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(A) :: A "resistência" em Lisboa e o diálogo "pacífico" no Porto: como a PSP desmobilizou as acampadas pela habitação

A "resistência" em Lisboa e o diálogo "pacífico" no Porto: como a PSP desmobilizou as acampadas pela habitação

Intervenção da polícia sobre as duas manifestações aconteceu em simultâneo, seguindo a mesma estratégia. De um lado, saíram pelo próprio pé. Do outro, saíram 55 detidos.

Martim Andrade
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Tiago Caeiro
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Miguel Pinheiro Correia
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Inês Lacerda
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Diogo Ventura
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Guilherme Costa Oliveira
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Madalena Guinote Ramos
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Inês Correia
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Era suposto ser mais uma noite tranquila. A mobilização é diferente entre Porto e Lisboa, mas a causa da acampada é a mesma. Se na Praça D. João I, na Invicta, pernoitavam pouco mais de 30 pessoas, o Rossio serviu de parque de campismo para centenas, com mais de 200 estruturas de acampamento montadas em plena calçada portuguesa. Ao contrário do que tem sido habitual nos últimos dias de manifestação, não havia polícia em torno das tendas nas primeiras horas da madrugada. Em Lisboa, abandonaram o local pouco depois das 1h, e no Porto já não estavam presentes a partir da meia-noite. E, nestas condições, os manifestantes foram dormir, a acreditar que seria mais uma noite como as anteriores.

5h45. Tanto no Porto como em Lisboa, aparece um conjunto de agentes da Polícia de Segurança Pública para voltar a pedir a desmobilização dos acampantes. Numa “operação policial nacional devidamente coordenada” entre as forças localizadas nas duas maiores cidades do país, a PSP emitiu os primeiros avisos. E os segundos. Foi após uma “ausência de adesão às determinações transmitidas”, numa terceira tentativa que colocava um limite de tempo à sua retirada, que as autoridades forçaram a dispersão dos respetivos locais de manifestação.

https://www.youtube.com/watch?v=AxRAKZabg0A

“Foram emitidas ordens expressas de dispersão, acompanhadas das correspondentes advertências legais, incluindo quanto à eventual prática do crime de desobediência em caso de incumprimento de ordem legítima”, descreve a PSP num comunicado emitido na manhã de terça-feira. Sem uma resposta, os agentes começaram a impor a sua presença sobre os manifestantes. Em poucos minutos, os três agentes daquela força que tinham chegado à praça multiplicaram-se e chegaram às dezenas de membros das equipas de intervenção rápida e da unidade especial de polícia (UEP).

Nas duas frentes da Acampada pela Habitação, foram formados cordões humanos em torno das tendas, numa tentativa fútil de impedir a investida policial. No Porto, a desmobilização aconteceu de forma mais cooperativa com as autoridades, com a PSP a relatar o estabelecimento de “diálogo e sensibilização” com os manifestantes, que “acataram as solicitações e indicações” dos agentes no local e, assim, foram retiradas as mais de 80 tendas que ali se encontravam “sem necessidade de intervenção coerciva por parte da PSP”. Mas, em Lisboa, perante uma intervenção idêntica, a resposta foi distinta.

https://observador.pt/2026/10/20/acampadas-mai-destaca-profissionalismo-da-psp-que-privilegiou-dialogo-ate-ao-limite-psp-faz-55-detencoes-em-lisboa/

O cordão humano resistiu aos repetidos avisos das autoridades. “Apesar das sucessivas indicações policiais, em Lisboa, um conjunto de manifestantes recusou abandonar a Praça D. Pedro IV, adotando comportamentos de resistência ativa à intervenção dos polícias, comprometendo a execução das medidas legalmente determinadas”, considerou a PSP. E, por identificarem uma “evolução da situação”, viram a necessidade de adotar “medidas policiais destinadas a garantir o cumprimento das ordens emitidas e a segurança de todos os intervenientes”.

Munidos dos escudos translúcidos e com os bastões de lado, os polícias avançaram sobre os manifestantes. Segundo a PSP, a resposta foi “adequada” e “proporcional à situação”. Os manifestantes, no local, denunciam o “uso excessivo de violência” das autoridades, relatando agressões e “bastonadas”. Resultante desta operação em Lisboa, 55 pessoas foram detidas, duas ficaram feridas e todas as tendas foram “varridas” das duas praças.

Lisboa: a “resistência”, as “bastonadas” e os confrontos na Praça da Figueira

Os avisos demoraram até serem ouvidos. Num dos extremos da praça, com o Teatro Nacional D. Maria II como pano de fundo, surgem representantes da divisão de trânsito e da UEP da PSP. A tensão do momento, aliada aos problemas técnicos aparentes no megafone das autoridades, fez com que o diálogo não fosse possível. Os responsáveis da polícia foram-se aproximando, para se fazer ouvir, mas foram sempre recebidos com protestos daqueles que desde sábado estavam reunidos no Rossio.

Quando notaram este avanço, os elementos da organização que se revezavam durante a noite para estarem alerta pegaram no próprio megafone para acordar os restantes manifestantes. Quando o primeiro aviso chegou aos ouvidos dos participantes da acampada, formou-se o cordão humano em torno das 228 estruturas de acampamento montadas nas traseiras da estátua de D. Pedro IV. Os avisos continuaram, com os agentes da PSP a insistirem na retirada das tendas. Os pedidos permaneceram sem resposta e o cordão humano cresceu.

Diante de uma praça agitada, a PSP fez o último aviso. Cerca de cinco minutos depois, deu-se o início oficial da investida. As tendas que estavam nas extremidades foram as primeiras a ser “varridas”. Várias imagens captadas naquele momento mostram os agentes, com os bastões, a desviar o material de campismo, numa tentativa também de romper o cordão. Foi nesta altura que se fizeram notar as maiores diferenças entre a operação policial de Lisboa e a do Porto. Identificada “alguma resistência, quer passiva, quer ativa”, as autoridades consideram ter conduzido uma intervenção “devidamente adequada, proporcional e sem qualquer tipo de excesso”, segundo o porta-voz da PSP em conferência de imprensa.

Rompido o cordão, surgem os relatos das primeiras agressões. Terão sido os próprios manifestantes a quebrar os laços que formavam com os braços uns minutos antes. Houve uma reunião “ao centro” do acampado, atrás das tendas, e começaram os confrontos.

Manifestantes no local queixaram-se de um “uso excessivo” de força e de demonstrações de violência policial, apesar de a polícia garantir que não foi o caso. “Houve bastonadas, houve. Estou cheio de nódoas negras na perna”, partilha com o Observador um dos participantes da acampada, umas horas mais tarde. “A PSP sublinha que o recurso à força por parte dos seus polícias foi justificado pelas circunstâncias concretas da intervenção, limitado ao mínimo necessário, tendo cessado logo que deixaram de se verificar os pressupostos que o determinaram”, defendeu a força de segurança, num comunicado.

Esta “resistência” às ordens deixadas pelas autoridades foi o que levou à detenção de 55 manifestantes. Passaram-se horas até saberem quantos “companheiros” haviam sido detidos neste processo. Isto porque, na intervenção da PSP, uma das estratégias passou por retirar todo o pessoal não essencial daquela praça. Num intervalo de poucos minutos, nem manifestantes, nem jornalistas, nem qualquer outra pessoa que não estivesse devidamente identificada com o emblema da PSP podia estar no Rossio. À exceção dos manifestantes sentados no chão, com as mãos atrás das costas.

https://observador.pt/2026/10/19/autoridades-vigiam-fontes-abertas-para-controlar-protestos-aposta-e-na-mediacao-mas-aviso-e-claro-acampada-vai-ter-de-cessar/

Passaram centenas de uma só vez pela rua do Amparo, rumo à Praça da Figueira. A passagem subterrânea do metro fechou, após a abertura do serviço às 6h30, e todas as ruas que pudessem levar a população ao Rossio contavam com um dispositivo policial a impedir a passagem. Ao longo da manhã, várias pessoas alheias à manifestação quiseram deslocar-se até à Praça D. Pedro IV, com o objetivo de iniciarem a sua deslocação para o trabalho, mas sem sucesso. Ninguém podia passar.

O bloqueio continuou até todas as tendas terem sido retiradas do Rossio. E mesmo os manifestantes detidos só chegaram às esquadras em Campolide e no Martim Moniz várias horas após a detenção. Numa Praça da Figueira ainda sob a luz artificial dos candeeiros, os participantes do acampado dividiam-se entre cânticos e insultos à polícia que interditava o acesso ao local onde dormiram nas últimas duas noites. Muitos queixam-se de que os seus pertences foram “deitados ao lixo”.

Já pelas 8h30, após quase três horas de protestos contra a ação policial, a organização comunicou a decisão de desmobilizar, na promessa de regressar pelas 19h, àquele mesmo local, para decidir o futuro das manifestações. “Vamos dispersar agora”, anunciou Priscila Valadão à imprensa. A manifestante, que atua como uma das porta-vozes, apelou a uma nova mobilização popular nas próximas manifestações, que vão passar a ser diárias, no Rossio, a partir das 19h, ressalvando que, esta terça-feira, vão ainda decidir se voltam a colocar tendas naquela praça. A porta-voz da acampada de Lisboa denunciou ainda a falta de cuidados médicos para os manifestantes que ficaram feridos na sequência da operação policial esta madrugada.

Porto: o diálogo “pacífico” e a desmobilização pelo próprio pé

A memória da passada quinta-feira continua viva na mente dos manifestantes no Porto. Foi por volta das mesmas horas, pelas 6h30, que 37 participantes acabaram feridos — dois deles com gravidade — em confrontos com a polícia. Defenderam, na altura, que se comportaram de forma “pacífica” perante a investida policial e consideraram, portanto, inadequada toda aquela operação. Terá sido, aliás, este episódio que levou a uma crescente mobilização do movimento nos dias que se seguiram.

Por isto, não foi surpreendente quando as imagens da operação desta terça-feira mostraram vários dos manifestantes com capacetes ou com os rostos tapados. A formação de um cordão de segurança tinha, como objetivo, resistir à anunciada intervenção da PSP. Ao contrário do que acontece no Rossio, em Lisboa, a Praça D. João I não tem muitas saídas. Os elementos do corpo de intervenção posicionaram-se na parte superior, a olhar de cima para os manifestantes que continuavam sem dispersar.

https://observador.pt/2026/10/20/tendas-retiradas-do-rossio-e-da-praca-d-joao-i-as-imagens-da-intervencao-da-psp-em-lisboa-e-no-porto/

“Em voz alta, as pessoas disseram que não vão sair daqui. Informaram que temos 48 horas para nos apresentarmos a juiz, por crime de desobediência. O polícia falava ali de cima. Foi um momento cómico. Ainda no outro dia tentaram espancar-nos. Foi só um braço partido”, contou um dos manifestantes presentes à imprensa no local.

Mesmo com o equipamento aparentemente adequado para um confronto policial, a resposta dos manifestantes no Porto foi diferente da lisboeta. Passados alguns minutos de cordão em torno das tendas, um dos participantes da acampada garantiu à PSP que não iriam estar instalados “na praça pública de forma permanente”. O diálogo entre manifestantes e polícias aconteceu de forma pacífica e até houve espaço para estabelecer um acordo.

Os elementos da PSP não avançaram e, de forma “pacífica”, os manifestantes retiraram as tendas. Nesta altura, tal como no Rossio, os acessos à praça foram totalmente vedados pela polícia. Não passavam carros e só pessoas devidamente autorizadas é que podiam circular por ali. Com sacos de comida, garrafões de água, tendas e mantas, foram, aos poucos, esvaziando o piso de betão. Os itens pessoais foram ficando no caminho até à Avenida dos Aliados, até a polícia começar a retirar as restrições à circulação.

Apesar de ser descrita pela maioria dos manifestantes como tendo sido pacífica, sem qualquer detido ao contrário do que aconteceu em Lisboa, há relatos de que uma pessoa terá ficado ferida durante a intervenção policial na Praça D. João I. Segundo estes manifestantes, a vítima terá sido um estrangeiro que não fala português e que ficou para trás durante a retirada das tendas. Quando tentava juntar-se novamente aos outros manifestantes, terá sido atingido com um bastão numa mão, recebendo, depois, assistência médica da equipa de socorro do movimento Acampada. Ao Observador, fonte da PSP não confirmou a existência de um ferido.

Quando todos os manifestantes dispersaram, a polícia colocou grades para vedar o acesso àquela praça — mesmo que os membros da acampada tenham manifestado o interesse de regressar mais tarde. As equipas de limpeza da Câmara, à semelhança do que aconteceu em Lisboa, começaram a atuar assim que o espaço estava livre de tendas e pessoas. O gradeamento manteve-se durante toda a manhã, tendo sido apenas retirado pelas 14h40, abrindo a porta ao regresso já anunciado do movimento pelas 19h, tal como no Rossio.