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Quase 60% da riqueza do país está nas mãos dos 10% mais ricos, revelam dados do Banco de Portugal

Dados do Banco de Portugal revelam que o decil da população que tem mais património concentra cerca de 60% da riqueza acumulada no país. Famílias abaixo da mediana têm apenas 6%.

Edgar Caetano
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O grupo das famílias cujo património as coloca nas 10% mais ricas concentra, no seu conjunto, quase 60% da riqueza acumulada em Portugal. Essa é a realidade demonstrada por estatísticas divulgadas nesta terça-feira pelo Banco de Portugal, no âmbito de um esforço europeu para retratar de forma mais fiel o grau de desigualdade de património nos diferentes países da zona euro, para complementar as análises mais comuns que se baseiam nas divergências de rendimento.

Estes dados foram produzidos pelo Departamento de Estatística do Banco de Portugal e foram publicados neste dia 20 de outubro, em que se marca o Dia Mundial da Estatística (assinalado a cada cinco anos por decisão da Organização das Nações Unidas, a ONU).

O supervisor lançou uma plataforma aberta que permite aceder à base de dados que foi compilada pelo Banco de Portugal (e outros bancos centrais da zona euro) numa base experimental – isto é, com uma metodologia de recolha de dados que pode não ser definitiva mas que já tem uma robustez suficiente para permitir a sua publicação.

Nessa base de dados é possível perceber que a riqueza líquida (ativos subtraídos dos passivos) tem crescido desde 2010 e, no final de 2025, totalizava 1.196 mil milhões de euros. É um valor que corresponde a 388% do produto interno bruto (PIB), isto é, a riqueza produzida anualmente no país, nota o Banco de Portugal, salientando que este valor percentual se tem mantido relativamente estável nos últimos anos.

A riqueza líquida tem evoluído sensivelmente em linha com a evolução da atividade económica, com os dados de 2010 a 2025 a revelarem que apenas entre 2011 e 2013 se observou uma redução do valor da riqueza líquida – o que corresponde ao período do ajustamento económico e financeiro supervisionado pela troika de credores (Comissão Europeia, BCE e FMI).

O que os dados também mostram é que os imóveis são o ativo mais importante, de um modo geral, para calcular o património das famílias. Mas isso é, proporcionalmente, mais relevante nas famílias com menos posses já que as outras, as mais ricas, conseguem diversificar mais o seu património por outros ativos como participações de capital (em empresas) e aplicações financeiras.

Entre 2010 e 2025, os imóveis representavam, em média, 52% do total de ativos das famílias seguidos dos depósitos (19%) e das participações em capital (16%).

Porém, o Banco de Portugal apurou que, no final de 2025, os imóveis representavam mais de 70% dos ativos do grupo de famílias abaixo da mediana, mas menos de 40% no grupo pertencente ao top 10% de riqueza líquida.

A mediana é o valor que fica exatamente no meio de um conjunto de dados quando eles são organizados em ordem crescente ou decrescente. Ela funciona como uma “linha divisória”: metade dos valores está abaixo dela e a outra metade está acima, distinguindo-se da média por essa razão.

Sendo este um exercício em que todos os bancos centrais da zona euro estão a participar, a comparação dos dados permite dizer que, entre 2010 e 2025, Portugal e a área do euro registaram evoluções semelhantes da desigualdade na distribuição da riqueza.

Essa é uma realidade que é ilustrada, habitualmente, pelo chamado coeficiente de Gini, que vai de zero a 100 (sendo que quanto mais próximo de 100 maior é a desigualdade de património, e vice-versa).

Em ambos os casos, “a desigualdade aumentou ao longo da década de 2010, diminuiu no final desse período e voltou a aumentar nos anos seguintes”, refere o Banco de Portugal, referindo-se tanto aos dados do país como da zona euro.