Quando em fevereiro Konstantin Vlasenko, um soldado ucraniano da 30ª Brigada, foi ferido na margem esquerda do rio Oskol, numa posição com intensa atividade de drones russos e no meio de um terreno minado, as forças militares ucranianas optaram por tentar algo nunca antes feito: recorrer a um drone para realizar o resgate. Uma gangrena, duas pernas amputadas, uma tentativa de extração por terra e oito meses depois, a operação foi finalmente bem-sucedida. O protagonista é um hexacóptero de carga pesada modificado, desenvolvido pela empresa ucraniana Gurzuf Defence, e cedido gratuitamente para a 92.ª Brigada de Assalto Independente da Ucrânia.
A Gurzuf Defence é uma empresa ucraniana conhecida pela produção de drones do tipo Heavy Shot, modelos empregados especialmente como bombardeiros, por serem capazes de transportar até 30 kg de munições e operar a distâncias de até 25 km. O equipamento é produzido em massa — são dezenas de milhares por ano — e utilizado em várias unidades do exército ucraniano. Mas a primeira aeronave construída pelo desenvolvedor-chefe, Oleh Hynda, data de 2016 — numa altura em que a produção decorria na garagem de casa, quando tinha como clientes contrabandistas de cigarros, conta ao Ukrainska Pravda.
Em março o jornal ucraniano desvendava uma novidade da empresa, que começou a ser desenvolvida há cerca de um ano, o Ayudag-6. Pesa cerca de 100 kg, tem seis longos braços e grandes motores nas extremidades — uma espécie de helicóptero sem cabina, o que explica o termo “hexacóptero”. O nome do drone faz referência ao número de motores e ao monte Ayudag, que fica perto da cidade de Gurzuf, na Crimeia. Com um alcance de voo de até 25 km, opera a uma altitude entre os 150 e os 300 metros. Mas o diferencial está na carga que é capaz de levar: até 135 kg, o que permite transportar uma pessoa adulta.
Nas redes sociais, a Gurzuf Defence partilhou um vídeo com detalhes sobre a operação, que começou a ser desenhada ainda no começo do ano. Vlasenko tem 49 anos e é um voluntário que permaneceu na posição em Kupiansk sozinho depois de o seu companheiro de armas ter sido morto num ataque russo. “Ofereceram-me a hipótese de me render, mas eu não consegui fazê-lo”, diz o homem. O soldado foi ferido em fevereiro, perdeu a perna direita em abril e teve de amputar ele próprio a esquerda em maio. Sem conseguir sequer rastejar, recebia comida, água e medicamentos através de descargas enviadas por drones.
Uma tentativa de resgate com um veículo terrestre não tripulado falhou, o que motivou o contacto com a Gurzuf Defence. “Repare: já participámos em muitas missões — lançando bombas de 100 kg juntamente com os militares, tratando da logística, e por aí fora. Mas, quando não se trata de carga ou de uma bomba, mas sim de um ser humano vivo… bem, acho que todos compreendem a complexidade de uma missão como esta”, diz o fabricante.
De acordo com a agência de notícias do Ministério da Defesa ucraniano, as tropas desenvolveram em colaboração com o fabricante uma solução técnica que permitiu ao drone transportar um soldado ferido mantendo a estabilidade durante o voo. Testes foram realizados nas instalações da empresa e a operação foi planeada em conjunto com as unidades militares. Foram meses de treino e dezenas de pessoas envolvidas.
Vlasenko recebeu instruções por vídeo sobre como se fixar ao equipamento, através de duas cordas presas nas laterais. “Havia uma câmara instalada no drone, por isso podíamos ver o que eu estava a demonstrar — usando sinais com as mãos para verificar se estava tudo bem ou se ele estava confortável”, conta o responsável. Durante o percurso, o drone chegou a uma altitude máxima de 120 metros. “Fiquei aterrorizado quando sobrevoámos a água, porque não sei nadar”, conta Vlasenko.
O soldado já passou por cirurgias e está a recuperar. Ainda deve enfrentar reabilitação, colocação de próteses e acompanhamento com psicólogos. E em breve deve ser homenageado com uma honra militar, e receber o título de “Herói da Ucrânia”.