurou, o email foi, em muitos casos, personalizado.

A oposição de Weber, o email falso e a saída das urgências

Manfred Weber terá ficado furioso não só com Bugalho, mas com as outras duas challengers que apareceram — embora fossem uma oportunidade para substituir a portuguesa e manter a quota de género. A saída de cena de Lídia Pereira foi uma oportunidade para a Hungria e a República Checa apresentarem duas candidatas: a húngara Eszter Lakos e a checa Danuše Nerudová. No caso dos vice-presidentes, por uma questão de equilíbrio de género, pelo menos quatro dos 10 têm de ser do sexo minoritário. O grupo poderia ter dispensado esta condição, mas na terceira volta e em condições muito específicas. O género foi também um obstáculo para Bugalho, que necessitaria de destronar um dos seis vice-presidentes homens.

Na última quinta-feira, o jornal Politico recebeu um e-mail anónimo alegadamente enviado pelo candidato a vice-presidente Andrzej Halicki, a incitar os colegas a rejeitar a candidatura do português Sebastião Bugalho. O próprio Halicki desmentiu ser o autor do email e houve vários deputados que nunca viram o email. Entretanto, não só o Parlamento Europeu como as autoridades belgas estão a investigar a origem do email.

Bugalho enfrentava logo um problema de princípio. Os húngaros, desde que são Governo (têm os mesmos sete eurodeputados que Portugal), têm insistido em ter uma vice-presidência. Com uma candidata mulher, alimentam a esperança de substituir a vaga de Lídia Pereira, logo não tinham vantagem em votar em Bugalho. Os franceses não terão votado em Bugalho (para proteger o seu candidato, Bellamy), os alemães (a mando de Weber) e os polacos também não. Sem França, Alemanha e Polónia, a eleição é sempre difícil. Espanha terá votado em Sebastião, até porque Lisboa e Madrid têm uma aliança histórica no PPE. Mas não chegou.

Outro dos argumentos utilizados contra Bugalho foi o facto de ter largado uma das responsabilidades que tinha no PPE. Antes do Congresso do PSD, o eurodeputado avisou que não teria tempo para continuar como coordenador dos relatórios de urgência do PPE, função em que o eurodeputado tem de produzir posições em nome do grupo em situações de urgência (como crise espontânea em Ceuta, por exemplo). Até sair, Bugalho produziu 69 relatórios. O Observador sabe que, na verdade, Bugalho também se queria dedicar ao processo legislativo.

Do lado oposto da barricada os eurodeputados da fação de Weber contestam a posição de Bugalho: “Não teve tempo para as urgências, mas tem tempo para ser vice-presidente.” A decisão, explicam ao Observador, “caiu mal” entre alguns eurodeputados. Os que estão ao lado do português desvalorizam, lembrando que os dois cargos têm exigências diferentes.

Os opositores de Bugalho alegam também que o português “confiou demasiado nas démarches feitas pelo primeiro-ministro do país dele” e que “se centrou mais nas conversas com chefes de delegação do que propriamente com todos os eurodeputados”. No último encontro de eurodeputados do PPE, uma espécie de jornadas parlamentares em Itália, comentava-se que Bugalho parecia “pouco à vontade a encetar conversas”. Já do lado dos apoiantes de Bugalho nega-se essa versão, já que o português terá não só “enviado email a todos os eurodeputados, como até conversou pessoalmente com todos os que integram as comissões em que está”. Além disso, garantem as mesmas fontes, “até foi mais Paulo Cunha a falar com os chefes de delegação”.

“Bizarro”. Uma perda para Portugal (mas sem drama)

Portugal é, ex-aequo com a Hungria e a Grécia, o sexto país mais representado (com sete deputados) da bancada PPE, o maior grupo do Parlamento Europeu. Só Alemanha (com 31), Polónia (com 23), Espanha (com 22), Roménia (com 10) e Itália (com 9) têm mais eurodeputados que Portugal no grupo. França, em tempos poderosa no PPE, tem atualmente apenas cinco eurodeputados no grupo do PPE, mas Bellamy usufrui da força de ser de um grande país.

Como são 10 vice-presidentes, o mais normal seria Portugal ser eleito. No próprio partido, o PPE, Portugal mantém a vice-presidência com Paulo Rangel. Mas na bancada perde assim pela primeira vez em 22 anos o cargo de vice-presidente.

Entre 2024 e o dia de hoje a vice-presidente foi Lídia Pereira. Entre 2009 e 2024, Paulo Rangel assumiu as funções (que acumulou em quase todo o tempo com a vice-presidência do partido). Antes disso, entre 2004 e 2009, João Deus Pinheiro também foi vice-presidente da bancada. Nos cinco anos anteriores (1999-2004), Portugal não teve a vice-presidência do grupo, mas entre 1997 e 1999 Mário David foi secretário-geral da bancada (e foi durante nove anos vice-presidente do partido) e Pacheco Pereira foi vice-presidente do Parlamento Europeu durante todo esse mandato.

Um antigo alto dirigente do PPE disse ao Observador que considera “bizarro” Portugal “com a dimensão que tem e sendo Governo, perder a vice-presidência do PPE”. E acrescenta: “Isto não tem nada a ver com o Bugalho, é mau para o país, péssimo para o PSD”.