O dia está meio nublado no sábado de manhã. O bairro está tranquilo, sem grande movimentação. Pequenas oficinas estão abertas, assim como os bares — os chamados botecos no Brasil. No número 1456 da rua Auriverde, está um prédio relativamente recente com uma mercearia por baixo. Foi ali que viveu Luiz Inácio Lula da Silva, numa casa que já não existe. O atual Presidente brasileiro nasceu em Garanhuns, no estado de Pernambuco. Mas a mãe do chefe de Estado — a Dona Lindu — foi viver para os subúrbios de São Paulo, mais concretamente para a Vila Carioca, quando se separou do marido.
Esta foi uma das primeiras casas da família na Vila Carioca, onde também vivia o senhor Machado, como conta Fernando Arosa ao Observador. “Morreu com 92 anos. Depois venderam a casa e transformaram num prédio moderno com a mercearia”, narra o mecânico, na casa dos 60 anos, vestido com um macacão manchado de óleo, numa oficina muito perto da casa. O senhor Machado era o tio de Lula da Silva, que, durante uns tempos, deu guarida aos sobrinhos e à irmã. “O tio era um homem bom”, lembra.
Foi um período marcado por muitas dificuldades na vida de Lula da Silva, que chegou aos subúrbios de São Paulo aos 11 anos, depois da separação conturbada dos pais. Em 2014, recordou no X que, quando morava na Vila Carioca, não tinha casa de banho — e usava a “do bar”. Este bairro é o sítio onde o atual Presidente cresceu e viveu a adolescência e o início da idade adulta, na altura longe de imaginar que chegaria um dia ao Palácio do Planalto.

A cerca de 15 quilómetros da Vila Carioca, fica São Bernardo do Campo, outro subúrbio paulista. Foi ali que Lula da Silva cresceu profissionalmente e que despertou para o sindicalismo. Aquele município transformou-se no grande polo industrial metalúrgico e berço da indústria automobilística no Brasil. Foi neste mundo que o Presidente brasileiro trilhou um caminho bem-sucedido nos sindicatos, que o levou à política e a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT).
Esta segunda-feira, apesar do tempo frio e bastante nublado, foi dia de festa à porta do ABC Metalúrgicos, o poderoso sindicato que o chefe de Estado liderou durante seis anos e que combateu ferozmente a ditadura militar. À porta da central sindical, em São Bernardo do Campo, milhares de pessoas fizeram uma caminhada por Lula, demonstrando o seu apoio. Por oposição, na Vila Carioca, o estado de espírito é bem diferente: as críticas à atuação do líder brasileiro são bastantes — e é Flávio Bolsonaro o favorito a vencer as eleições.
Na Vila Carioca, há muitas críticas a Lula: “Ladrão” que “dá subsídios para ganhar votos”
Em São Paulo, a Vila Carioca acolheu, em meados do século passado, milhares de deslocados internos do Brasil. Àquele bairro, pertencente ao distrito do Ipiranga, chegaram sobretudo pessoas oriundas do Rio de Janeiro — daí a designação carioca. Mas vieram de mais partes do Brasil, como Lula da Silva. Também Antônio Fernandes, de 72 anos, conta ao Observador que nasceu no Pará, tendo trabalhado “nas grandes fazendas” do estado, antes de assentar na Vila Carioca.

O mecânico de 72 anos recorda-se de quando chegou à Vila Carioca, ainda bastante jovem. “Tinha muitos carros, estradas cheias, muitas casas. As pessoas tinham empregos nas fábricas ou nas pequenas oficinas.” Ainda assim, apesar de o Brasil viver um intenso processo de industrialização, vivia-se com muitas dificuldades económicas: “Tinha uma pequena casa e tinha sete filhos: cinco rapazes e duas raparigas. Mas a gente ia vivendo”.
Mesmo com o avanço do sindicalismo no Brasil, Antônio Fernandes nunca se sentiu atraído pela atividade sindical. E censura diretamente Lula da Silva por “não deixar a gente trabalhar”: “Estavam sempre em greves. As pessoas queriam ir para o trabalho e não podiam”. Entre 1979 e 1980, enquanto líder do Sindicato dos Metalúrgicos, o agora Presidente organizou massivas manifestações contra a ditadura militar. Este mecânico de 72 anos nunca percebeu “por que Lula queria fazer tantas greves”. “Era malandro”, acusa.
Ao contrário de São Bernardo do Campo, a Vila Carioca é um pequeno bairro operário. Em vez de abrigar grandes fábricas de automóveis de multinacionais como a Volkswagen ou a Ford, acolheu sobretudo pequenos negócios — como oficinas mecânicas, pequenas construtoras ou transportadoras, algo que ainda se vê quando se passa pelas ruas do bairro. Ali, na pequena indústria, o sindicalismo nunca teve a mesma expressão como noutros locais de São Paulo.
Lula da Silva também trabalhou na Vila Carioca. Aos 12 anos, tornou-se empregado numa tinturaria, depois trabalhou como moço de recados e em empresas locais, como os Armazéns Gerais Colúmbia (na Avenida Presidente Wilson) — o seu primeiro trabalho mais formal. O Presidente brasileiro chegou mais tarde à Fábrica de Parafusos Marte, no bairro da Mooca, vizinho do Ipiranga. Aos 18 anos, já terminado o curso de torneiro mecânico, regressou ao bairro e trabalhou na Metalúrgica Independência.
Foi na Vila Carioca que Lula da Silva, aos 18 anos, perdeu o dedo mindinho da mão esquerda. Num turno da madrugada na Metalúrgica Independência, sofreu um grave acidente de trabalho quando uma prensa lhe esmagou a mão, tendo esperado horas para ser atendido por um médico. Também quando estava a trabalhar na empresa soube do início do golpe que destituiu o antigo Presidente João Goulart e deu origem à ditadura militar, em 1964.
Quem se recorda bem de como era o chefe de Estado em jovem é Paulo César de Freitas, um homem de 78 anos que vive na localidade e que assegura que privou com ele. Mas as memórias do convívio não são nada positivas. Sentado num boteco, juntamente com um amigo, no sábado de manhã, recorda que Lula “era meio envergonhado e nunca foi boa pessoa”. E até alegou que foi o próprio Presidente “quem cortou o dedo” para “não trabalhar” — uma versão para a qual não há quaisquer provas.

Ao seu lado, na pequena esplanada do boteco, João Carlos atira que Paulo César é um “primo afastado” do Presidente. “Isso não é para falar com ninguém”, censura o amigo, recusando-se a desenvolver o assunto. Independentemente do suposto parentesco, o homem de 78 anos alega que chegou a ver o líder brasileiro a “roubar um Volkswagen” quando era jovem — outra acusação que atirou para o ar sem elaborar.
“Ele andava em bares e bebia muito. Sempre bebeu muito no fim de semana”, critica Paulo César de Freitas. Um pouco mais novo, João Carlos não tem grandes recordações do atual Presidente, mas garante que a fama que ficou na Vila Carioca é a de que “bebia demais”. “Ainda hoje o chamam de cachaceiro por algum motivo”, continua.
Paulo César confessa que nunca gostou de Lula da Silva e considera que, enquanto Presidente, “fez pouco de bom” pelo país. João Carlos, por sua vez, tem uma visão menos negativa do legado do chefe de Estado: “Fez coisas melhores, outras piores. Havia pessoas que não tinham o que comer e subiram na vida. Mas depois também sempre gostou de alimentar os amigos dele, não é?”. “Sempre foi um ladrão”, dispara Paulo, sem grandes hesitações.

Um dos feitos de que Lula da Silva mais se orgulha é o Bolsa Família. O programa foi lançado no primeiro mandato do Presidente brasileiro, sendo um subsídio que apoia as famílias em situação de pobreza e extrema vulnerabilidade. O chefe de Estado também fez da erradicação da fome uma das suas principais prioridades. “Não vou descansar enquanto houver pessoas que não tomam o pequeno-almoço, o almoço e o jantar”, prometeu várias vezes. Como resultado, o Brasil conseguiu sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014 — um marco histórico que o chefe de Estado faz sempre questão de realçar.
Na Vila Carioca, ainda assim, a impressão que fica não é bem essa. Antônio Fernandes diz que chegou a receber o Bolsa Família, mas que isso nunca mudou a sua opinião sobre Lula da Silva. “Eles não querem que a gente trabalhe”, riposta. Aos 72 anos, o homem conta que continua a trabalhar como mecânico: “Quero aposentar-me, mas vou receber o equivalente ao salário mínimo e isso não dá para viver. O subsídio não resolve a vida de ninguém se a gente não tiver um trabalho de verdade”.
Quem também concorda com estas críticas é Sandrine Amaral, dona de um pequeno quiosque na Vila Carioca. Vendendo jornais, pastilhas elásticas e tabaco, numa infraestrutura cinzenta, a mulher adota um discurso bastante duro contra Lula da Silva e os apoios sociais. “Eu trabalho sete dias por semana e nunca precisei da ajuda do Estado. Vejo aqui na Vila Carioca: há pessoas a receberem o Bolsa Família e têm grandes carros estacionados na garagem. É dinheiro para a gente não trabalhar”, relata.
“É um problema no Brasil. Lula quer comprar votos com os apoios. Sempre quis, é óbvio, nunca tive dúvidas”, critica a pequena empresária. “Agora falam do fim da escala 6×1 [a proposta para garantir dois dias de folga semanais aos trabalhadores em vez de apenas um, que foi aprovada no Congresso na semana passada]. Mas eu trabalho todos os dias para pagar as contas e nunca fiz queixa”, atira Sandrine Amaral.
Por sua vez, Antônio Fernandes centra ainda o seu discurso na desindustrialização do Brasil, um processo que se intensificou nas últimas décadas e que esvaziou pequenos bairros operários como a Vila Carioca. “Antigamente havia tanta gente na Vila Carioca. Agora há pouco emprego, poucas casas e cada vez menos gente. As pessoas têm de se esforçar cada vez mais. E a culpa é do Lula”, critica o mecânico.
Em quem vai votar no domingo, dia 25 de outubro? O homem de 72 anos não tem dúvidas: Flávio Bolsonaro. “Ele já teria ganhado na primeira volta se não fosse aquele juiz safado”, atira Antônio Fernandes, atacando Alexandre de Moraes, o polémico juiz do Supremo Tribunal Federal que liderou o processo judicial que resultou na pena de prisão de 27 anos e três meses para o ex-Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

Sandrine Amaral também declara que vai votar em Flávio Bolsonaro, assim como Paulo César de Freitas. “Se Bolsonaro ganhar, corto a barba no domingo para celebrar”, declarou o homem de 78 anos, o tal suposto “primo afastado” de Lula da Silva.
No entanto, nem todos na Vila Carioca estão contra o Presidente. Serena Quilombola diz que vai votar no candidato do PT.
Perto doutra oficina, enquanto convive com alguns vizinhos, a cozinheira de longas tranças, que trabalha num pequeno restaurante perto da casa onde viveu Lula da Silva, sublinha que “sempre foi apoiante do Lula”: “Ele é daqui, não é? Seria mau não votar no candidato daqui”. Serena reconhece que “não sabe muito de política”, mas que sente que “Flávio Bolsonaro não seria um bom Presidente”. “Mas aqui na Vila Carioca sei que as pessoas estão mais pelo Bolsonaro, ainda que esteja meio dividido”, nota.
Num país polarizado, há quem também opte por não votar em nenhum dos candidatos. Lúcia Bianchi é amiga de Sandrine Amaral e encontra-se com ela no quiosque, na manhã deste sábado. Ao Observador, afirma que tem recebido mensagens que dizem que tem de ir votar ou “tiram-lhe os subsídios”. “Ela tem problemas de visão e tem um subsídio especial”, explica a dona do quiosque. Questionada sobre quando lhe foi concedido esse benefício, Lúcia explica que foi durante os mandatos de Lula da Silva.
Ainda assim, não se interessa por política — não gosta do atual Presidente, nem do seu rival. Alegando que vai ter de ir votar na segunda volta para não perder o benefício financeiro de que usufrui — ainda que oficialmente não exista qualquer penalização desse género em vigor —, Lúcia Bianchi vai optar pelo voto nulo. “Não voto em Lula nem em Bolsonaro, só voto em Deus”, resume.
No sindicato, Lula da Silva é visto como um herói: “Foi ele quem retirou o Brasil da pobreza”
Uma grande festa. Apesar do tempo cinzento e do frio anormal para outubro que se faz sentir em São Bernardo do Campo esta segunda-feira à tarde, nada desanima os apoiantes de Lula da Silva. Reunem-se em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde dançam ao som de músicas que aclamam o Presidente brasileiro. Uma das que mais se ouve é Deixa o Homem Trabalhar, a canção da campanha de 2006. Outro dos gritos de guerra que fazem a multidão vibrar é “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.
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No sindicato a que dedicou grande parte da sua vida — e que deu origem à sua carreira política —, não há dúvidas de que Lula da Silva é visto como um excelente Presidente. No edifício da central sindical está uma faixa negra onde se lê: “Lula Presidente”. Quem entra no edifício vê cartazes e folhetos de apoio à candidatura do PT. No átrio, veem-se tapeçarias de figuras históricas da esquerda, como Rosa Luxemburgo, Mahatma Gandhi e Che Guevara. No centro? Lula da Silva.
Percorrer as instalações do sindicato é como visitar um museu em homenagem ao atual chefe de Estado. As referências multiplicam-se — desde cartazes do período em que esteve detido a exigir “Lula Livre” até múltiplos retratos da sua trajetória. Para Carlinhos Neri, que integrou o mesmo sindicato e conviveu com Lula nessa época, a homenagem é indiscutível: “Ele foi a figura mais importante deste sindicato”.
“Representou-nos de forma extraordinária. Foi um grande homem que não teve medo de enfrentar o poder. Sabe, há muito preconceito no Brasil contra Lula da Silva. O operário pobre chegou a Presidente e isso é motivo de orgulho, um exemplo para nós. Mas ele sempre foi perseguido pelos adversários”, sublinha, durante o evento na ABC Metalúrgicas, o antigo operário da indústria automóvel, atualmente reformado. “Sempre fui um grande apoiante e votei nele sempre. Para mim, Lula é o melhor político da história do Brasil”, diz.

Depois da Vila Carioca, a partir de janeiro de 1966, Lula da Silva trabalhou durante anos nas Indústrias Villares, dedicadas ao setor da metalurgia e equipamentos pesados. Foi ali que, sob influência do seu irmão mais velho, Frei Chico, ingressou no movimento sindical, que liderou. “Ele tinha muito jeito. Sabia falar, sabia expressar-se. Era um homem que tinha força. Não desistia facilmente das reivindicações. E sabia ser justo”, lembra Carlinhos Neri.
Em 1975, o atual Presidente foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema com 92% dos votos. Durante os seus mandatos, confrontou várias vezes a ditadura militar. No final dos anos 70, quando o regime se ia flexibilizando lentamente, Lula da Silva liderou massivas paralisações e greves que desafiaram o Governo. Em 1980, na sequência desse movimento, acabou detido durante cerca de um mês.
De qualquer forma, a forma como lidou com a ditadura concedeu-lhe um elevado capital político. “Acho que o Lula político se fez realmente no sindicato”, corrobora Carlinhos Neri. “O seu talento ficou provado. Mobilizava como ninguém e tinha discursos incríveis. E também sempre foi cabeça dura”, frisa. A partir desse embate contra a ditadura, ajudou a fundar o PT. Em 1986, com a democratização do país, foi eleito o deputado para a Câmara dos Deputados. Tentou chegar à Presidência, mas perdeu três vezes (1989, 1994 e 1998), até vencer finalmente em 2002.
Na chegada ao Palácio do Planalto, Lula da Silva aprovou programas de inclusão social inéditos até então, como a Bolsa Família. André Prisco, que atualmente faz parte do sindicato, considera que foi Lula da Silva “quem retirou o Brasil da pobreza”. “Nenhum governante tinha tido tanta coragem como Lula. Ele falava para os pobres e não apenas para as elites”, salienta.
Questionado sobre as polémicas em que se envolveu o chefe de Estado — como a Operação Lava Jato, que levou à sua detenção —, André Prisco considera que tudo não passou de uma “perseguição política” movida pelos “mais poderosos”: “Há gente que nunca lidou bem com ele. Ele acabou libertado e essa é a prova de que foi injustiçado. Nunca acreditei em nada de que o acusavam”.
Na rua André Basso, onde a festa continua em celebração de Lula da Silva, está uma jovem com uma t-shirt com o número 13 (que representa a candidatura do PT) e com vários autocolantes de apoio. Rebeca Wellington dança animadamente ao som das músicas que passavam na caminhada. A jovem de 22 anos mora num apartamento perto do sindicato e confessa ser politicamente muito ativa: “A minha família não é sindicalista, mas eu vim aqui apoiar o Lula”, sinaliza ao Observador.

Sobre o legado de Lula da Silva, só tem a dizer bem. “Foi um Presidente que permitiu ao Brasil ser um país mais igualitário, justo e equilibrado. Sem ele, não estaríamos onde estamos hoje. Venho de uma família pobre e estudo numa universidade pública. Ele tem de ganhar estas eleições ou o Brasil vai retroceder”, afirma. “O futuro precisa de Lula da Silva. É uma inspiração. É por isso que estou a fazer de tudo para virar voto e para que Lula vença.”
A apenas quinze quilómetros de distância, na Vila Carioca nos subúrbios de São Paulo, o contraste não podia ser maior. Mas o fenómeno é transversal a todo o Brasil: Lula da Silva é um Presidente que gera uma profunda polarização. No dia 25 de outubro, o jovem que cresceu sem casa de banho e que liderou um poderoso movimento sindicalista escreve o derradeiro capítulo de uma longa carreira política que dificilmente deixará de suscitar paixões e críticas.