As pessoas mais inteligentes que conheci falavam pouco; preferiam ouvir. Mas, quando decidiam quebrar o silêncio, a sua intervenção era habitualmente impactante, tornando as restantes intervenções pouco relevantes.
A sociedade moderna está edificada sobre o barulho. Vivemos um tempo em que a necessidade de falar se espalhou por todo o lado: podcasts, programas de rádio, debates televisivos e redes sociais. Em todos estes espaços proliferam pessoas ávidas de falar. Nalguns casos, as participações são superficiais, fúteis e inúteis. A verborreia instalou-se. Os comentários são muitas vezes pouco moderados, frequentemente precipitados e, por vezes, ofensivos.
Outro aspeto intrigante é este: como é que estas pessoas que estão permanentemente no espaço público a falar têm tempo para pensar? Afinal, que espaço reservam à reflexão? Como é que é possível conhecermo-nos no meio do barulho? No silêncio, diversas pessoas sentem-se inquietas, perdidas e inseguras. Estar em silêncio implica, por vezes, confrontarmo-nos com pensamentos e sentimentos que o ruído quotidiano ajuda a anestesiar. Não há espaço para o silêncio porque a sociedade vive numa constante embriaguez de palavras.
Muitos políticos estão também absorvidos nesta verborreia insana, pois o silêncio é visto como um sinal de fraqueza. As aparições públicas sucedem-se e, em todas elas, lá surge inevitavelmente o discurso, a palavra. Não está em causa o dever de prestar esclarecimentos aos cidadãos, mas a transformação da comunicação num exercício ininterrupto de protagonismo. Perante tantas intervenções públicas, não deixa de ser intrigante tentar descobrir quanto tempo dedicam a estudar os dossiês e a ponderar decisões. O poder executivo parece estar em permanente campanha eleitoral a proferir declarações inconsequentes que rapidamente caem no esquecimento.
As empresas também não escapam à epidemia do falatório. As reuniões sucedem-se umas às outras. A perceção de muitos dos participantes é a de que se trata de uma perda de tempo. Habitualmente, as reuniões prolongam-se demasiado, sendo utilizadas como palco retórico para que chefes, diretores e os CEOs exibam o seu protagonismo, demonstrando o seu poder. Aliás, um CEO que não tenha várias reuniões por dia na sua agenda parece ser pouco produtivo e um mau líder. Mas não será o contrário? As reuniões excessivas, prolongadas e enfadonhas não comprometem a produtividade? Este aspeto parece ter uma dimensão cultural, já que noutros países se valoriza a eficácia organizacional e se procura que as reuniões comecem e acabem a horas.
Nestes três cenários, julgo que subjazem duas explicações: por um lado, a associação errada entre o poder e o uso excessivo da palavra; por outro, o desejo narcísico de estar no centro das atenções e de ser admirado. O homem que fala é celebrado e admirado. É visto como forte, já que esmaga o outro com os seus discursos.
Esta realidade social revela ainda um paradoxo: fala-se muito onde se devia falar menos e fala-se pouco onde se devia falar mais. Algumas pessoas que se mostram verborreicas na vida pública surpreendem pela falta de diálogo na vida familiar. Este emudecimento no contexto familiar tem, obviamente, consequências negativas e deve ser contrariado. Não existe intimidade entre as pessoas se não houver partilha. Importa, porém, distinguir o silêncio que permite escutar daquele que revela indiferença e ausência de comunicação. A comunicação na vida familiar é tão ou mais necessária do que na vida social, política ou profissional. Quem fala incessantemente em público, mas permanece em silêncio no seio da família, corre o risco de falhar precisamente onde a comunicação é mais importante.
Torna-se necessário encontrar um equilíbrio entre falar e escutar. É falso que uma pessoa, para ser valorizada ou obter notoriedade, tenha de falar muito; é falso que seja necessário estar sempre a comunicar. A gestão do silêncio e as pausas no diálogo para escutar são competências da vida social. É preciso exercitarmo-nos no silêncio, pois sem momentos de recolhimento dificilmente podemos amadurecer.
Talvez possamos aprender algo com os “mestres do silêncio”. Nos Estatutos da Ordem dos Cartuxos (Livro II, capítulo 14, «O silêncio»), recomenda-se moderação no uso da palavra, pedindo aos irmãos que contem e meçam as suas palavras quando lhes é permitido falar. Neste contexto, é feita a advertência: “Frequentemente, a conversa que começa sendo útil, degenera cedo em inútil, para terminar sendo censurável”.