“Com uma forte obsessão com a divisão de classes, adoptou uma retórica de inspiração marxista da exploração e traição da classe trabalhadora, atacando fortemente o que considera ser uma burguesia podre que apelida de filhos das elites, de betos, os mais favorecidos à nascença, que associa à direita conservadora e religiosa, aos capitalistas, proprietários, senhorios e fascistas”. É deste modo que o Ministério Público se refere aos elementos do Panda e Os Caricas. Estava a brincar. Não é ao Panda e os Caricas, mas é a alguém que uma parte infantil da população acha muito fofinho. Trata-se de Nelson Vassalo, o homem que em Março atirou um cocktail Molotov a uma manifestação anti-aborto.
O MP alude ainda “a um discurso de incentivo ao ódio e à violência, por o suspeito identificar os seus adversários como uma ameaça ao modelo de sociedade que idealiza”. E fala em premeditação de um extremista que desejava causar danos graves. Vassalo, considera o MP, “agiu unicamente pela convicção político-ideológica de extrema-esquerda, visando a luta política armada violenta, através do uso do fogo, deliberada e exclusivamente contra aqueles manifestantes que odiava e que considerava que defendiam ideias opostas às suas, enquadrando-os no espectro político do que considera ser direita conservadora, capitalismo, extrema-direita ou fascismo”.
Nelson Vassalo nega esta interpretação do MP e adianta outra explicação para o sucedido. Segundo o CM, logo após o atentado, em mensagens tecladas com dedos ainda pegajosos de gasolina, Nelson e um amigo combinaram a estratégia de defesa. Passava por vender a ideia de que o cocktail Molotov tinha visado a escada. O objectivo era fazer chegar essa versão a um comentador amigável na comunicação social, que a colocaria a circular. “Já depois do ataque e da primeira detenção (21 março de 2026), as mensagens recolhidas no telemóvel de Nélson Vassalo mostram que houve uma preocupação para criar uma narrativa que lhe fosse favorável. A 27 de março, um amigo disse-lhe ser necessário “pensar e começar a implantar a versão” de que o alvo do cocktail Molotov não era a “Marcha pela Vida”, mas sim as escadarias da Assembleia da República, em protesto contra as políticas de habitação. O mesmo amigo disse ser necessário “alguém com visibilidade a mandar a versão verdadeira”. “Pois quem?”, perguntou Nelson Vassalo, ao que o seu amigo, Nuno Lopes respondeu: “Tinha que ser um Pedro Marques Lopes desta vida, que não esteja ligado à esquerda”. A outra alternativa, de acordo com a conversa, era “o Chicão”, numa referência a Francisco Rodrigues dos Santos, ex-presidente do CDS/PP, comentador da CNN/Portugal”
Uma boa estratégia, encomendar a difusão da narrativa a alguém supostamente independente e insuspeito de ser apoiante de terrorismo. Não se sabe se foi tentada, mas a verdade é que acabou por ser adoptada por Ricardo Sá Fernandes, o advogado que representa Nélson Vassalo. No pedido que fez para libertarem o seu constituinte, Sá Fernandes refere que Vassalo voltava de outra manifestação, esta pelo direito à habitação, e por acaso passou por São Bento, onde decorria uma passeata anti-aborto. Uma coincidência feliz. É que, como todos os activistas anti-capitalistas, Vassalo milita num pot-pourri de causas que se interseccionam. Além da habitação e do aborto, há também o ambiente. Ao deparar-se fortuitamente com a Marcha Pela Vida, Nélson Vassalo constata que ainda lhe sobrou um cocktail Molotov da outra manif. Com a consciência ecológica bem afinada para combater o desperdício, Vassalo sabe que tem o dever de reciclar. Até porque, como é do conhecimento geral, o cocktail Molotov tem de ser rebentado no dia. Se for congelado, perde a graça.
Está explicada a não premeditação – apesar de, ao que parece, o MP também ter encontrado SMS que a desmentem: “Nos dias anteriores ao atentado contra a Marcha Pela Vida, Nélson Vassalo trocou mensagens com amigos sobre a preparação do ato. O que levou o Ministério Público a sublinhar o carácter premeditado do mesmo.” Já a violência brutal do acto é negada com outro argumento: “A intenção não era arremessar o cocktail Molotov contra as pessoas presentes, mas sim arremessá-lo na direcção da escadaria do Parlamento, onde esperava que ele deflagrasse” “Nelson Vassalo tem consciência de que praticou um ato irreflectido e irresponsável, de que está profundamente arrependido. Porém, não só não é verdade que tenha arremessado intencionalmente o engenho contra quaisquer pessoas, como nada o movia nem move contra o movimento Pró-Vida”. O alvo não eram as pessoas, eram as escadarias do Parlamento. O que, se pensarmos bem, faz todo o sentido. Nelson Vassalo bate-se pela justiça social e pela igualdade. E nada representa melhor a desigualdade do que as escadas. Uns no patamar de cima, outros lá em baixo. A escada é uma construção capitalista que discrimina, oprime e causa dores nos joelhos – além de que tem um proprietário, neste caso o Estado português, e Vassalo é contra a propriedade. Ao atirar uma bomba artesanal aos degraus, Vassalo queria destruir o símbolo do desnivelamento que existe na nossa sociedade. Que melhor imagem de democracia popular que um edifício público a arder? Por azar, estavam para lá umas pessoas, incluindo bebés e crianças. Mas, como também refere Sá Fernandes, tratou-se de um “acto irreflectido e irresponsável”. No fundo, quase instintivo. É o tipo de reacção espontânea suscitada pelo confronto com uma grande injustiça. Vemos umas pessoas a gritar slogans contra o aborto e a eutanásia e ficamos com vontade de lhes pegar fogo. Compreensível.
Confesso que me surpreendeu esta cobardia do revolucionário. Tanto tempo a empinar o manual do Marighella, a emular o Che, o Buiça e o Grupo Baader-Meinhof, malta que assumia o que fazia, para depois vir dizer: “Estava a apontar às escadas. Principalmente ao terceiro degrau, que tinha um ar mesmo reaccionário”, parece-me pífio. Mas tudo bem, ir para a prisão é chato, mesmo para um militante convicto da habitação gratuita a expensas do Estado.
Apesar da bem fundamentada alegação, o Tribunal da Relação não se deixou convencer e não permite que Vassalo aguarde pelo julgamento em liberdade. Ricardo Sá Fernandes devia ter arranjado mais um ou dois argumentos. Talvez pudesse ter dito que, ao preço que está a gasolina, é pouco provável que Nelson Vassalo reincida. Embora o que não falte por aí são escadas que estão mesmo a pedi-las.